FERNANDO PEDREIRA

Subimos mais um degrau

Este foi o meu primeiro carnaval com Bárbara Bush, e espero que não tenha sido o último. Na condição de leitor atento das folhas e espectador eventual de noticiários televisivos, passei os quatro dias do tríduo (sic) momesco acompanhado pela senhora Bush, nomeada por diversos comentaristas "musa" do carnaval carioca. A senhora Bush tem um rosto tranqüilo, severo e simpático, que se diria menos maternal que avuncular. Na verdade, suas feições dignas e até aristocráticas têm traços que não se podem, a rigor, chamar de masculinos, mas que me lembraram a imagem de um outro presidente americano, dos tempos ainda da minha meninice, Franklin Delano Roosevelt, herói incomparável da guerra antinazista. A mãe do próprio Roosevelt se chamava Sarah e, ainda mais do que Bárbara, era uma aristocrata; seu reino situava-se em Hyde Park, às margens do Hudson, o rio de Nova York. Lá estão enterrados Roosevelt e sua mulher, Eleanor. Depois da morte do presidente, os vastos terrenos de Hyde Park foram doados pela família ao governo dos Estados Unidos.

Franklin Roosevelt aparecia nas fotografias e nos noticiários cinematográficos (não havia ainda, naquela época, televisão) sempre sorridente e com uma piteira entre os dedos. Nada que se compare ao ar em geral um tanto sombrio da senhora Bush. Também os tempos e a guerra que então se travava eram outros, mil vezes mais importantes e generosos, não só na esperança e na vitória, mas até no sofrimento e na dor. Ao lado de Franklin Roosevelt, os dois Bushes, pai e filho, parecem pigmeus, homenzinhos teimosos e desajeitados. E, no entanto, ao menos para mim, lá estão, nos retratos da mãe e esposa deles, os traços severos, dramáticos, que lembram Roosevelt. Enfim, talvez eu esteja precisando de óculos novos.

Não faltou, neste carnaval de 2002, quem rodasse a manivela do velho realejo; a festa de hoje já não tem o encanto, a alegria espontânea, o fervor popular de outros tempos. Brinca-se um pouco, ainda, entre as cadeiras da platéia, mas o espetáculo verdadeiro subiu para o palco; o carnaval de hoje é mais exibido que vivido; e diante dele nos sentimos todos, quando muito, convidados do camarote da Brahma. É uma festa que não se pode impunemente chamar de decadente, mas que se comercializou e mercantilizou pelo menos tanto quanto o próprio mundo. Até o gari que atirou o boné para a "musa" visitante, sem saber ainda muito bem quem era ela, espera agora pela sua recompensa; que há de vir.

Talvez tenha sido esse mesmo fenômeno que, ainda no século 19, Marx procurou definir ao falar de "alienação". Tanto quanto o futebol e os grandes esportes populares - o próprio tênis, o beisebol e o basquete nos Estados Unidos -, o carnaval "alieniza-se", torna-se uma espécie de festejo vicário que nos alegra e comove, e arrasta multidões atrás de si, embora sua verdade verdadeira se tenha transferido para uma outra esfera, dominada pelo metal sonante. Nos chamados países do Primeiro Mundo, os melhores clubes de futebol são comprados e vendidos no mercado de ações. Pertencem a grandes companhias ou, até, a grandes capitalistas individuais, excêntricos. É para onde vamos.

No desfile das escolas, na Sapucaí, este ano, concorriam ao primeiro prêmio patrocinadores diversos: ao lado dos tradicionais bicheiros e grandes traficantes, que dominam com mão de ferro a própria base material e popular das escolas, desta vez lá estavam a Varig e a TAM, e Estados da Federação.

Houve quem sugerisse que, no futuro, todas essas generosas contribuições sejam abertamente declaradas, para conhecimento geral. Mas como declarar um dinheiro que vem da contravenção e do crime; um poder que nasce não apenas da corrupção e da vaidade, mas do terror e da própria lei do cão? A não ser que se vire o mundo de trás para a frente, ou se rode ao contrário a bem conhecida roda da História, o carnaval não vai nunca voltar a ser popular e ingênuo, como nos tempos da bisavó; o que pode salvá-lo do atual "tempero" do bicho e do tráfico, ao contrário, é uma boa cura de capitalismo, que pode ainda custar a vir, mas está chegando: patrocinadores ricos, estimulados pela legislação a declarar suas doações para fins de Imposto de Renda.

É o progresso. O carnaval começou como uma festa religiosa, sincrética:Baco, antes das cinzas da Quaresma e da epifania da Páscoa. Passou, depois, a ser matéria de relações públicas e publicidade, e quase que já não era mais nada senão isso. Talvez agora tenha subido mais um degrau e passado, com dona Barbara Bush, à categoria diplomática. Ganhou asas o carnaval e, com ele, o Brasil. Como é mesmo que diz o samba da Beija-Flor? O próprio chanceler Schroeder, que chegou na quarta-feira, é ainda capaz de entrar no ritmo da nova política da boa vizinhança. Mas imaginem se a senhora Bush, ainda menina, podia sequer sonhar que um dia viria ao Rio e, menos ainda, à Marquês de Sapucaí. Sonharia, antes, com Paris e as Folies Bergères. Ou com o carnaval de Nice...

Fonte: O Estado de S. Paulo, domingo, 17 de fevereiro de 2002 - pág. 2