A Aldeia Global é um conjunto de muitas tribos.

Há mais de dez anos que estamos ouvindo falar da globalização. Hoje é um fato para o qual muitos ainda não estão preparados. O domínio de idiomas, as sutilezas do comércio internacional, os padrões mundiais de excelência, enfim, uma série de desafios que se tornaram oportunidades para quem se preparou para as mudanças que estamos vivendo. Porém, há um passo além que precisa ser dado e que fará toda a diferença em termos de competição mundial.

O indivíduo globalizado, que é fluente em inglês e espanhol, entende de legislação internacional, tem um diploma de MBA, trabalha para grandes corporações multinacionais e se sente confortável em qualquer lugar do planeta, não é mais a referência de performance competitiva. Claro que esse ainda é um padrão de competência, entretanto esse padrão tende a mudar rapidamente.

O globalizado dá lugar ao cosmopolita. Estamos entrando num novo ciclo, onde a "linguagem universal" não é mais importante do que o sotaque local. É o ressurgimento da valorização de tradições ancestrais. Em São Paulo, por exemplo, os grupos folclóricos passaram de 20 para 160 inscritos em eventos internacionais em apenas dois anos, a maioria formado por jovens com menos de vinte anos. No cinema europeu, sete em cada dez filmes, falam de situações regionais e realçam costumes antigos. Mesmo na América, os inventores da globalização, há uma forte corrente pela personalização e um resgate de valores regionais, com grandes rodeios que passaram de atividades provincianas para megaeventos, ou a música regionalista que vai ganhando espaço na competitiva programação comercial. A diversificação está em alta.

Até os americanos não querem simplesmente que se fale inglês, é preciso ter o sotaque de cada lugar, ou seja, entender e respeitar seus valores e sua cultura. Isso está acontecendo por toda parte. Não basta mais viajar pelas capitais do mundo, hospedando-se em hotéis assepticamente formatados para um indivíduo sem cor e sem sabor, conhecido pelo nome genérico de "executivo". Essa tribo de globalizados, que vive entre Nova York, Londres, Paris, Milão e Hong Kong, mas que não tem a menor idéia de qual é o forte da culinária local, desconhece as lendas das cidades, ou sequer circula em áreas diferentes do triângulo aeroporto, hotel, centro econômico, essa tribo está com a maior crise de identidade.

O globalizado é, basicamente, um indivíduo que supera as diferenças regionais para implementar sua estratégia global. O cosmopolita, ao contrário, faz das diferenças sua busca, a peculiaridade de cada cultura é sua inspiração. Ele fala javanês, valoriza os pratos exóticos do oriente, aprecia a sensualidade latina e respeita a fleuma anglo-saxônica. Muito mais do que um viajante global, o cosmopolita é um colecionador de causos e particularidades locais, ao redor do mundo. Diferentemente do provinciano, ele coloca as peculiaridades de cada povoação dentro de um contexto mundial, atribuindo-lhe um valor de fato, não apenas propagandeando bairrismos.

É o cosmopolita que vai brilhar nas mesas de negociação espalhadas pelo planeta. Porque ele sabe falar a linguagem local, mais do que dominar o idioma, ou seja, compreende e respeita as tradições, sabendo como usar essa informação para promover a aproximação de idéias e compor soluções inéditas. O globalizado já traz as soluções formatadas pela matriz. A criatividade, a autonomia, um profundo conhecimento de cultura geral, o interesse pelo diferente, enfim um novo perfil de desempenho é o destaque que o cosmopolita traz na bagagem.

Enquanto o globalizado gerencia em seu relógio global a diferença de fusos horários, o cosmopolita é um cidadão de seu tempo e está ajustado ao momento. Para ter sucesso nesse novo ambiente é preciso ter as habilidades do indivíduo globalizado, com sua formação acadêmica de primeira linha e sua incansável energia, porém a ambição sem limites buscando o progresso da carreira corporativa dá lugar a um desenvolvimento continuado, com o foco em carreiras mais independentes, numa velocidade e num ritmo personalizado.

O mundo do cosmopolita é regulado por decisões que passam pelos interesses da família, das comunidades em que atua ou que são afetadas por sua atuação, por sonhos pessoais, por desejos singelos como ver o pôr do sol em Kuala Lumpur ou tomar um Bordeaux às margens do Sena. O ritmo é definido pelo prazer de viver a vida, não pela pressão do próximo negócio. Este cidadão do mundo continua tendo que responder a desafios cada dia maiores, mas ele usa o dialeto regional para ser entendido e obter melhores resultados.


Dulce Magalhães
Ph.D em Planejamento de Carreira pela Columbia University
Palestrante e escritora.
www.work.com.br
work@work.com.br

Artigo publicado originalmente na Revista Amanhã - www.amanha.com.br

15/01/2001