Comunicação e base cultural

Reconhecida pelos seus laboratórios de rádio e TV e veículos laboratórios, a Metodista baseia sua metodologia de ensino na busca da sólida formação cultural aliada ao domínio das técnicas de comunicação.

Clayton Melo

Ana Cláudia Braun começou a atuar na área de comunicação ainda na época da faculdade. Aluna de jornalismo da Universidade Metodista de São Paulo (Umesp) entre 1990 e 1993, ela participou ativamente do telejornal e radiojornal internos da instituição. Além disso, se engajou no Rudge Ramos, jornal-laboratório semanal produzido ainda hoje pelos estudantes da Umesp (reforçado por uma tiragem de 30 mil exemplares) e distribuído para moradores do bairro que nomeia a publicação, em São Bernardo do Campo (SP), onde fica um dos campi da Metô, como é carinhosamente conhecida pelos universitários. A universidade ainda possui as unidades Vergueiro, também no ABC, e Planalto, na saída de São Paulo para o litoral. Para Ana, a participação nesses produtos foi importante para sua formação e deixou na memória passagens agradáveis. 
Uma década depois, a mesma Ana Cláudia se vê tão próxima da universidade quanto antes. Afinal, além de mestranda em Comunicação Social pela própria Metodista, Ana é assessora de comunicação da instituição. Sua função envolve atendimento aos públicos interno e externo, com suporte estratégico e operacional à comunicação da universidade. O objetivo do trabalho, segundo ela, é projetar imagem de uma "maneira integrada e coerente". Ela relata que os atuais estudantes de comunicação da Metodista têm em mãos um arsenal de produtos laboratórios em número superior aos disponíveis para a sua geração. "Hoje, há mais oportunidades nas agências experimentais internas", afirma. Além do Rudge Ramos, da TV Metodista e da Rádio Metodista, outro veículo é a Revista Eletrônica Art & Com, publicação mensal que se propõe a discutir a comunicação.

Atuação social

A Metodista mantém agências para a área de Jornalismo, Comunicação Mercadológica, Relações Públicas, Rádio e TV, Turismo e Administração. Essas agências servem como importante meio para o universitário testar na prática o que aprende nas salas de aula. A existência de amplo leque de jornais internos e laboratórios de rádio e TV são marcas da Metodista. Mas antes de serem apenas símbolos de desenvolvimento tecnológico, a instituição reforça a idéia de que sua função é servir como ferramenta de projeto pedagógico calcado em formação cultural sólida e em busca de compromisso social, como argumenta o professor Davi Ferreira Barros, reitor da Metodista (leia mais no box).
A professora Marli dos Santos, coordenadora do curso de jornalismo da Umesp, corrobora o raciocínio do reitor Davi e conta que, no ano passado, foi realizada reforma curricular com base em avaliação interna de alunos e professores, que tentou distribuir de forma equilibrada a carga horária das disciplinas técnicas e teóricas. "A pesquisa nos deu pistas sobre a criação de modelo curricular que atendesse às necessidades dos alunos, em sintonia com o mercado, mas mantendo o compromisso com a filosofia do curso e da universidade", explica Marli. Como exemplo de ações práticas, ela lembra que desde o primeiro semestre os estudantes produzem para veículos internos, como o boletim eletrônico Impressão Digital. Ao mesmo tempo, o novo currículo apresenta disciplinas como Economia, Antropologia Cultural e Crítica da Mídia. De acordo com ela, a Metodista busca formar "cidadãos e profissionais capazes de posturas analíticas e críticas diante da realidade social, cultural e econômica, com domínio da técnica jornalística para atuar nos diversos meios de comunicação".

Formação equilibrada

O curso de Relações Públicas reza pela mesma cartilha. "Nossa meta é formar o cidadão ético, crítico, responsável e o profissional dotado de conhecimentos indispensáveis, de visão ampla, empreendedor, capaz de desempenhar-se à altura das exigências da sociedade globalizada", diz Maria Aparecida Ferrari, diretora da Faculdade de Jornalismo e Relações Públicas. 
Com relação ao perfil de profissional de comunicação empresarial mais adequado ao mercado atual, Maria Aparecida afirma que as empresas não querem "profissionais exclusivos de um setor, seja ele jornalista, publicitário ou relações públicas". As organizações buscariam, sim, a ação do RP, capaz de assessorar as estratégias de relacionamento e de comunicação da empresa. Requerem também a perspicácia do jornalista para o exercício inteligente da relação da companhia com a mídia. Por fim, buscam a versatilidade do publicitário para perceber a demanda e as reações do mercado em que atua. "Há campo vasto para a presença de todos os profissionais de comunicação na sociedade global, o que pode deixar a desejar é a capacitação real deles", opina. 
Para comprovar sua argumentação, Maria Aparecida esclarece não haver um departamento de RP para cuidar da comunicação da Metodista, mas de uma completa assessoria de marketing, contando com os núcleos de Eventos, Produtos e Instrumentos de Comunicação, Pesquisa e Opinião. Os trabalhos desenvolvidos por esses setores são supervisionados pelos próprios professores de cada setor.

Compromisso com a comunidade

A educação é um fator político. Partindo desse pressuposto, uma universidade precisa valorizar a formação para a cidadania para que seus alunos tornem-se, além de competentes profissionais, cidadãos comprometidos com a realidade social. Essas análises estão na entrevista concedida por Davi Ferreira Barros, reitor da Universidade Metodista de São Paulo, à Comunicação Empresarial.

Comunicação Empresarial - A Metodista é comprometida com valores éticos e cristãos. Analisando a partir do começo, como o senhor define a filosofia pedagógica adotada pela universidade? 
Davi Ferreira Barros - Penso que a Metodista, como uma instituição confessional, considera a educação como um fator político. Nesse sentido, ao valorizar a formação para a cidadania, ela dá a esta cidadania uma conotação de direitos da pessoa, direitos a uma vida digna, a uma sociedade justa, com distribuição adequada dos bens produzidos por todos. A pedagogia que a Metodista abraça enquanto filosofia educacional é necessariamente uma pedagogia engajada politicamente. Isso quer dizer que sua formação não é apenas profissional, mas engajada para uma atuação numa sociedade em que esses valores precisam estar à frente. Embora prepare as pessoas para exercer com competência a profissão, ela quer avançar um pouco mais, na tentativa de preparar as pessoas para o exercício de uma cidadania plena, que pressupõe o exercício da solidariedade humana, da justiça, da busca da realização coletiva das pessoas.

CE - Novas instalações abrigarão as agências experimentais. Qual é a importância dos laboratórios instalados na Metodista? 
Ferreira Barros
- Os laboratórios são parte integrante do processo num ambiente de aprendizagem. Quando a universidade começa a criar outras alternativas de exposição do aluno ao processo de aprendizagem, ela completa um quadro em que favorece o estudante a apreender o seu contexto, não só aquele conteúdo específico. Assim, o laboratório é fator que só tem a contribuir. Isoladamente, ele não quer dizer nada. É preciso a incursão teórica de profundidade, mas é necessário também aliar essa incursão teórica às condições de experimento por parte do aluno, seja no laboratório científico, de pesquisa concreta em objetos, em matérias, seja numa atividade de extensão com pessoas, grupos e necessidades sociais. São formas que a gente chamaria genericamente de laboratórios porque colocam o aluno diante de uma realidade na qual ele pode aliar os aspectos teóricos que ele apreendeu com uma realidade prática e, a partir disso, formar uma síntese que possa realmente ser absorvida como conhecimento, que o capacite a transformar essa realidade.

CE - Há algum tipo de integração entre a Metodista e a comunidade da região do Grande ABC Paulista? Como ela acontece e que tipo de trabalhos são realizados? 
Ferreira Barros
- A Metodista não só é reconhecida pela comunidade. Temos um compromisso institucional que faz parte da nossa razão de ser como Universidade Metodista. Há um compromisso intrínseco com a região e seus problemas. Trata-se de uma política institucional. Buscamos isso até nos projetos de pesquisa e queremos trabalhar no sentido de extensão. Obviamente, o ensino já está integrado neste aspecto e temos como objetivo que todos os projetos de pesquisa e extensão tenham utilidade para a resolução de problemas da nossa comunidade. Nossas ações com atividades e projetos na Metodista comprovam nossa vocação de estar, realmente, sintonizada com o mundo empresarial, com o poder público e com os órgãos não-governamentais, que de certa forma estão envolvidos em prestação de serviço à comunidade e solução de problemas.

CE - Quais são os pontos que passam por aperfeiçoamento na Metodista? 
Ferreira Barros
- A Metodista ainda é muito jovem, do ponto de vista institucional. Ela precisa amadurecer ainda muitos pontos da sua atuação, para pontuar algumas coisas. Nosso ensino está longe de responder adequadamente a um processo de "aprender a aprender". O processo de aprendizagem que vai se exigir da sociedade nos próximos anos provavelmente será totalmente diferente do que nós praticamos hoje em algumas salas de aula. E essa revolução vem vindo por dentro. O processo de informação tão ágil que está ocorrendo vai implodir o sistema universitário por dentro. Pelas próprias circunstâncias, não só dos alunos, mas as próprias circunstâncias do fazer com o conhecimento, com as informações, vão tornar o processo nosso tão velho, tão aparentemente já ultrapassado, que as pessoas vão ficar perplexas, a não ser aqueles que já estão enxergando e buscando novas alternativas. Felizmente, há muitas experiências nesse sentido. E também os alunos ajudarão nessa revolução porque a juventude, que está tendo um acesso tão grande aos processos de informação, vai contestar os professores que ainda estejam vinculados a métodos antiquados ou apegados a conhecimentos ou metodologias ultrapassados. Esse é um ponto a ser constantemente trabalhado. Um desafio da Metodista é avançar na pesquisa comprometida com os problemas sociais da sua região. Já que é uma instituição particular com limitações orçamentárias e depende da mensalidade do aluno, ela precisa direcionar para a comunidade a sua contribuição, estimulando seus professores a trabalhar esses problemas, a transformar projetos de pesquisa, a envolver alunos, porque aí a pesquisa terá um significado social relevante. A universidade, sozinha, não teria condições de realizar isso. Então, temos que fazer parcerias com a comunidade empresarial e com os órgãos governamentais para que essas pesquisas tenham cada vez mais importância social.

Revista Comunicaçao Empresarial- Aberje -Ano 11 - Nº 39 2 º Trimestre de 2001 www.aberje.com.br