Abaixo
os certinhos
O que é bom a gente
mostra. O que é ruim, também
Por Simon Franco
Caros leitores: Um amigo advogado costuma dizer que, ao preparar clientes para
um depoimento na Justiça, evita a todo custo uma apresentação totalmente
coerente. "Algumas contradições fazem parte do jeito de ser humano. Ninguém
acredita quando tudo é muito certinho", diz ele. Isso pode servir para
reflexões no mundo do trabalho. Toco no assunto por causa das muitas mensagens
que recebo sobre a disputa por uma vaga de emprego. Em geral, os leitores contam
que fizeram "tudo certinho", mas não conseguiram ser contratados. E aí
vem a perplexidade: "o que está errado comigo"?
Meus amigos, não considerem isso uma regra, mas um elemento de reflexão: não ter medo dos próprios erros - já cometidos ou dos que ainda serão cometidos - é tão importante quanto ter orgulho dos acertos. O esforço de parecer "certinho" pode nos levar a expor uma imagem falsa, sem credibilidade, de nós mesmos.
Isso vale para um currículo: ele é uma carta para seduzir alguém, um texto que deve servir para deixar o selecionador com vontade de conhecer você. Ele precisa deixar claro as qualificações, as experiências positivas e as negativas também, desde que você mostre como agiu para enfrentar os problemas. Ninguém acreditará num currículo de super-homem.
Isso vale para uma entrevista: se você ficar preocupado em acertar as respostas ou exclusivamente em ser agradável, acabará exalando insegurança ou parecendo chato. Não devemos ter receio de discordar, desde que tenhamos convicção do que estamos afirmando. Ao mesmo tempo, nada de ficar nervoso ou achar que está tudo perdido, caso o entrevistador endureça a conversa. Ele pode estar testando sua firmeza, sua personalidade.
Isso vale também para um estágio: quem tem medo de errar ou fica esperando que os outros lhe digam o que fazer, tende a desaparecer no cotidiano. Fez tudo certinho, mas não fez nada que o diferenciasse das dezenas de outros certinhos que existem no mundo.
Com tantas exigências que existem hoje para o mundo do trabalho, ficamos com a impressão de que há um modelo profissional a ser seguido. Felizmente, não é assim. Existe um conjunto de qualificações mínimas desejáveis: boa formação acadêmica, domínio de pelo menos uma língua estrangeira, capacidade de autodesenvolvimento, entre outras. Mas essas regras não garantem nada. É a personalidade própria e a capacidade de cometer e reconhecer os próprios erros e acertos que fazem a diferença. Arriscar, com coragem e competência, é uma atitude muito bem-vinda.
Deixemos de lado a história que ficou famosa há alguns anos no país: o que é bom a gente mostra, o que é ruim a gente esconde. Fazer isso é falsificar a si próprio e não traz grandes vantagens. Parafraseando um poeta, diria que o grande erro é o grande acerto que se esqueceu de dar certo. E pode ser mais importante do que uma pequena vitória.
Quem busca um emprego novo ou quer conquistar postos mais altos deveria pensar nisso: gastar menos energia na tentativa de construir uma imagem certinha e assumir as próprias contradições e equívocos, não ter medo de suas deficiências e deixar claro o que está fazendo para superá-las. Pois não se trata de defender um comodismo qualquer. Conhecer as próprias falhas é, como todos sabemos, o primeiro passo para superá-las. Aprender com os próprios erros é a melhor forma de não repeti-los. Mostre isso ao seu atual ou futuro empregador.
Simon Franco é diretor-geral de desenvolvimento estratégico na América Latina da TMP Worldwide