"Relações Públicas é a linha que costura uma boa roupa"

por Helen Garcia

Muita dedicação e experiência. Essas são as qualidades fundamentais para ser um bom profissional de Relações Públicas, de acordo com Edmundo Branco Newerla, de 40 anos, que trabalha na área há 16 anos. Já no segundo ano da Faculdade Casper Libero, ingressou no mercado de trabalho como estagiário da Caixa Econômica Federal. Terminou seu estágio numa distribuidora de marcas na área de perfumaria, onde permaneceu por mais um ano depois de formado. Logo depois, ingressou na Scania, onde trabalha há 13 anos. Quem procura pela profissão, segundo Edmundo, deve ser discreto, pois essa é uma característica inerente à Relações Públicas.

Art&com - Como você define o trabalho de Relações Públicas?

Edmundo Newerla - Relações Públicas é a linha que costura uma boa roupa. E a melhor costura é aquela que dá o feitio sem aparecer. O mercado de trabalho é voltado à área de comunicação corporativa ou consultorias e assessorias.

A&C - Como é o seu dia-a-dia na Scania?

EN - Sou responsável por todas as atividades que sejam institucionais, desde eventos ligados à imprensa, quanto que atinja público interno e externo, atendimento ao público externo (clientes), como lançamento de produtos, etc. Dentro dos eventos somos responsáveis por organizar, convidar, receber e mandar de volta esse público. Num exemplo recente teve o lançamento de caminhões pela empresa. Recebemos os jornalistas, mandamos convites para autoridades, imprensa e clientes. Enfim, nossa função abrange tudo relacionado a eventos.

A&C - Atuando na mesma área de comunicação não acontece uma confusão de funções entre jornalistas e Relações Públicas em uma empresa?

EN - Dentro da área de comunicação, existem Relações Púbicas e jornalistas que interagem. Nós, Relações Públicas, damos suporte à atividade deles. A divisão aqui é bem clara. Qualquer requisição ou pedido de jornalistas é encaminhado à assessoria de imprensa. A imprensa cuida tanto da comunicação interna quanto externa. Editam revistas e jornais internos.
Nossa atividade é dar suporte. Em eventos com a imprensa, quem seleciona convidados, escreve os releases e fica responsável por empenhar-se em trazer o maior número possível de jornalistas para acompanhar evento são os jornalistas das assessoria de imprensa. Nós somos responsáveis pelos convites, hospedagem, organizamos, respondemos por toda a logística.
Acredito que antigamente as pessoas até podiam confundir funções, mas hoje já é clara a participação que cada um tem dentro de uma parceria. A tendência das empresas é criar grupos com trabalho de profissionais de diversas áreas para trabalhar as idéias num campo maior de visão. A empresa moderna tem essa característica. Se ainda existe um preconceito de um profissional em relação a outro, é fruto de uma rixa antiga entre imprensa e relações públicas. O que é uma bobagem, pois cada um tem que interagir com o outro buscando um objetivo comum: alavancar vendas e negócios para a empresa através de sua imagem.

A&C - E o departamento de marketing?

EN - O departamento de marketing atende a um público bem específico que é o cliente. Tudo que é institucional é de nossa responsabilidade. Tudo que relaciona-se com o cliente fica a cargo de marketing.

A&C - Hoje o que se vê são salas de aula de Relações Públicas repletas de mulheres. Quando você cursou a faculdade a procura pelo público feminino já era tão grande?

EN - Não, quando entrei na faculdade a divisão era mais equilibrada. Mas a mulher não domina só relações públicas. Hoje vemos muito mais mulheres nas redações dos jornais, na área médica, forças armadas. Há até mulheres dirigindo caminhões, profissão considerada tipicamente masculina. Numa opinião muito pessoal, acho que talvez a mulher procure mais porque é uma profissão de muita sensibilidade, que exige um sexto sentido, que é um recurso natural dela. Talvez por isso elas se identifiquem e sintam-se mais atraídas.

A&C - O que é necessário para ser um bom Relações Públicas?

EN - Dedicação e experiência. O profissional de Relações Públicas não é como das outras áreas que na turma da faculdade já tem um que é considerado o "geniozinho", com tendências a ser um bom empresário. O Relações Públicas tem que ter experiência, vivência. Conforme conhece e vivenciar situações, acaba tendo mais facilidade na hora de lidar com dificuldades. Além da dedicação e experiência, tem que gostar muito da profissão, porque é difícil e desgasta muito. Também não pode ser um profissional que busque "aparecer". Porque se o trabalho do RP aparecer é porque aconteceu algum problema. A descrição do trabalho pode frustar quem procura por holofotes.
Além disso, tem algumas características individuais que ajudam. Por exemplo, gosto de comer bem e aprecio bons vinhos. Isso ajuda na minha profissão. Na hora de montar cardápio ou de recomendar, tenho mais segurança e pareço mais simpático.

A&C - Se a experiência é fundamental, como ficam as pessoas que estão ingressando no mercado de trabalho? Qual a importância do estágio?

EN - Estágio é importante para iniciar a vida profissional. Dentro de uma empresa não só o conteúdo profissional é desenvolvido, como se aprende como funciona o mundo interno de uma empresa.
O mercado é complicado porque é evidente que a empresa não quer se arriscar e colocar sua imagem nas mãos de alguém que não tem experiência. É necessário que a pessoa faça estágio desde quando está na faculdade para ganhar experiência.
Hoje vivemos uma situação difícil em todas as profissões com o esfriamento da economia e desemprego, que restringem o campo de qualquer profissional. Apesar disso, faltam no mercado profissionais dedicados e competentes. Acho que tem espaço para todos, mais para pessoas especiais, dedicadas, envolvidas e bem preparadas. É importante o preparo da faculdade. Tem muitos que não dão valor à faculdade porque acreditam que a profissão é uma coisa mais intuitiva. Isso não é verdade. Existe também um caráter científico, esse embasamento teórico que só se adquire na faculdade.

A&C - O que deve levar em consideração quem está em dúvida entre cursar ou não Relações Públicas

EN - Primeiro tem que se perguntar: eu acredito em Relações Púbicas? No trabalho o que o Relações Púbicas realiza? O que o Relações Púbicas pode ajudar a colaborar com a empresa como instrumento de promoção da empresa?
E saber que tem as seguintes características: capacidade de envolvimento com as coisas, achar lindo trabalhar 24 horas por dia, ter amor a profissão e paciência porque o mercado é muito restrito e difícil.

A&C - Qual a dica que você dá a quem já está cursando?

EN - Dedicação é a dica. Aprender línguas é fundamental. Além de um português bom, hoje o Relações Públicas tem que saber Inglês e espanhol.

A&C - Você tem ídolos, pessoas da área que você admira?

EN - Acho essa questão de ídolos muito complicada. Admiro trabalhos bem feitos de alguns profissionais batalhadores que tem dedicação na área, mas nenhum em especial.

A&C - Tem algum livro guia, ao qual você recorre sempre em caso de dúvida?

EN - Tem o livro considerado o clássico da área que sempre consulto em caso de dúvida: "Cerimonial para Relações Públicas". Isso porque a questão de cerimoniais é muito complexa. Existem diversas normas federais e estaduais fundamentas por decretos como colocação à mesa, distribuição de pessoas à mesa, etc. São protocolos que temos que ter todo o cuidado para não quebrar.

A&C - Quais outros livros da área você recomenda?

EN - A bibliografia da área é bem restrita. "A política de portas abertas", de Walter Nori, vice-presidente da Scania é muito bom. "A comunicação empresarial", do Torquato, também é recomendável. Só que esse tem um caráter mais científico e elaborado. "Tudo que seus gurus não lhe contaram sobre Comunicação Empresarial", do Roger Cahen, publicação um pouco mais recente, é outro que vale a pena ser lido.
A maioria da bibliografia é relato de experiências que servem para um enriquecimento do conhecimento e adquirir mais experiência, mas não existem livros que sirvam como uma receita a ser seguida. Por isso digo que a vivência no trabalho é fundamental. Principalmente porque trabalhamos com o ser-humano como matéria-prima. E o homem é muito volátil nas suas visões, necessidades, e comportamento em sociedade.

A&C - Você acaba sendo um Relações Públicas em tempo integral, ou seja, mesmo fora da empresa em seu dia-a-dia?

EN - Não tem como separar. As pessoas já dizem que eu tenho uma personalidade típica de um Relações Públicas. Fora da empresa, continuo com a mesma postura, o mesmo comportamento, modo de me vestir, relacionamento com as pessoas e a capacidade de solucionar problemas. Apesar disso, sou caseiro e não costumo promover reuniões. Mas quando freqüento eventos, como sei como funciona, sou muito crítico.  

Fonte: Revista Eletrônica Arter e Comunicação da Universidade Metodista de Ensino Superior - Rudge Ramos. Abril de 1999.