Tapete humano
Relações Públicas é uma profissão tão respeitável e necessária quanto a de advogado. Seus problemas podem ser parecidos: o RP, muitas vezes, também precisa convencer que seu cliente não é tão ruim quanto parece. Sua tarefa, como a do advogado, é influenciar julgamentos. E, assim como todo cidadão, culpado ou não, tem direito à defesa, todo cidadão - ou corporação, ou governo - tem direito a uma boa imagem, fornecida por técnicos em boas imagens. O diabo é quando as relações públicas encampam uma vida ou uma administração e tentam substituir a realidade pela imagem. Como acontece com o governo Éfe Agá, que reage a acusações de corrupção com medidas publicitárias cujo efeito não ultrapassa o teatro montado para anunciá-las. Ou alguém se lembra de algum resultado prático de outro lances de RP anticorrupção deste governo, cujo único objetivo era o noticiário do dia seguinte?
Trabalhei anos em publicidade e nunca deixei de me impressionar com o seu poder. Publicitários também são pessoas sérias - não importa o que digam das suas festas de fim de ano - que fazem um trabalho útil e admirável, mas seu sucesso em influenciar os outros traz um risco de deformação profissional: alguns se sentem onipotentes, ou desenvolvem um certo desprezo pelo discernimento de um público assim manejável. O lançamento da tal Corregedoria-Geral para aliviar a pressão por uma CPI é tão transparentemente um golpe de RP que só pode ser fruto desta arrogância ocupacional, deste desdém inconsciente pela inteligência alheia. Querem nos convencer que uma corregedora nomeada pelo presidente, que no próprio discurso em que a apresentou deixou claras as suspeitas que considera inadmissíveis, e subordinada a um advogado-geral que nunca deu qualquer sinal de independência, tratará da corrupção com mais vontade e isenção do que o Ministério Público ou do que uma CPI. A objeção declarada do Éfe Agá a uma CPI é que a oposição a usaria para aparecer e fazer política. Ou seja, o presidente condena a oposição por querer fazer o que foi eleita para fazer: oposição. Na ânsia de aparecer numa CPI, a oposição seria até capaz de fazer perguntas pertinentes! Impensável. RP neles.
Nada contra a dona Anadyr ou contra o trabalho de corregedores-gerais, que em circunstâncias normais será tão respeitável quanto o de RP, advogado, publicitário, jornalista ou quitandeiro. Mas o fato que a imagem produzida não esconde é que tudo foi, de novo, varrido para baixo do tapete. A única diferença é que agora o tapete tem cara e nome.
O Estado de São Paulo - sexta-feira, 6 de abril de 2001 - pagina A4 Política - Érico Veríssimo