TEMPOS MODERNOS 

Empresa Flexível, fim do Trabalho, Globalização, criatividade...

Prof. Maurício Marra*
Ensaio

Em um trabalho desenvolvido para o mestrado em Comunicação e Mercado, o Prof. Mauricio Marra buscou refletir sobre as novas tendências mundiais.

Essa reflexão, baseada em dois autores de muita repercussão no ano de l999, busca servir também de alerta para repensarmos o papel das Relações Públicas, preparando nossos jovens para a nova realidade profissional.

Embora o autor receie muito, os “profetas” que surgem de tempos em tempos, acredita entretanto que a análise de seus pensamentos pode fornecer valioso subsídio para a identificação de tendências sociais e mercadológicas. Por outro lado, demonstra também uma grande preocupação com o futuro, principalmente no que se refere aos valores morais e éticos da sociedade.

 

Apesar de todos os esforços empreendidos por Einstein  em provar que o tempo e o espaço são relativos, chegamos ao final de mais um século como se a temporalidade humana dependesse dessa compartimentação. Paramos para refletir sobre os últimos cem anos e começamos a imaginar como serão os próximos, sem lembrar que não são datas, mas sim fatos que alternam a nossa história.

Mais importante que a chegada de um dia especifico (e polêmico)  para marcar a passagem para um novo século, devemos lembrar daqueles momentos em que o homem realmente realizou algo transformador, que o levou a uma verdadeira “nova era”, mesmo que num campo restrito do conhecimento humano.

Se aproveitarmos a própria reflexão sobre o passado, nas ultimas quatro gerações, como ponto de partida, veremos que todas as grandes transformações sociais, médicas, tecnológicas etc. se deram no campo coletivo e não no individual. Mesmo quando gênios como Einstein e outros surgidos nesse período se destacam isoladamente, não podemos deixar de reconhecer que buscavam conhecimentos compartilhando-os com outros tantos personagens relegados ao segundo plano por nossa história. E por mais solitários que estivessem, suas “descobertas” só tomaram vulto após serem aplicadas e difundidas.

Chegamos a 2000 com novos paradigmas a serem incorporados, refletidos e re-elaborados.

Entre as diversas tendências hoje observadas, talvez a que  ofereça maior certeza seja a de que a informática e o desenvolvimento tecnológico a ela associado irão gerar uma revolução ainda mais profunda e rápida na sociedade, do que aquela promovida nos poucos mais de 50 anos desde o surgimento do primeiro computador até o dia de hoje.  Saímos da sociedade rural e aldeana para a urbana, em cerca de um século, e dela pulamos diretamente para a virtual e global, na metade desse tempo.

A vida doméstica passa a ser cada vez mais doméstica. Não precisamos sair para fazer compras, ir ao banco, estudar. A vida profissional rompeu as fronteiras físicas da fabrica, loja e escritório. Rompeu a distância que separa os indivíduos. Basta ligarmos o computador...

... e vemos quantos problemas estamos criando.

Se estamos no conforto de nossos lares, não desfrutamos do convívio social com indivíduos fora desse “castelo”particular, verdadeiro gueto tecnológico. Criamos um mundo “higiênico”,  onde não corremos o risco de nos contaminar com as “impurezas” do mundo externo. Somos crianças cujos pais não deixam brincar no chão, para não pormos a mão suja na boca, embora assim nunca criemos anticorpos. Vemos o mundo através de nossos muros, mas não além deles.

Nossos valores éticos são exclusivos, individuais, relativos como o tempo e o espaço proposto por Einstein, e “reais” na realidade virtual e tridimensional de nossos computadores, criados e aplicados segundo a nossa própria configuração e interesse instantâneo, sem uma preocupação de perpetuação.

Somos peças de um grande jogo, onde funcionamos em rede, da qual podemos ser desplugados com uma simples troca de senha ou interesse. Partilhamos tudo e nos esforçamos ao máximo para mantermos-nos ao máximo inseridos no sistema, mas esbarramos em limites impostos pela nova realidade, pautada em valores capitais e não pessoais.  Somos peças valiosas enquanto somos flexíveis em nossos conhecimentos. (indispensavelmente amplos), trabalho e valores.

Se nossas idéias agregam novos sentidos e oportunidades à organização, estado ou grupo, estamos prontos para esse admirável mundo novo, que valoriza a agilidade e rapidez da criação, mas que rejeita qualquer organismo estranho ao sistema, sem ao menos buscar um paliativo que reduza essa repulsa.

Enquanto aqueles indivíduos que têm acesso à difusão da informação (não qualquer informação, mas aquela de reconhecido valor pelo grupo dominante) se firmam cada vez mais nessa nova estrutura social, a grande maioria alijada do sistema se afasta cada vez mais das virtudes que poderiam advir dessa conquista humana.

Não parece justo falarmos em globalização enquanto as regras forem diferentes para cada caso, enquanto não houver um nivelamento na disseminação do capital, da educação, do acesso à informação de valor por toda a sociedade. Não parece justo falarmos no triunfo do capitalismo quando esse sistema também foi incapaz de resolver os mais simples problemas sociais, embora acredite que essa nunca tenha sido sua intenção.

Richard Sennett, em “A Corrosão do Caráter”, nos fala sobre a influência dos imigrantes na sociedade americana, todos os benefícios por eles conquistados e sua contribuição no desenvolvimento daquela sociedade. Mas fala também das dificuldades que esses grupos enfrentaram (e ainda enfrentam) para se firmar na nova terra. Aqueles que conseguiram, o fizeram por seus esforços por terem provado sua real contribuição para o desenvolvimento, ou por terem sido reconhecidos como tal.

E nesse mundo tecnologicamente avançado e “sem fronteiras”, todas as conquistas humanas não foram capazes de vencer uma simples questão: a igualdade entre os indivíduos, que só poderia ser conquistada com uma verdadeira queda de fronteiras, mais que geográfica, ética e morais.

Mas como conseguir isso numa sociedade em que a competição pela sobrevivência  chega às portas da selvageria, onde a paz é baseada no medo da guerra, o bem estar é conquistado pelo egoísmo e ganância, onde as regras são ditadas sobre valores individuais e não coletivos?

Somos criativos por excelência e isso nos diferencia dos outros seres. Mas somos criativos hoje por necessidade, sobrevivência, luta pelo poder e riqueza. Mesmo quando buscamos algo que possa alterar para melhor as condições da grande massa de excluídos, como no terceiro setor, vemo-nos  forçados a buscar alianças nos sistemas viciados do capitalismo sem limites, onde o bem-estar é primeiro uma ferramenta de apoio  ao marketing e depois a busca desenfreada pela produtividade, pois todos sabemos que “um trabalhador satisfeito produz melhor”.

Não estamos preocupados de fato com o ser, mas com o que ele pode fazer em beneficio das organizações. Não há mais idealismo. Buscamos requentar velhas formulas, que mais aparentam gerar vantagens sobre o modelo antigo do que o fazem realmente.

São inquestionáveis os governos sociais, científicos e tecnológicos que tivemos frente ao passado não muito distante, mas como trabalhar com a ilusão de que um único modelo poderá funcionar em um mundo tão heterogêneo quanto esse? Como imaginar que de fato veremos brevemente o fim do trabalho como o conhecemos hoje, como sugere De Masi em “Desenvolvimento sem Trabalho”, se ao nosso lado vemos crianças exploradas, salários indignos e semi-escravidão?  Como exigir criatividade

de uma sociedade que só tem tempo de lutar pela sobrevivência e que não possui a mínima capacidade de discernimento e união, senão manipulada e conduzida por interesses muitas vezes espúrios?

Os exemplos criativos representados por De Masi, em “A Emoção e a Regra”, têm alguns elementos em comum: o trabalho em grupo, as regras estabelecidas para seu funcionamento, o papel da liderança, fundamental na condução dos processos, o respeito aos valores éticos e morais, e a profunda difusão das conquistas obtidas.

Hoje, como bem demonstra Sennett, o que encontramos são grupos formados para  o cumprimento de tarefas imediatas, sem preocupação com o longo prazo, com o comprometimento entre os elementos selecionados, prontos a dar o próximo passo antes do “colega” /concorrente.

As regras são flexíveis. Os valores empresariais são os mais genéricos possíveis e buscam o comprometimento dos indivíduos com a organização, mas não o dela para com o indivíduo, cada vez mais descartável pela busca da eficiência, aceita como fato inevitável e irreversível da vida profissional.

Dentro de hierarquias enxutas e ágeis, as lideranças são frouxas e também podem estar sujeitas à flexibilidade da organização. Mandam na verdade o mercado e seus acionistas.

os valores éticos e morais, são individuais e devem ser deixados do lado de fora das organizações, assim como os problemas familiares, agravados pela necessidade de uma redistribuição de tarefas, tempo e espaços domésticos.

As conquistas desses grupos “frouxos”, como nunca antes são difundidas aos quatro ventos, graças à agilidade dos meios tecnológicos disponíveis, mas mais que a distribuição de conhecimentos, são poderosas ferramentas para o estabelecimento de novas conquistas mercadológicas e estratégicas. São instrumentos de marketing, voltados para a captação de recursos e investimentos, dirigidos ao mercado e ao capital.

Numa sociedade onde as cobranças são constantes e intensas, como pode o indivíduo buscar ser realmente criativo, quando lhe são roubados todos os esforços na busca de sua manutenção na estrutura social já conquistada,

Fala-se muito no bem-estar social, mas as instituições públicas que deveriam prover a sociedade dessas conquistas estão falidas, pois só há recursos disponíveis no mercado mundial para a promoção de novas oportunidades de negócios. O futuro, a seguridade, a saúde são hoje parte desse grande mercado a ser conquistado, num mundo que envelhece rapidamente e para o qual entramos cada vez mais cedo se não conseguirmos nos manter atualizados.

Não temos mais nenhum tipo de segurança contra as forças do capital. O estado é por ele governado e afastou-se do cidadão comum. Os sindicatos não podem mais nos defender, perderam sua força juntamente com a desmobilização dos grupos de laços fortes nas organizações, passaram a ser um refugio frágil e paliativo. As famílias tiveram seus fundamentos abalados, são fracas em seu convívio e valores. Talvez por isso tenham sobrado somente as instituições religiosas, pois seu conforto é imaterial, não pertence ao mundo real.

Imaginar nesse quadro qual será o futuro da sociedade não parece difícil, nem muito distante do que já observamos. O problema não reside em onde iremos chegar, por isso parece cada vez mais claro, mais papável quando observamos os fenômenos sociais que analisamos acima.

Talvez a grande pergunta que deva ser feita é quando teremos que pagar em custos humanos, em valores éticos, morais e sociais para atingir essa sociedade tão desigual que apregoamos como grande conquista da humanidade?

O certo seria desenvolvermos cada vez mais a criatividade no sentido de resgatar solidariedade, respeito, confiança, enfim todos os valores reais e fundamentais para a conquista de um mundo igualitário , nunca homogêneo, onde nos orgulhássemos  das conquistas pessoais e não mais do status.

Estamos cegos quando olhamos para o mundo e vemos globalização, quando falamos da disponibilidade dos capitais e não vemos sua volatilidade, quando falamos em queda de fronteiras enquanto surgem cada vez mais guerras étnicas em pequenos países, quando falamos de um mundo prospero mais tão cheio de pobreza, de fome, de ausência de valores.

Talvez a maior lição que possamos tirar de De Masi e Sennett seja a de que somos feitos para o sucesso, mas que para ;isso precisamos ser antes de mais nada dotados de uma base educacional, familiar e social que permita a conquista e distribuição de benefícios alcançados a cada indivíduo.

 

De Jesus, Gandhi e outros, a criatividade solidária.

 

A criatividade voltada para o próximo. Quantos não são os exemplos dessa possibilidade em nossa história, que poderiam se encaixar nos grupos propostas por De Masi?

Jesus, independente de sua característica divina ou não, pode perceber quais as necessidades de sua sociedade e transformou as bases religiosas judaicas em um movimento novo, difundido através de um grupo escolhido a dedo e consciente de seus objetivos, a  longo  prazo,  forjado em lideranças e regras.

Gandhi, que percebendo sua fraqueza se fez forte. Que liderou a maioria esquecida de forma a reconhecer seu poder pacifico frente às armas

Luther King, que soube capitalizar a historia, a saga de um povo, para lhe devolver a confiança e orgulho.

Talvez sejam esses os exemplos de criatividade que precisamos recuperar para buscar criar um novo modelo de sociedade, não mais à esquerda ou direita, calcado no comunismo ou no capitalismo, mas voltado para o resgate humano e no seu direito a uma vida digna, onde as conquistas não sejam individuais mas coletivas.

 

Os interessados em conhecer um pouco mais da obra de Domenico de Masi e Richard Sennett já encontram diversas obras desses autores traduzidas, nas principais livrarias brasileiras. Entre elas, sugere-se:

- De Masi, Domenico - “Desenvolvimento sem Trabalho”, Editora Esfera, São Paulo, 1999

- De Masi, Domenico - “A Emoção e a Regra - os grupos criativos na Europa de l850 a l950”, 4a    

  edição, José Olympio Editora, Rio de Janeiro, l999.

-Sennett, Richard - “A Corrosão do Caráter -  conseqüências  pessoais do trabalho no novo  

 capitalismo”, 2a edição, Editora Record, Rio de Janeiro, l999

 

* Mauricio L. Marra - Mestrando em Comunicação e Mercado pela Faculdade de Comunicação Social Cásper Libero, é professor das cadeiras de Técnicas de Comunicação Dirigida, Marketing Aplicado a Relações Públicas e Projetos experimentais, na mesma faculdade e Editor da Revista Ação.

Fonte: Revista Ação - Ano 1 No 03 - Jan./Fev. 2000 páginas 6 a 8


PROFISSIONAIS EM AÇÃO

PONTE DE COMUNICAÇÃO

Evento promovido pela Rede Anhanguera de Comunicação(RAC) traz ombudsman do Pão de Açúcar

 A Rede Anhanguera de Comunicação(RAC), empresa publicadora dos jornais Diário do Povo e Correio Popular, promove na próxima terça-feira a 6a edição  do ciclo palestras Profissionais em Ação. O evento será realizado no The Royal Palm Plaza, a partir das 18h. Dessa vez, o tema será “Marketing de Relacionamento e Comunicação”. A palestrante será a ombudsman do Grupo Pão de Açúcar, Vera de Mello Giangrande, uma das figuras mais respeitadas no mundo do marketing.

Vera Giangrande especializou-se em Comunicação Empresarial e Relações Públicas, trabalhando no ramo há 40 anos e ocupa o cargo na rede Pão de Açúcar desde l983. Tem vários livros publicados.

De acordo com a gerente de eventos da RAC, Melissa Lenzi Stoquim, o principal objetivo do evento é promover em seus participantes o contato com as novas técnicas de mercado. “E uma maneira de nós atualizarmos os profissionais da área de comunicação. Hoje em dia, a atualização é de fundamental importância. Por isso sempre escolhemos palestrantes de ponta”, disse.

Na primeira edição dos Profissionais em Ação, realizada em fevereiro desse ano, o palestrante foi Washington Olivetto, proprietário da agencia de Publicidade W Brasil, uma das maiores do Pais. Profissionais como Marco Aurelio Viana, consultor em Relações Públicas, professor de comunicação da Universidade de São Paulo (USP)  e proprietário da agencia SCB, também participou do evento como palestrante.

A intenção da RAC é promover ao todo 10 palestras. “Iremos até o mês de novembro. Estamos criando um vínculo muito interessante com os participantes do evento. Todos gostam muito”, ressaltou Melissa.

Boa lição é ouvir cliente

Para crescer é fundamental que uma empresa esteja em harmonia com todos os setores que a compõem. A afirmação é da ombudsman do Grupo Pão de Açúcar, Vera de Mello Giangrande. Com mais de 40 anos de experiência nas áreas de marketing e Relações Públicas, Vera já trabalhou em locais como a Colgate Palmolive, Squibb Industria Farmacêutica e está desde 91 no Grupo Pão de Açúcar, uma das maiores redes de hipermercados do Brasil.

Segundo Vera, a função de um ombudsman é criar uma relação de clientelismo entre funcionários e empresa, além de estimular o prazer de prestar serviços. “A palavra ombudsman remonta do final do século passado e significa em sueco representante do ser humano. Ou seja, a minha função é representar as pessoas. Mas essa representação não pode ser apenas externa. O funcionário também deve se sentir representado. Caso contrário, o serviço de ombudsman não está completo”, declarou.

Segundo Vera Giangrande, desde o final dos anos 80 o conceito de administrar uma empresa mudou drasticamente.  Ela afirma que atualmente é fundamental para o progresso de qualquer grupo uma relação de cumplicidade e fraternidade entre seus donos e os funcionários. “E preciso acabar com a hierarquização vertical, que impõe no trabalhador medo e insegurança. Ou seja, é preciso que a pessoa sinta prazer ao exercer4 qualquer atividade. Aquela história de chefe mal encarado que passa bufando pelo corredor já é coisa do passado. É preciso desenvolver uma filosofia de tratamento claro  e honesto. Quem não seguir essa regra corre o risco do insucesso”, declarou.

Ela também aponta para as vantagens que a Internet trouxe aos consumidores e também as empresas. De acordo com Vera, a rede mundial de computadores permite um relacionamento imediato com o cliente. “Os empresários que souberem usar essa técnica terão muito mais vantagens frente aos outros”, enfatizou.

Fonte: Diário do Povo Campinas - Seção “Dinheiro”, pagina 1 23 de julho de 2000