DESCAMINHOS DA EDUCAÇÃO
A
Gazeta Mercantil publicou no dia 6 de dezembro, página A-7, três reportagens
registrando os resultados positivos obtidos pela indústria brasileira, desde
dezembro de 1994. A primeira, cujo título era Industria retoma, em outubro, níveis
de 1994, apresentou os resultados de uma pesquisa divulgada pelo Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A segunda, Oferta de papelão
aumenta 5%, descreve as previsões da industria de embalagens de papelão
ondulado, que deverá fechar este ano com um crescimento de 5% sobre 1999. Esse
resultado será o melhor em 26 anos, segundo a Associação Brasileira do Papelão
Ondulado (ABPO). A terceira reportagem, Produção de aço é recorde no ano,
informa que a produção de aço no ano ficou 10% acima dos 25 milhões de
toneladas registradas em 1999.
Enquanto isso, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas
Educacionais (Inep) acaba de atestar a piora geral do aprendizado de português
e matemática no Brasil. A avaliação indica que a pontuação média caiu
entre 2% e 8% de 1997 a 1999. Até estados que estavam acima do nível médio do
País nas três séries avaliadas 4a.
e 8a. do ensino fundamental e 3o. ano do ensino médio em matemática em 1997 caíram em todas
elas. É o caso de Minas Gerais. A situação se agrava no Norte e no Nordeste,
onde os alunos que estão terminando o ensino médio obtiveram média de 280
pontos em matemática, em uma escala de 0 a 475. No Nordeste a média foi de 265
e no Norte de 253.
Em
língua portuguesa, os estudantes que ora concluem o ensino médio conseguiram
uma pontuação media de 266 pontos, em uma escala de 0 a 400. pontos. Os
piores desempenhos ocorreram no Norte e no Nordeste, onde os estudantes
chegaram, respectivamente, a 246 e 253 pontos. Mesmo subindo um intervalo na
pesquisa, o Rio de Janeiro retomou o patamar atingido em 1995. Em síntese,
pode-se afirmar que o estudante que chega à oitava série, portanto concluindo
o ensino fundamental, na verdade está com nível de quarta série. Os efeitos
da falta de investimento na educação podem ser sentidos no dia-a-dia. Só no
Centro de Solidariedade do Trabalhador da Força Sindical, das 38 mil pessoas
encaminhadas mensalmente pelo órgão para entrevistas em empresas, só 6.500
conseguem um emprego. A falta do raciocínio lógico, a necessidade de fazer uma
conta só com a calculadora, embora com ensino médio completo, são alguns dos
problemas encontrados. Mas não é só nos operários que as empresas encontram
dificuldades. Depois da exigência de fluência em inglês, espanhol e até
recomendar um terceiro idioma, as organizações perceberam que estão deixando
de lado um pré-requisito importante: a fluência em português.
Muitos
executivos com
cursos de MBA no exterior, mestrado ou doutorado no Brasil não são capazes
de escrever um memorando ou um e-mail sem erros. As constantes reuniões,
os inúmeros relatórios e agora a grande quantidade de mensagens eletrônicas,
principalmente entre os executivos, demonstram claramente falhas no ambiente
profissional.
Muitos estão retificando informações e não ratificando, outros estão
efetuando
despêndios e não dispêndios, entre outros exemplos. Uma das soluções para
corrigir essas questões é o apoio de um bom minidicionário, certo?
Errado. Com base em um estudo realizado pelo Ministério da Educação, entre
as 23 opções disponíveis no mercado brasileiro, 6 deixam a desejar, 11 estão
reprovadas e apenas 6 estão aprovadas. Ou seja, a maioria dos minidicionários
que podem ser escolhidos por mais de 18 milhões de alunos de 1a. a 4a. série
contém falta de critério na escolha dos verbetes, erros de grafia ou revisão,
descaso com inovações do mundo da informática, aberrações e até mesmo
racismo.
Quem sabe outra solução seja conversar com Vicente Fox Quesada, ex-governador
de Guanajuato, no México, que investiu em sua gestão 60% do orçamento em
educação. Talvez esse possa ser um dos motivos para ter sido eleito em julho
passado o novo presidente do México.
Fonte:
Gazeta Mercantil - pg. A2 25/Dez/2000, por Alfredo Passos, Diretor
da EDS América Latina e professor da Escola Superior de Propaganda e Marketing
(ESPM)