CRIATIVA NO TRABALHO
TOQUE DE FADA MADRINHA
As promotoras têm o dom de transformar eventos de todos os tamanhos em grandes sucessos.
Por Maria Emilia Kubrusly
Elas são as primeiras a chegar e as últimas a sair de congressos, convenções, feiras, lançamentos e festas; só deixam o local depois de se certificar de que tudo está impecavelmente arrumado; e costumam ser invisíveis para convidados e o próprio anfitrião. Pouca gente tem noção de quantas horas, dias e noites de sono essas mulheres maravilhosas dedicam para garantir o brilho de ocasiões tão especiais. As promotoras de eventos, profissionais de formação variada, atuam num mercado dominado por mulheres e em pleno desenvolvimento no Brasil: só em São Paulo, em 99, o faturamento foi de 1,5 bilhão de dólares com a realização de 73 mil eventos que reuniam mais de 50 pessoas.
Da festinha no prédio às feiras internacionais envolvendo grandes corporações, a arte de realizar eventos parece ser habilidade feminina. Alexandre Leite Werfel, presidente da regional da paulista da Associação Brasileira de Eventos (Abeoc), avalia: “Mulheres são mais detalhistas, organizadas, pacientes, persistentes e podem ser ótimas negociadoras. Quando adquirem experiência, tornam-se concorrentes difíceis para nós, homens”.
Não existe faculdade específica para formar promotores de eventos, mas a maioria passa por cursos na área de Comunicação Social, principalmente
Relações Públicas, Marketing e Publicidade, ou por cursos profissionalizantes no Senac. Ana Carolina Sodré, sócia da SH Eventos há 12 anos, diz que “o que importa é a prática”. Formada em Cinema, começou a trabalhar como recepcionista de eventos aos 15 anos, assim como sua sócia, Heloisa Maria Moraes. E acham que fazer freelance, como recepcionista é o melhor caminho para entrar em contato com essa atividade frenética.
Ana Carolina se diverte contando um episódio que exemplifica bem as dificuldades do oficio: “Organizamos um congresso de Turismo em Aracaju e visitei cada hotel que iria hospedar os 500 agentes de viagens estrangeiros convidados. Um deles ficava numa ilha à qual se chegava num barco muito sujo e precário. Resolvi contratar, para conduzir os convidados, dois barquinhos típicos da região. Mandei pintá-los, decorá-los e fiz a travessia para ver se estava tudo certo. Só que, quando cheguei lá com os agentes europeus, as águas do rio tinham baixado e o deck de desembarque estava mais de dois metros acima de nossas cabeças! Foi preciso ‘escalar’ uma pranchinha e tive de ajudar senhoras alemãs a tirar os sapatos de saltinho pra desembarcar... Tinha verificado cada detalhe, mas ninguém me avisou que o rio baixava tanto! Por mais que você programe, alguma coisa fura. Felizmente, no final, todos acharam pitorisco”.
Para encarar uma situação dessas, bom humor é fundamental. Mas criatividade, agilidade, determinação e jogo de cintura estão entre as qualidades básicas para exercer bem a profissão. Silvia Liberatore, professora de
Relações Públicas na Faculdade de Comunicação da FAAP, São Paulo, explica: “É fundamental a pessoa estar de bem consigo mesma, para não começar a achar defeito em tudo e ficar de mau humor. Claro que isso vale para todas as profissões, mas, nessa área, o relacionamento interpessoal é constante. E tudo acontece num ritmo que não dá para adiar as coisas: você tem de ficar pronta para tudo”. E lembra que estar sempre aberta a novas possibilidades e soluções é importantíssimo.
Imprevistos são inevitáveis, mas é indispensável resolvê-los antes que o cliente tome conhecimento. Quem dá a dica é Marina Bandeira Klink: “Para o dono da festa, não se deve pasar problemas, apenas soluções”. Formada em
Relações Públicas, sempre atuou nessa área e, há dez anos, é produtora de eventos autônoma. Com três filhas pequenas, prefere trabalhar em casa, conciliando assim sua carreira com as longas ausências do marido, o navegador Amir Klink. O tamanho diminuto de sua empresa, porém, não reflete a dimensão dos eventos que realiza, com direito a shows de Marisa Monte e Roberto Carlos para lançamentos de produtos. E ensina: “É preciso ser original para se fazer notar nesse mercado concorrido. Com criatividade, dá para receber até um rei com orçamento limitado”. E recorda uma recepção com pouca verba em que fez arranjos de mesa (baratíssimos!) com bananas e margaridas e, para garantir o toque de sofisticação, enfeitou cada guardanapo com uma orquídea.
Promotores costumam trabalhar com serviços terceirizados e, por isso, precisam ter uma boa agenda de fornecedores, manter um ótimo relacionamento com todos e fazer vários orçamentos para cada serviço contratado. O trabalho é árduo: segundo Alexandre Leite Werfel, há 127 especializações envolvidas num evento de porte médio. E contabiliza: “São mais de 700 orçamentos e a check-list pode chegar a mais de mil linhas”
Revista Criativa - Página 127 - 01/12/2000.