Atitude provoca diferentes graus de indignação
A polêmica
aberta com o anúncio de Peter Melchett, lorde do Reino Unido, ex-ministro do
governo trabalhista e ex-diretor do Greenpeace, de que irá trabalhar na
Burson-Marsteller, revela diferentes percepções e graus de preconceito nas
relações dos ambientalistas com empresas e corporações.
Melchett
consultou e obteve apoio do Greenpeace Reino Unido na sua decisão.
Para Stephen
Tisdale, diretor-executivo do Greenpeace Reino Unido, não haveria nenhum
conflito de interesses entre o novo emprego e a permanência de Melchett no
conselho internacional da entidade: "Todos os que conhecem Peter sabem que
ele não mudou nem um pouco sua agenda".
Apesar desse
apoio local, o Greenpeace Internacional tem outra percepção.
Após
intensas conversações com Anne Summers, presidente do conselho internacional
do Greenpeace, lorde Melchett decidiu renunciar à posição de conselheiro que
assumira no ano anterior. Anne Summers manifestou-se feliz com o desfecho:
"O Greenpeace deve ser resguardado, assegurando-se que ninguém que tenha
alguma posição engage-se em atividades que possam ser ou sejam percebidas como
conflituosas com nossos princípios e objetivos de campanha" Entre os
ambientalistas prevalece a sensação de conflito de interesses. Kate Jones, que
já coordenou a campanha contra alimentos geneticamente modificados, resume esse
sentimento: "Como alguém pode ser, ao mesmo tempo, membro do conselho do
Greenpeace Internacional e diretor de política da Soil Association (promotora
da agricultura orgânica), recebendo dinheiro das indústrias de alimentos
geneticamente modificados e de companhias com os piores antecedentes imagináveis?"
Outras
pessoas já passaram por experiência semelhante no Reino Unido. Tom Burke,
ex-diretor da organização Friends of the Earth, que atualmente trabalha para a
companhia de mineração Rio Tinto, e Jonathan Porritt, outro ex-líder da mesma
organização, que trabalha para o governo inglês, afirmam que têm hoje mais
condições de promover mudanças. Mas os dois têm sido criticados e acusados
de traição.
Na Burson-Marsteller, Melchett, cujo avô ajudou a fundar a gigante farmacêutica ICI, trabalhará ao lado de Richard Aylard, diretor da Soil Association, e de Gavin Grant, ex-diretor de comunicações da rede Body Shop.
Fonte: O Estado de S. Paulo, 13 de janeiro de 2002 - Geral - Pág. A 10