COMPROMISSO OU CORPORATIVISMO
O
mundo moderno tem exigido dos gestores capacidade diferenciada na condução
dos processos organizacionais. Entre muitas outras posturas de gestão, a
sensibilidade de administrar coisas e governar pessoas, uma vez que podemos
definir o formato do arranjo dos recursos para gerar os melhores resultados,
mas esses resultados somente serão alcançados se conseguirmos conquistar as
atitudes das pessoas que integram as organizações, o que depende de nossa
capacidade de governança corporativa ou de gestor estadista, tanto na
iniciativa privada como e, principalmente, na gestão pública.
Esta
percepção é imposta pelos novos paradigmas do mercado que, depois do fenômeno
da globalização, mostra-se, absolutamente, intransigente com as pessoas e
com as organizações que, por maldade ou inocência, agem de forma
desvinculada dessa nova realidade.
Essa
realidade é tão patente que os cursos universitários de graduação e de pós-graduação,
especialmente, os MBA (Master in Business Administration) nas áreas de gestão
e negócios têm sido
considerados os mais importantes do mundo, neste momento histórico de
economia globalizada, tanto nos países ditos centrais como naqueles de
economia emergente.
Os
profissionais oriundos de áreas diferentes da área de negócios têm
procurado, intensamente, essa ampliação dos seus perfis profissionais já
que, quando saem das universidades, suas formações não alcançam a
habilidade de gestão organizacional, tampouco, a negocial, fato confirmado
por vários alunos que tive nos MBA’s que lecionei.
São
engenheiros, psicólogos, agrônomos, veterinários, médicos etc., buscando
essa formação na medida em que se percebem, tecnicamente, competentes, mas,
nitidamente, limitados para gerirem seus próprios negócios. Os médicos, por
exemplo, têm como objeto de estudo o organismo humano e todas as suas relações
internas e externas, o que não lhes garante o mesmo domínio sobre as
organizações e todas as suas variáveis de mercado, sociais e psicológicas.
O
desempenho dos ministros José Serra e Paulo Renato à frente dos Ministérios
da Saúde e Educação, respectivamente, mostra que a gestão da saúde e da
educação, por exemplo, não têm que ser entregues, necessariamente, a
profissionais dessas áreas de formação. Não foi com instrumentos cirúrgicos
que se enfrentou a indústria do fumo e se quebrou patentes de fabricantes de
medicamentos para o tratamento da AIDS, foi com capacidade de gestão. Não
foi com giz e quadro-negro que se iniciou a reformulação do sistema
educacional brasileiro e, sim, com capacidade de gestão.
Se
um médico cursar Administração Hospitalar ou um MBA em gestão empresarial
e demonstrar capacidade de governança corporativa, ninguém melhor indicado
para exercer um cargo de gestor numa instituição de saúde. Entretanto, é
preciso que fique claro que a gestão da saúde não se faz com o bisturi na mão.
São necessárias muitas habilidades que não constam das grades curriculares
dos cursos de medicina. Na verdade, a ingerência ocorre quando um médico se
arvora a ser administrador, mesmo que seja em uma instituição de saúde.
O
profissional de gestão em uma metalúrgica não tem que ser um metalúrgico,
tampouco saber montar um automóvel, ou em uma fabrica de automóveis não tem
que ser um engenheiro mecânico. Uma das primeiras habilidades do gestor é
formar sua equipe e, através dela, definir políticas, aplicar bem os
recursos e oferecer soluções à sua clientela.
A
recíproca é verdadeira. Se um médico assume a gestão de uma instituição,
mesmo que não seja de saúde, sua primeira preocupação é acercar-se de
profissionais de gestão na formação de sua equipe. Daí a reinvidicar
exclusividade nesses postos para profissionais formados na área de saúde é
inverter valores e colocar em questão a postura política desses dignos
profissionais que, certamente, se preocupam muito mais com os interesses da
sociedade do que com seus interesses localizados.
Este
artigo pretende oferecer pontos para reflexão sobre a polêmica gerada pela
nomeação de um engenheiro para a pasta de saúde do Município de Dourados,
sugerindo mais parcimônia na
defesa dos espaços de mercado evitando-se tanto a exposição de toda uma
categoria profissional, pela perspectiva do corporativismo como a
desestabilização do governo municipal o que não corresponde, absolutamente,
ao interesse da sociedade. Sucesso ao novo Secretário e saúde para Dourados.
É o que importa!
Fonte:
Jornal O Progresso – MS – Seção Variedades - pg.02 – 05/03/2002, por
José Manhães, professor universitário e consultor de empresas –
jmanhaes@enersulnet.com.br