Nova associação deverá contrapor a influência política da Globo
Rompidas com Abert, redes de TV vão criar nova entidade
ELVIRA LOBATO
DA SUCURSAL DO RIO
As redes Record, Bandeirantes e SBT vão lançar uma nova entidade de classe de
âmbito nacional para se contrapor à influência política das Organizações
Globo dentro da Abert (Associação Brasileira de Radiodifusão).
A nova entidade deve ser anunciada dentro de 15 ou 20 dias, segundo afirmou à
Folha o vice-presidente executivo da Rede Bandeirantes, Antônio Teles.
Anteontem, as três redes tornaram pública sua divergência com o comando da
Abert. Com um seco comunicado publicado nos jornais, afirmaram que a associação
não está autorizada a representá-las ""em nenhum foro e sob
qualquer pretexto".
Segundo o SBT, o estopim para o rompimento público com a entidade foi uma
suposta negociação feita pela Abert para a aprovação da emenda
constitucional que permite a participação de capital estrangeiro em empresas
de comunicação.
De acordo com Luiz Eduardo Borgerth, consultor do SBT, a Abert teria negociado
com os partidos de oposição o apoio da entidade à instalação do Conselho de
Comunicação Social do Congresso (previsto ainda na Constituição de 1988), em
troca da aprovação da emenda em regime de urgência urgentíssima.
Segundo o consultor, a negociação era dispensável, porque a votação na Câmara
estava tranquila e a aprovação, garantida. Borgerth disse que o acordo teria
sido feito, de forma verbal, por Evandro Guimarães -vice-presidente das
Organizações Globo e da Abert- , sem consultar as demais redes de televisão.
Outro motivo de divergência, segundo Borgerth, foi a posição da Abert em relação
ao regulamento dos serviços de multimídia aprovado no ano passado pela Anatel
(Agência Nacional de Telecomunicações).
As televisões abertas foram contra o regulamento, por entenderem que ele
permite às empresas de internet atuarem em radiodifusão. De acordo com
Borgerth, a Abert não entrou com ação judicial contra o regulamento devido
aos interesses econômicos da Globo em telecomunicações.
Antônio Teles referiu-se à nota publicada pelas três redes como um
""imperativo antigo, que foi sendo relevado".
Assim como o SBT e a Record, a Band avalia que a Abert tem representado
majoritariamente os interesses da Rede Globo, que indicou dois dos 15
vice-presidentes da entidade: João Roberto Marinho e Evandro Guimarães.
"A Abert deve continuar representando os interesses da Globo, e nós
criaremos uma entidade bem simplificada, sem o aparato e a opulência da Abert,
para nos representar nos diálogos com a sociedade e com o poder público",
afirmou Teles. Segundo ele, a Bandeirantes já está fora da Abert há mais de
um ano.
A nova entidade tem até um nome provisório: União das Emissoras de Televisão
Brasileiras. Para a Bandeirantes e o SBT, suas afiliadas, que ainda participam
da Abert, deverão migrar para a nova entidade.
"Há uma regra básica de direito de que o acessório segue o
principal", afirmou Teles.
O vice-presidente corporativo da Rede Record, Roberto Franco, confirmou os
preparativos para a criação da nova entidade, mas disse que as afiliadas da
emissora não serão estimuladas a deixar a Abert. ""Elas têm
autonomia de decisão", afirmou.
Ele disse que a Record não vê o comunicado publicado nos jornais como uma
declaração de rompimento com a Abert.
""Nós temos consenso com a entidade em relação a alguns pontos,
como, por exemplo, a escolha técnica do padrão para a TV digital. A Record não
é inimiga da Abert, mas ela não nos representa e queremos deixar isso
claro", afirmou Franco.
Ele disse que a Record retirou-se da Abert há três anos, exatamente por não
se sentir representada. Na ocasião, ela criou uma associação chamada Abratel,
que, segundo Franco, será mantida.
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