JOSÉ NÊUMANNE
A gaiata loquacidade com que o publicitário Washington Olivetto
narrou os 53 dias que passou trancafiado num cubículo à prova de som
e o ar alquebrado, mas altivo, do chefe da quadrilha que o seqüestrou,
Maurício Hernández Norambuena, não devem enganar a ponto de
relativizar a dor da vítima e creditar simpatia ao algoz. Ambas as
posturas são conseqüências naturais (e de certa forma inevitáveis)
das circunstâncias: qualquer psicólogo dirá que o seqüestrado
passa por uma fase inicial de euforia quando supera o perigo
(lembram-se do desempenho de Patrícia Abravanel na sacada de sua
casa, ao lado do pai, no dia em que foi libertada?); e até um rábula
rastaqüera aconselhará o cliente a bancar a vítima (das injustiças
sociais, da conjuntura política ou dos azares do destino) para ter a
pena amenizada.
-
Mas ninguém se iluda: a alegria de Olivetto será substituída,
se não pela depressão profunda, no mínimo por uma postura
negativa causada pela lembrança recorrente dos dias que viveu sob
a espreita da morte no sobrado do Brooklin. A perspectiva da extinção
é o estigma que marca o ser humano desde que adquire consciência
da própria existência. "Não há muito o que dizer",
registrou Vinicius de Moraes em seu belíssimo Poema de Natal: a
vida é uma caminhada do berço ao túmulo. Ter a consciência
difusa desse destino inelutável, contudo, é bem diferente de
enfrentar a ameaça direta e imediata da morte: uma arma apontada
contra o rosto, a perspectiva da execução sumária, se não
forem atendidas certas exigências - eis a pior tortura. Mas, no
caso de Olivetto, ou de qualquer outro seqüestrado, esta não é
a única.
-
Por mais descontraída e criativa que seja a extensa e colorida
prosa do consagrado publicitário, de seu depoimento de
quinta-feira ficam as marcas vivas dos maus-tratos que sofreu: não
ouvir voz humana (nem a própria, o que no caso de um conversador
compulsivo como Olivetto deve ser um terrível castigo, nem outro
som, a não ser música); não poder contar o tempo; não ter a mínima
noção do que naquele momento está ocorrendo fora daquele cubículo
infecto, com os entes queridos certamente abalados por sua situação,
com o time de futebol preferido ou com o próprio negócio e, mais
genericamente, com a conjuntura política e econômica do País.
Essas limitações, que agravam a terrível sensação causada
pela privação da liberdade, vêm acompanhadas de incômodos
humilhantes para o ser humano, porque o fazem regredir à primeva
condição animalesca: o cheiro de suor no quarto dia sem banho e
o convívio com os próprios excrementos, seja por que período
for.
-
Se o que acima descrito não configurar tortura, então talvez
seja melhor reavaliar todos os princípios civilizatórios, com os
quais a humanidade tem conseguido a duras penas superar os
instintos bárbaros, mercê dos quais os mais fortes antes
submetiam os mais fracos à sua vontade.
-
Então, para começo de conversa, fica estabelecido aqui que o
cidadão chileno Maurício Hernández Norambuena submeteu o cidadão
brasileiro Washington Olivetto a maus-tratos que não condizem com
direito humano nenhum. Em outras palavras, ele o torturou em
território brasileiro, escolhido por três características
peculiares, descritas por seu compatriota e companheiro de delinqüência
César Quiroz, em entrevista a este jornal: a prosperidade da
economia (em comparação com a situação vigente nos países
vizinhos), as brechas para a impunidade nas leis e a ineficácia
da polícia.
-
Por mais preocupante que seja para todos os brasileiros o avanço
no País do crime, organizado ou não, não é certamente o caso
de reivindicar o empobrecimento da Nação como uma das condições
para o Brasil deixar de ser o paraíso de criminosos
latino-americanos, que também atuaram nos seqüestros do empresário
Abílio Diniz e do publicitário Luiz Sales. Quanto aos outros
dois vetores, aí, sim, alguma coisa precisa ser feita, e já! O
próprio presidente reclamou da insensibilidade do Congresso em
relação às brechas legais que favorecem as chicanas que mantêm
os bandidos soltos nas ruas. Mas Sua Excelência se esqueceu de
dois detalhes: o Executivo que ele chefia pode tomar a iniciativa
e até agora não o fez, a não ser de forma aleatória e
paliativa; e os crimes estão sendo cometidos menos por criminosos
que deixam de ser condenados pela Justiça, que incorrem em
delitos não tipificados pelo Congresso, do que por quem já foi
condenado, mas a autoridade não consegue manter isolado do convívio
social no sistema "queijo suíço" dos presídios
brasileiros.
-
Fernando Henrique também foi muito certeiro ao afastar essa
lorota de "crime político", dizendo que lugar de seqüestrador
é na cadeia, embora tenha omitido que ele próprio se empenhou
pessoalmente pela libertação inoportuna do casal de canadenses
que participou do seqüestro de Abílio Diniz, em 1989.
-
Seja como for, sua posição agora merece apoio, cabendo à polícia,
à Justiça e ao sistema penitenciário evitar que qualquer um dos
seqüestradores de Olivetto goze de liberdade.
-
Esse voto pode parecer óbvio, mas a experiência manda se
acautelar com uma espécie de "síndrome de Estocolmo"
(a atração patológica do torturado pelo torturador) coletiva de
que são acometidos os políticos brasileiros, particularmente os
de esquerda, principalmente quando os meliantes são velhos
companheiros de jornada. O eco encontrado na imprensa brasileira
pelas queixas da simpática professorinha Cecília Hernández
Norambuena, que desembarcou em São Paulo reclamando dos incômodos
a que o irmão Maurício estaria sendo submetido na Casa de Custódia
em Taubaté, mostra que os defeitos crônicos do infernal sistema
penitenciário brasileiro podem vir a ser usados como cavalo de
batalha para atenuar as punições que Norambuena tem de sofrer.
-
Ninguém quer que ele sofra o que Olivetto sofreu, mas é absurdo
compactuar com a campanha de relações públicas
para lhe garantir conforto e tranqüilidade que ele roubou
de um brasileiro por um punhado de dólares sujos.
-
x
José Nêumanne, jornalista e escritor, é
|