Comunicação Escrita na Era Digital

      Há algum tempo, gurus da Era da Informação arriscaram uma profecia sombria em relação ao futuro da palavra escrita. Para eles, por volta do ano 2000, o texto escrito estaria praticamente fadado à extinção, substituído por uma pretensa "palavra eletrônica", tecnologicamente mais moderna. A Revolução Digital chegou, trazendo à reboque novas formas de comunicação - e-mail, e-book, hipertexto - mas, para surpresa de muitos, a palavra escrita continua mais viva do que nunca. Nessa entrevista, o consultor Paulo Gustavo, escritor, mestre em Teoria da Literatura e sócio da Consultexto, empresa especializada em texto e associada à Rede Gestão, fala sobre a comunicação escrita na era digital e especula porque a profecia, mais uma vez, falhou.

      É possível que a palavra escrita seja substituída por uma palavra eletrônica?
      PG - Há uma ilusão de que haverá uma eliminação da escrita como se esta, com a complexidade que lhe é inerente, depois de ter sido o alicerce da própria civilização, fosse algo descartável. Ora, o que se pode imaginar é que não haverá qualquer "oralização" da sociedade, mas, sim, o uso tópico, localizado, de recursos tecnológicos (a exemplos de comandos de voz) para determinados casos, tanto da vida digital quanto da própria vida real. O que ocorre, na verdade, é uma torcida emocional pelo fim do "sacrifício" - para alguns - do uso da palavra escrita (pode-se dizer que esta nem sempre é uma tecnologia amigável para todos).

      Quais os impactos da revolução tecnológica sobre o texto escrito?
      PG - A palavra escrita está sofrendo uma metamorfose, sobretudo pelas interfaces com a multimídia, o hipertexto e, naturalmente, com o mundo das imagens gerado pela própria tecnologia da informação. Paul Saffo, pesquisador do Instituto para o Futuro, da Califórnia, declarou que "a palavra escrita não apenas permanece - mas floresce como trepadeira nas fronteiras da revolução digital". O que ocorre é uma evidência: a palavra escrita encontrou um novo meio - o eletrônico -, descolando-se do papel. Ainda citando Saffo, "as imagens trafegarão em rede eletrônica em linguagem multimídia, tendo as palavras como seus verdadeiros guarda-costas. O texto permanecerá como um indicador primário de fidelidade".

      Nesse contexto, como se situam as novas ferramentas de comunicação, como o e-mail e o e-book?
      PG - Do ponto de vista do uso da palavra escrita, o correio eletrônico é uma mistura de formalismo com informalismo. A clareza e a concisão passam a ser pré-requisitos, sem os quais se compromete a própria comunicação. O e-mail também é uma fonte de interatividade em escala planetária, promovendo, muitas vezes, a ruptura de hierarquias e a transversalidade das relações. O e-book, como tantos outros produtos tecnológicos, não nos tomará de assalto e, quem sabe, por muito tempo conviverá com o livro convencional. Seu uso dependerá da praticidade que venha a adquirir.

      Qual o futuro da palavra escrita?
      PG - Num futuro não muito remoto, estima-se que parte da comunicação hoje escrita poderá ser fruto de comandos de voz - da ponta dos dedos, literalmente, pulará para a ponta da língua - ou da ação das próprias máquinas. Mas a palavra escrita continuará sendo, independentemente do seu suporte (e de sua autoria!) uma espécie de âncora, abrigo e segurança. A Era Digital não me parece exatamente antigutemberguiana, mas transgutemberguiana. Quem viver lerá.

Fonte: Jornal do Comercio/PE, Seção Empregos e Oportunidades, Desafio 21 - Gestão e Competitividade, 13.08.2000  (www.redegestao.com.br), página 1.