Greenpeace,
agora, desconfia de seu herói Lorde Melchett, ex-diretor da ONG, começa a trabalhar para "o outro
lado" JOHN VIDAL
The Guardian
LONDRES - O
ex-diretor do Greenpeace no Reino Unido, lorde Peter Melchett, que foi
preso há dois anos por ter liderado um ataque de ambientalistas a uma plantação
experimental de milho geneticamente modificado, surpreendeu seus ex-colegas. Na
última segunda-feira ele anunciou que vai trabalhar, a partir de amanhã, para
a empresa de relações públicas que representa a Monsanto e a indústria de
biotecnologia européia.
A atitude do
ex-ministro trabalhista e fazendeiro de agricultura orgânica provocou a ira dos
ambientalistas, abrindo uma polêmica intercontinental que resultou, por ora, na
sua saída do conselho do Greenpeace Internacional. Há dúvidas sobre sua
permanência como diretor da Soil Association, que promove a agricultura orgânica
no Reino Unido.
Burson-Marsteller
é a companhia à qual governos notórios por seu desrespeito aos direitos
humanos e empresas com problemas com ecologistas têm recorrido em situações
de crise. Já foi contratada pelo governo nigeriano para desacreditar os relatórios
sobre os genocídios cometidos na Guerra de Biafra; pela junta militar da
Argentina após o desaparecimento de 35.000 civis e pelo governo indonésio após
os massacres em Timor Leste.
A companhia
também já abalhou para melhorar a imagem do falecido presidente Nicolae
Ceausescu, da Romênia, e da família real saudita.
Entre seus
clientes corporativos estiveram a a usina nuclear de Three Mile Island, quando
sofreu um derretimento parcial em 1979; a Union Carbide, depois que o vazamento
de gás em Bhopal, na Índia, matou cerca de 15.000 pessoas; e também o governo
britânico, após o surgimento da doença da vaca louca.
Nos últimos
anos a Burson-Marsteller tem feito campanhas agressivas em favor das grandes
empresas de tabaco e de biotecnologia européias.
Lorde
Melchett explicou que será consultor da unidade de responsabilidade social
corporativa da Burson-Marsteller e só trabalhará com empresas que escolher.
"Serei mais seletivo do que quando trabalhava para o Greenpeace.
Meus valores
não mudaram, em absoluto e, se eu achar que uma companhia deve fechar suas
portas, direi aos responsáveis. Eu lhes direi a verdade."
Fonte: O Estado de S. Paulo, 13 de janeiro de 2002 - Geral - Pág. A 10