A idade da web lascada está chegando ao fim.


A necessidade de a tecnologia acelerar a evolução dos objetos para um estágio no qual eles possam se comunicar e se adaptar melhor às necessidades dos seres humanos é uma das vertentes que compõem a tese do cientista brasileiro Jean-Paul Jacob, que vive nos Estados Unidos há 40 anos e, atualmente, é um dos executivos do Centro IBM de Pesquisas de Almadén, na Califórnia.
Entre as iniciativas que estão abrindo caminho para que os computadores entendam as necessidades dos usuários, Jacob apresentou um rastreador de pupila, que funciona a partir de uma câmera acoplada à moldura da tela do monitor e permite, entre outras coisas, a rolagem automática das páginas, sem comando manual, de acordo com o movimento dos olhos do leitor. Instrumento que também será muito útil para a avaliação de peças publicitárias, tanto na internet como em outros meios, pois detectará para onde o público está dirigindo sua atenção. “No futuro, viveremos em ambientes atentos, capazes de reconhecer as pessoas e suas necessidades”, prevê Jacob.
Neste cenário, os objetos também estarão conectados à web para dar mais agilidade a um sem-número de operações. A tecnologia da IBM já permite, por exemplo, que máquinas de auto-serviço da Coca-Cola ligadas à rede aceitem pagamento pelo celular, via wap.
Citando exemplos de agentes inteligentes, cuja missão é facilitar a vida dos internautas, o cientista chamou atenção para o Clever, que isola os resultados de uma busca, selecionando os sites que têm maior número de páginas listadas a partir de uma palavra-chave em ordem de relevância de autoridade; e o WBI, que manda mensagens para os celulares, inclusive coloridas, desde que os aparelhos wap estejam aptos a recebê-las.
De olho no futuro, Jacob ainda enumerou as utilidades da tela plana — como a inserção de publicidade em elevadores —, acrescentando que, em breve, ela será dobrável, o que permitirá aplicações ainda mais surpreendentes. O estudioso também sentenciou: “O DVD está mudando o conceito de entretenimento e irá aposentar o CD e o livro”.
No campo da mídia, discos rígidos cada vez menores e com mais capacidade de armazenamento poderão viabilizar a TV pessoal, gravando somente os programas que interessem ao espectador, para que ele os assista quando melhor lhe convier. “Estamos saindo da infância da informática e começando a resolver os problemas da vida.”, comemorou Jacob.

Fidelidade ameaçada

Se o ofício de Jacob é pensar naquilo que ainda está por vir, para o jornalista econômico Joelmir Beting, mais difícil que antever o futuro ou explicar o passado, tem sido entender o presente. “Dizer que a internet é uma bolha e pode estourar é um erro que tem levado empresários a ficarem com o pé no freio na hora de investir nesse setor”, alertou, sustentando que a web é, na verdade, uma onda que tende a produzir novas ondas borbulhantes.
Beting lembrou, como exemplo, a “bolha do eldorado digital”, que transformou a entrada das empresas na web numa corrida do ouro, produzindo cenários irreais para 120 companhias, todas tentando ocupar um lugar em espaço onde cabem apenas 12. “A tecnologia permite que sejam lançadas 200 revistas em uma semana, mas a economia real não”, comparou.
O analista engrossa a fileira daqueles que não acreditam no fracasso da rede, mas sim na sua depuração. Ele considera normal o fato de a maioria das iniciativas naufragar, exemplificando, novamente, com a economia real, na qual, segundo pesquisas do Sebrae e da Fipe, 92% das pequenas empresas que nascem no estado de São Paulo não proliferam.
“Os fundamentos da velha economia não foram revogados. A nova economia está modernizando a velha, que carrega a nova no colo, como parceira.”, seguiu Beting, visualizando um enredo que coloca no trono o consumidor, tão bem informado em tempo real que pode se dar ao luxo de se tornar cada vez mais seletivo, exigente e pouco fiel. “A distância que separa o mais fiel dos clientes do mais feroz dos concorrentes é de um clique”, alertou.
Para o jornalista, pela porta da frente, através do B2C, ou pelos fundos, com o B2B, todas as empresas estarão na internet em 2005. Com o peculiar estilo de quem ajudou a diminuir a sisudez do linguajar econômico, Beting também enumerou as três correntes de pensamento que vêm tentando definir o e-commerce.
A primeira acredita que o comércio eletrônico é como sexo na adolescência: fala-se muito sobre ele, faz-se pouco e quem já faz ainda o faz mal. A segunda prega que o e-commerce é como sexo fora do casamento: há muito mais gente fazendo do que se imagina, quem não o faz quer fazer e quem já pratica o faz com medo. Finalizando, Beting defendeu a corrente à qual se aliou, explicando que o comércio eletrônico é, na verdade, como sexo no casamento: ninguém mais vê novidade nisso, mas já sabe que, se não o fizer direito, alguém o fará no seu lugar.

A inevitabilidade da internet

Jacob e Beting fecharam o evento, aberto com uma palestra de Rafael Sampaio, vp da ABA e editor de About, que sintetizou o conteúdo explorado durante os dois dias de AbaNet: a inevitabilidade de estar na internet e dela fazer uso, de alguma ou de muitas formas, nos próximos anos.
Em sua exposição, Sampaio enfatizou que não se pode ver a grande rede apenas como um instrumento de comunicação, marketing, compra, venda, prestação de serviços, promoção, relacionamento, suporte, relações públicas, atendimento ao consumidor, endocomunicação ou qualquer outras das muitas áreas de atividade de uma empresa ou instituição, uma vez que ela, gradativamente, será empregada como ferramenta central ou acessória de todas essas tarefas ao mesmo tempo.
Infelizmente, não é assim tão fácil entrar para o mundo da internet com a devida lógica e consistência. Ao contrário, é relativamente complexo e difícil fazer as coisas como elas devem ser feitas. Todavia, como pontuou Sampaio, pior é não entrar. E para quem já está dentro, pior ainda é sair, deixando a impressão de que a empresa não está em condições de gerenciar sua permanência no futuro.
Substituir, ampliar e abrir foram os três verbos apontados na palestra como aqueles que devem ser conjugados no momento de definir as tarefas a serem realizadas pela internet, bem como para justificar e levantar os investimentos necessários. “Não devemos pensar apenas em como faturar mais, mas também em como reduzir gastos, manter mercado, ganhar eficiência e eficácia”, afirmou Sampaio.
Como destacou o palestrante, o problema, na grande maioria das organizações que decidem entrar no universo da internet, é não realizar o “dever de casa” como ele deve ser feito. Quatro etapas são fundamentais para que esse processo seja bem-sucedido, sob uma ótica holística, segundo Sampaio: definir a estratégia, desenhar a arquitetura, organizar a engenharia e adotar os sistemas de gestão adequados a todo o projeto.
Tecendo considerações sobre o futuro, Sampaio também arriscou fazer previsões: “a curto prazo, a internet não será tanto como sonhavam os otimistas apaixonados, nem tão pouco como previam os céticos; a médio prazo, será mais do que se espera hoje, mas, provavelmente, diferente daquilo que todos imaginam que ela venha a ser, pois a web tem uma dinâmica própria, absolutamente imprevisível em seus detalhes; e, a longo prazo, não tenho a mínima idéia — nem conheço ninguém que o tenha —, do que poderá acontecer com essa fantástica e poderosa rede virtual”.
Encerrando sua apresentação, Rafael Sampaio ainda frisou: “a nova economia está cada vez mais parecida com a velha, mas a velha economia nunca mais será como antes”.

A reinvenção do varejo

“E-commerce, e-business, e-grana” foi o tema abordado por Mario Goldberg, gerente de franchising e planejamento comercial de O Boticário, que focou sua apresentação na questão da integração entre o real e o virtual.
Apesar da atual crise vivida pela Nasdaq, o executivo salientou que o setor varejista não pode, nem deve, ignorar que o número de consumidores on-line está crescendo. Na sua opinião, a palavra de ordem para o varejo, atualmente, é “acessibilidade”, ou seja, o grande desafio das empresas é tornar seus produtos e serviços acessíveis na hora, no local e da forma que o consumidor deseja. “E a única maneira de conseguirmos cumprir esse objetivo é trabalhando através de multicanais”, explicou.
Nesse sentido, segundo Goldberg, a internet será cada vez mais uma ferramenta de vendas e, conseqüentemente, obrigará o varejo a reinventar-se.
Entretanto, para obter sucesso, as empresas terão de ter em mente que precisam proporcionar experiências de compra bem-sucedidas, sejam elas na loja, na internet, ou através de catálogos. “É importante observar que os estudos realizados nesta área têm mostrado que clientes multicanais são mais fiéis e rentáveis”, enfatizou.
Entre as principais proposições do executivo, vale destacar:
— Multicanal é uma necessidade e não uma opção;
— As operações de fullfilment e de logística devem ser encaradas como prioritárias;
— É necessário priorizar o aprendizado diário, uma vez que convivência e experiência fazem a diferença no e-commerce;
— A questão da boa gestão continua reinando absoluta e as empresas não podem cair no erro de acreditar, como já aconteceu com algumas ponto com, que as velhas máximas sobre rentabilidade e produtividade não fazem parte do mundo virtual.

Vantagens do e-business

Para intensificar o debate sobre o e-commerce, o gerente da Price Waterhouse, Robson Calil Chaar, apresentou, durante o evento, “o road-map do e-management”, definindo conceitos que incluem tanto o marketing como a compra e venda de produtos e serviços pela internet, incorporados pelo e-business, cuja meta é melhorar a performance dos negócios, sejam eles de B2B, B2C e B2E (este último, site corporativo, dirigido aos funcionários de uma companhia).
Além de englobar o e-commerce, portanto, o e-business também trabalha para a expansão de mercado, integração de processos, criação de novos negócios, desenvolvimento de novos produtos e serviços, redução de custos e ampliação dos canais. “Se o e-business fosse um país, o seu PIB, atualmente, seria menor que o da Suíça, porém, maior que o da Argentina”, comparou.
Na sua lista de recomendações às empresas que estão entrando no segmento de e-business, Chaar acrescentou a necessidade de trabalhar com os parceiros de negócios, entregando a eles informações oportunas em tempo real e compartilhando a infra-estrutura da internet; desenhar produtos mais eficientes; e estender o alcance da empresa, vendendo para novos consumidores e comprando de novos fornecedores.
O profissional garantiu que as conseqüências desses procedimentos serão benéficas, com a integração de processos permitindo uma diminuição de custos, o aumento da receita e uma maior probabilidade de satisfazer o cliente.
Alertando para a necessidade de aumentar a atenção dispensada pelas companhias ao quesito segurança, Chaar lembrou que não existem transações virtuais, mas sim transações remotas, que despertam uma série de sentimentos no consumidor. “Confiança ainda não é uma delas”, concluiu.

Concorrência acirrada

Executivos de seis portais horizontais e verticais estiveram no AbaNet para debater o atual estágio do mercado brasileiro de mídia interativa. Mediada pelo presidente da AMI, Antonio Rosa Neto, a mesa, que reuniu os portais horizontais, contou com a participação do presidente do UOL, Luis Frias; do diretor do Terra Brasil, Marcelo Lacerda; e do diretor de e-commerce do Globo.com, José Carlos Kanner.
Para Kanner, a percepção do mercado em relação à internet é a de que o microcomputador é muito caro, o custo de acesso pago é alto e os portais têm muito texto e pouca interatividade. Para driblar percalços como esses, o Globo.com tem ofertado, a agências e anunciantes, projetos de veiculação casada na mídia interativa, no rádio, nas TVs abertas e nas fechadas — aproveitando-se da sinergia entre as empresas das Organizações Globo.
Frias enfatizou que o desempenho do UOL no ano 2000 prova que uma empresa brasileira tem condições de permanecer na liderança do mercado, mesmo enfrentando grandes conglomerados internacionais, como AOL e Terra. Durante sua explanação, o executivo disse que as salas de chat são a novela da internet, previu que o acesso grátis não vai durar muito tempo e que a conexão telefônica ainda será a principal via de acesso à web pelos próximos cinco anos.
Falando em nome da Terra Lycos, Lacerda adiantou que a empresa espera estar dando lucro já no final de 2001 e pretende ser o destino on-line mais visitado do mundo, sustentando-se em três pilares: o caráter global, a convergência das mídias e a economia real.
Para apresentar seus projetos de portais verticais, compareceram ao AbaNet o ceo do Fulano, Rogério Silberberg; o ceo da Idealyze (Grupo Abril), Fernando Gonzales; e o criador do Canal Kids, Felipe Dianese.
Silberberg caracterizou os portais verticais como negócios pequenos, que irão se desenvolver e ganhar porte com o crescimento da internet, mas também reconheceu que, até o momento, já foram criadas mais iniciativas do que o mercado pode suportar. “A publicidade não conseguirá sustentar tantos projetos e os portais verticais terão de descobrir outras fontes de receita”, ressaltou.
De fato, não é uma briga fácil. No mercado, os portais verticais, além de competir com os seus concorrentes diretos, precisam lutar pelas verbas publicitárias com os verticais dedicados a outras áreas e com os próprios portais horizontais.
Aproveitando o riquíssimo conteúdo das empresa do Grupo Abril, a Idealyze pretende conquistar seu espaço, investindo na criação de uma rede de mídia segmentada, já integrada pelo feminino Paralela e o tecnológico TCI Net. Gonzales revelou que aposta no fato de os verticais aumentarem o valor da abordagem dos anunciantes. Dianese concordou: “O segredo é agregar valor às marcas, respeitando o target dos anunciantes e lançando mão de um modelo não engessado”.
A flexibilidade para a veiculação publicitária também foi apontada como mais uma vantagem dos verticais sobre os horizontais, que têm políticas de inserções e patrocínios muito mais rígidas.

Mensurando o retorno

A medição de audiência e o reconhecimento do perfil dos internautas são fundamentais para que os portais, em todos os nichos de atuação, conquistem credibilidade junto ao mercado publicitário. Por isso mesmo, não param de surgir novas empresas, especializadas nesse tipo de estudos e pesquisas, como a norte-americana Engage, que em breve estará operando também no Brasil.
O diretor da Engage Latin America, Xavier Mantilla, um dos palestrantes do AbaNet, apresentou um elenco de ferramentas de ponta para realização desse trabalho, que somam know-how e expertise das áreas de propaganda, marketing direto, pesquisa e modelagem econométrica.
Segundo o executivo, o mercado vive um momento de excesso de oferta de espaços publicitários, um cenário que contrasta com o observado até pouco tempo atrás, quando determinados segmentos de anunciantes não tinham aonde veicular suas mensagens. “Essa oferta excedente gerou uma depressão entre as empresas ponto com, levando muitas delas a desaparecerem. Conseqüentemente, aquelas que sobreviveram vêm sofrendo com o fato de os anunciantes terem se tornado muito mais rigorosos nas decisões de investimentos publicitários na internet”, analisou.
De acordo com uma pesquisa da ANA - Associação Americana de Anunciantes, realizada em maio deste ano, são quatro os motivos principais que fazem com que as companhias não invistam mais em publicidade on-line, conforme delatou Mantilla: 49% das pesquisadas alegaram que não o fazem por falta de mensuração do retorno; 35% delas afirmaram que a taxa de cliques em banners está caindo; 35% consideraram-se despreparadas, ou melhor, sem experiência para lidar com o meio; e 31% revelaram que estão preocupadas com a ausência de medições confiáveis de audiência. “Quem não analisa o retorno não sabe onde se situa em relação aos concorrentes”, alertou.

*Colaborou Tânia Trajano
Revista About on line 27/11/2000 - colocada no site em 1o de agosto de 2001

Alexandre Lemos
azlemos@uol.com.br