Comunicação
Corporativa
A imagem nas mãos dos empregados
Paulo Nassar
Uma grande empresa brasileira, situada em uma das áreas mais
cinzentas e industrializadas de São Paulo, descobriu recentemente que um grupo
de funcionários planejava melhorar o acesso de caminhões para uma de suas
portarias simplesmente cortando, à revelia da direção, durante a madrugada,
um conjunto de árvores postadas há mais de cinqüenta anos em frente à
empresa. De acordo com o plano, ainda no escuro, os restos mortais das pobres árvores
seriam rapidamente retirados por caminhões. E, na manhã, a empresa ganharia
uma portaria com acesso mais desimpedido. A ação só não foi levada em frente
porque o vigilante de plantão lembrou ao gerente participante da idéia que um
dos elementos da marca da empresa é exatamente representado por uma árvore. E
que pegaria muito mal, frente à centenas de outros empregados, envolvidos em
projetos de responsabilidade social e ambiental, desconfiar que alguém da
empresa estivesse envolvido naquele crime.
Essa história, que me foi contada por uma aluna, empregada da tal empresa,
ilustra a complexidade do desafio cotidiano de quem faz a gestão da comunicação
corporativa e de recursos humanos: cada vez mais, e mais rapidamente, é preciso
comprometer, até nos mínimos detalhes, todas as pessoas da organização,
independentemente de suas posições na hierarquia, com os valores e com as crenças
da empresa. Se perpetrado, o corte das árvores seria o corte simbólico da
identidade organizacional, somado a outras significações relacionadas à
quebra de compromissos, credibilidade e promessas daquela empresa diante da
sociedade e mercados. Graças ao vigilante, que fez jus a sua qualificação, as
árvores e a reputação daquela empresa continuam como estavam.
O exemplo ainda nos mostra que, nos dias de hoje, cabe à gestão de comunicação
e de recursos humanos a tarefa conjunta de habilitar todas as pessoas da
organização para as questões ligadas ao simbólico organizacional. O que
significa principalmente melhorar a qualidade dos relacionamentos e da comunicação
da empresa. Isso porque os processos mais estratégicos relacionados à construção
ou demolição da imagem empresarial passam pela forma como as pessoas da
organização (incluindo os seus gestores) estão trabalhando e se relacionando
com os seus públicos estratégicos.
De nada valem as estratégias modernas e sofisticadas de construção e defesa
da imagem organizacional, que envolvem ações ligadas à publicidade, às
responsabilidades comercial, ambiental, social e histórica, se elas não chegam
ou não são compreendidas pelo pessoal das oficinas, dos escritórios, da
“classe média”, do “chão-de-fábrica”, e da “periferia” da
empresa. O que equivale dizer que os processos de comunicação interna não
podem mais ser estruturados de costas para o que está acontecendo no mundo.
Eles devem levar em conta também as preocupações e o perfil dos públicos que
envolvem as atividades da empresa.
Cliente, consumidor, vizinho da empresa, fornecedor, distribuidor, jornalista,
autoridade, lideranças comunitárias e sindicais, autoridades, representantes
de organizações não-governamentais estão o tempo todo avaliando a empresa
por intermédio de sua interação com diretores, gerentes, telefonistas,
caixas, vendedores, recepcionistas e vigilantes. Principalmente por meio
daquelas pessoas que fazem a linha de frente de qualquer negócio. Hoje, é
dentro do território das empresas que se trava a grande batalha pela boa imagem
empresarial. As empresas aprenderam, gastando muito dinheiro e usando muito
talento, a fazer publicidade de suas marcas, produtos e serviços. Difícil é
fazer comunicação interna.
Paulo Nassar é professor, diretor-executivo da Associação
Brasileira de Comunicação Empresarial (Aberje) e mestre em comunicação
organizacional (ECA/USP). E-mail: pnassar@u-net.com.br
Fonte:
Revista Vida e Trabalho Melhor No. 174 - novembro de 2001 pag. 24 www.revistamelhor.com.br