Eles podem ganhar pouco, mas recebem
ótimos presentes e se divertem a valer
Marcelo Marthe
Selmy Yassuda![]() |
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O fotógrafo Alvaro Toledo Leme leva uma vida cheia de glamour. Todo dia chega a seu apartamento, em São Paulo, meia dúzia de convites para festas e jantares badalados. Depois de selecionar os eventos em que dará o ar da sua graça – afinal, ele se permite cair na noite apenas quatro vezes por semana –, é hora de se produzir. Em frente de seu guarda-roupa, o fotógrafo pode optar entre vários pares de sapatos italianos, jaquetas e camisas de grife. Se o oba-oba demandar capricho extra no visual, talvez use aquela calça Gucci que custou a bagatela de 1.400 dólares. Custou, vírgula. Gente como Alvaro Toledo Leme não precisa pôr a mão no bolso para ter acesso a muitos prazeres materiais. Ele nem teria dinheiro para isso, aliás. Profissional free lance, ganha por mês cerca de 3.000 reais. Só com faturamento muito maior conseguiria manter seu padrão de vida. "Para bancar essa minha rotina, eu deveria ganhar cerca de três vezes mais", calcula.
Ricardo Benichio![]() |
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Leme faz parte de uma casta de jovens profissionais ligados à moda, à mídia e à vida noturna que costumam ser paparicados por pessoas ou empresas que têm interesse em conquistar sua simpatia. Considerados formadores de opinião, influentes em seu meio ou simplesmente presenças bem-vindas em festas, eles compensam seus baixos salários com presentes que vão de ingressos para shows a roupas caras e viagens. Essa turma, que entre os americanos é chamada de "elite pobre", vem ganhando visibilidade no Brasil por causa do crescimento dos setores em que atuam. Pegue-se por exemplo o mundo da moda. Nos últimos oito anos, a indústria têxtil nacional investiu 7 bilhões de dólares para tornar seus produtos mais refinados e abrir as portas do mercado externo. As estrelas de primeira grandeza são, evidentemente, os estilistas e os modelos. Mas por trás deles existe um exército de maquiadores, cenógrafos, fotógrafos especializados e produtores. Todos eles desfrutando com galhardia a boca-livre e o jabaculê.
Mesa cativa – Uma categoria em alta é a dos vips pobretões que dão expediente entre a mídia. Principalmente os assessores de imprensa, relações-públicas e assistentes de marketing. Para aparecer em colunas sociais e outras seções de notinhas de jornais e revistas, muitas empresas, lojas e restaurantes estão contratando gente bem relacionada, que aceite receber um salário modesto mas acompanhado de mordomias. Um caso típico é o do relações-públicas John Wesley, que presta serviços para dois restaurantes chiques de São Paulo. Seu ganho mensal declarado fica na casa dos 2.000 reais. A contrapartida é que ele possui mesa cativa nos estabelecimentos para os quais trabalha. Sua função é levar gente bonita ou famosa para comer de graça nesses lugares e, assim, transformá-los em notícia. Pela natureza de sua profissão, Wesley circula na companhia de belas aspirantes a modelo, o que garante a inclusão de seu nome em diversas listas de convidados para eventos coruscantes. A explosão da internet, por seu turno, criou sua própria categoria de emergentes sociais. Os mais cotados são os webdesigners, que bolam o visual dos sites da rede. Eles servem para dar um toque "artístico" a festas moderninhas e coisas que tais.
Ricardo Benichio![]() |
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Atividades intimamente vinculadas à badalação noturna são um campo fértil
para quem quer viver como rico. A ala mais evidente é composta das hostesses,
geralmente moças atraentes que são responsáveis pela triagem de quem vai
entrar numa boate da moda (ou então mofar na porta até o sol raiar). Os
promoters constituem um capítulo à parte. Eles organizam e divulgam todo
tipo de festas e se subdividem em vários patamares. Há desde os poderosos,
que fazem as listas de eventos fechados, até os que simplesmente ajudam na
distribuição dos flyers, aqueles coloridos panfletos das danceterias.
Não importa o grau de importância, são encargos que normalmente resultam em
alta popularidade.
A trajetória da promoter carioca Tatiana Medeiros é representativa. Ela
começou a carreira como tequileira, a garçonete de bares mexicanos que
chacoalha a cabeça do cliente depois que ele sorve sua dose de tequila.
Poucos meses mais tarde adquiriu status de promoter, pelas mãos do empresário
Ricardo Amaral. Tatiana ainda não conseguiu juntar dinheiro para comprar um
carro, mas pelo menos três vezes por semana pode ser vista naqueles
rega-bofes cujos convites são disputados a tapa. Alguns exemplos recentes: réveillon
numa mansão luxuosa em Angra dos Reis, festa em homenagem ao cantor argelino
Khaled e lançamento do novo programa de Luciano Huck. "Meus horizontes
se abriram depois que virei promoter", gaba-se Tatiana. Esses horizontes,
no entanto, não são lá tão vastos. A elite pobre não tem futuro ou
carreira promissora. Sua dimensão é a do eterno presente. Mas isso não
interessa: ela se diverte a valer.
Fonte: Revista Veja - edição 1647 Ano 33 - 3 de maio de 2000, páginas 82 e 83.
Resposta do SINPRORP:
São Paulo, 09 de maio de 2000.
At.
Sr. Tales Alvarenga
Diretor de Redação da Revista Veja
Senhor diretor
A edição 1647 da revista Veja, de 3 de maio, em matéria entitulada “A elite pobre” menciona a profissão de relações públicas de forma totalmente equivocada.
Dizer que o Sr. John Wesley é um profissional da área, como ele mesmo se autodenomina, é, no mínimo desanimador para todos nós profissionais de relações públicas e para os estudantes universitários que pretendem dedicar-se a ela.
O exercício da profissão exige curso universitário, em nível de bacharelado, com a duração de quatro anos, durante os quais o futuro profissional recebe uma sólida formação na área técnica de comunicação social, além de fundamentos preciosos de: sociologia, psicologia social, administração de empresas, economia, dentre outros assuntos específicos que o tornem apto da desenvolver suas funções como profissional de relações públicas.
Esta é a profissão responsável pela definição das políticas e estratégias de comunicação institucional, cujo principal objetivo é o de construir e manter uma boa imagem e reputação das organizações.
Para tanto, é preciso que o profissional esteja preparado para avaliar a organização como um todo, apontando eventuais erros de procedimento, que possam afetar sua reputação, e detectando e desenvolvendo suas qualidades naturais de forma a cumprir o objetivo precípuo das relações públicas.
É por esse motivo que nos desanima ver no noticiário a profissão ser mencionada com tal simplismo, como se tudo o que houvesse para fazer pela reputação de uma empresa fosse promover jantares, participar de festas e circular com desenvoltura nos meios sociais.
Atenciosamente,
Ronaldo Fernandes Canedo
Presidente Sindicato dos Profissionais Liberais de Relações Públicas no Estado de S. Paulo
Cartas
A CORPORAÇÃO CONTRA- ATACA
Há duas semanas, 43 leitores escreveram para comentar a reportagem “A elite pobre”(3 de maio), que falava da boa vida - apesar dos baixos salários - dos profissionais ligados à moda, a mídia e à vida noturna. Rodrigo Bueno, de Londrina, deu o tom dessas manifestações. “Por favor, não rotulem profissionais de relações públicas, marketing, assessoria de imprensa, fotografia de simples freqüentadores de festinhas e figurinhas carimbadas de colunas sociais”, escreveu o leitor paranaense. Os profissionais sempre reclamam , com razão, quando pessoas que consideram intrusas são focalizadas em reportagem. Marta Maria Melleiro chiou contra a matéria “Não me arrependo , não” (12 de maio de l999), que chamou de enfermeiro - profissão de nível universitário - o atendente que matava pacientes num hospital do Rio. Luiz Carlos Attié, do Conselho Regional dos Corretores de Imóveis de Brasília, não reclamou , mas esclareceu que o personagem pego com a boca na botija em “O golpe da terra”(11 de novembro de l998) vinha exercendo ilegalmente a ocupação de corretor. A choradeira de agora,a diferentemente das vezes anteriores, não é contra intrusos, mas contra colegas cujo comportamento os profissionais reprovam. Embora o sindicato dos promoters não tenha protestado. Tatiana Medeiros(personagem da reportagem) escreveu para contar que não exerce mais a atividade. Graças a uma participação no quadro Videokê , do Domingão do Faustão , ela vai virar cantora profissional - se o sindicato dos cantores deixar.
Resposta do protesto do CONFERP/SINPRORP e alunos da Metodista de São Bernardo do Campo. Revista Veja