Não somos como computadores

As pessoas não têm prazo de validade nem precisam ficar obsoletas

Por Simon Franco

CARO SIMON: tenho 24 anos, inglês intermediário e trabalho como auditor contábil e de qualidade ISO numa empresa de logística. No ano passado, me formei em administração de empresas pelo Mackenzie, em São Paulo. A faculdade de administração passa uma idéia vaga do que são as áreas afins, e tenho muitas dúvidas sobre o que seguir numa eventual especialização ou MBA. Venho pensando em me dedicar às finanças ou à gestão corporativa. Meu sonho é ser escolhido para gerir um negócio. Acho que minha idade é um pouco avançada em relação a meu currículo. Mas tenho grande disposição para o estudo e para a aprendizagem contínua, desde que seja uma área que me possibilite retorno. (Adalberto Alves, São Paulo)

Caro Adalberto: fico sempre espantado quando um jovem de 24 anos diz que está com a "idade um pouco avançada" para qualquer coisa. Você é jovem, bem jovem, e ainda tem um enorme mundo de experiências a serem vividas. Hoje em dia, por causa da pressão pela "novidade" acelerada, corremos o risco de achar que nós também somos computadores, que ficam inevitavelmente obsoletos em um ano ou menos. Mas não somos objetos nem mercadorias, não temos prazo de validade. A desatualização não é uma questão só de tempo, mas principalmente de falta de capacidade ou disposição. Há pessoas com 80 anos que nunca ficarão obsoletas. Outras saem da adolescência direto para a obsolescência...

Feita essa observação inicial, algumas palavras sobre a área de qualidade, na qual você atua hoje. Essa talvez seja hoje uma das fronteiras a serem desbravadas no mundo empresarial. Muito se fala em qualidade, com várias certificações e teorias disponíveis. Não tenho dúvida de que isso é muito importante. Mas acho que, em vários casos, é também jogo de cena. A qualidade, mais do que uma "decisão", significa a transformação cultural de uma empresa.

Tempos atrás, realizando um trabalho para uma empresa de varejo que se dizia "focada no cliente", perguntei a uma funcionária do balcão o que ela faria se estivesse atendendo um cliente e o diretor a chamasse ao telefone. Ela não titubeou: deixaria o freguês esperando "um pouquinho" e falaria com o chefe. O discurso da empresa era focado no cliente. Mas a prática e a cultura ainda estavam longe disso. Por isso, seja qual for o plano teórico em que se desenvolvam os programas de qualidade, defendo que se adote sempre a atitude de um grande especialista: o feirante.

Ele chega antes de todos os clientes. Mantém a barraca arrumada o tempo todo. Atende com bom humor e rapidez. É flexível na negociação e diminui os preços no decorrer do dia. Oferece possibilidades diferenciadas para os que chegam cedo e compram o legume recém-arrancado da terra, pagando mais por isso. Já os que esperam a "hora da xepa", comprando os produtos já expostos durante algumas horas, pagam menos. O feirante é o precursor de todas as ISOs.

Sobre suas dúvidas a respeito do caminho a seguir, aconselho que pense na comparação com a feira. Você nunca vai "ser escolhido" para gerir um negócio, você vai conquistar essa posição. Como? Expondo-se na feira, quero dizer, no mercado. É a partir do trabalho que você faz que suas capacidades vão se tornar visíveis. Talvez você já esteja no caminho que o levará aos seus sonhos, desde que a sua barraca seja a mais bem-arrumada da feira, e você, o melhor feirante.


Simon Franco é diretor-geral de desenvolvimento estratégico na América Latina da TMP Worldwide

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Fonte: Revista Exame/18 de abril de 2001 - págima 131