As lições da crise dos CEOs americanos

Para presidente da Burson-Masteller, o Pais pode evitar erros administrativos dos EUA

Terciane Alves

Lesli Games-Ross diretora de pesquisa da Burson-Masteller , conceituada consultoria de comunicação  norte-americana, veio a publico na semana passada com um recado duro às corporações. “Os planos de salários de CEOs(os principais executivos da Companhia) devem ser mais realistas, pra ajudar a restabelecer a confiança nas empresas e superar o crescente negativismo em relação  aos comandos”, disse.

A mensagem veio após a divulgação do estudo das consultorias Burson-Masteller e Wirthlin Wordlwide(pesquisa de opinião) realizado no mercado americano durante o terceiro trimestre de 2002. Resultado: um bom CEO(presidente de empresa) vale, hoje, menos US$ 3milhões, ou exatos US$ 2.846.671,00, ente salário anual e bonificação . O estudo levou em conta a remuneração das maiores empresas dos Estados Unidos e verificou que o valor verdadeiro é muito menor que a média anual de US$ 11 milhões informada atualmente por empresas de grande porte.

Outra pergunta trouxe um dado inusitado. Em uma questão aberta, os executivos pesquisados disseram que a remuneração de um CEO deveria ser, no máximo 30 vezes o salário de um funcionário médio do mesmo setor.  Segundo o Instituto de Política econômica de Washington , em l965 os CEOS ganhavam 26 vezes o que ganhava um funcionário médio.

O norte-americano Ramiro Prudêncio, presidente da Burson no Brasil, disse ao O Estado que o estudo não só pode ajudar a historia do gerenciamento no País, como também antecipar uma discussão que poderia ser ainda mais forte no futuro, se não forem aproveitadas as lições  da crise de confiança no mercado americano. “Primeiramente, cada vez mais a sociedade civil cobra uma transformação  aos participantes da governança corporativa, com mais transparência”, disse.

Para o executivo, encarregado de traçar modelos de comunicação para os CEOs de organizações de vários paises do mundo, toda essa discussão de valores e ética dentro das organizações pode servir como uma lição antecipada ao Brasil, já que o modelo de uma economia voltada ao mercado de capitais vem crescendo.

“Lá (EUA),  mais da metade da população tem sua poupança ou previdência privada aplicada em ações. Quando uma empresa não tem base sólida, isso atinge muita gente. No Brasil, não é esse o caso, são poucos que investem em ações de empresas, mas acho que temos aqui uma lição de muita sensibilidade.”

Prudêncio antecipou ainda o resultado de uma pesquisa feita com CEOS de grandes empresas americanas. “Observamos que os executivos estão aplicando 50% do seu tempo em comunicação interna, mostrando aos seus funcionários o realinhamento dos negócios. Num momento de crise, o CEO tem de motivar sua equipe, que também pode estar com medo de perder o seu emprego”, relata.

O presidente da Burson, que vive no Brasil há quatro anos, diz que hoje em todo o mundo se discute o papel do CEO. “No período dos anos 90, existiu a sobrevalorização do papel do CEO, quando exigia-se que ele tivesse uma eficácia, precisava ser um visionário que conquistasse a confiança dos investidores, o que resultava em uma visão de curto prazo. Hoje, não se espera que esse visionário faça tudo sozinho. Com isso, a equipe diretiva, a governança corporativa, ganha importância”. Afirma.

Foi essa sobrevalorização desmedida, detalhou Prudêncio, que no passado permitiu no mercado americano a figura de uma governança fraca que, subjugada ao super CEO, ficava a mercê de um jogo pernicioso. “Havia casos de falta de independência. Os presidentes colocavam nos conselhos pessoas conhecidas, representantes de bancos credores da instituição, distribuía os poderes entre amigos. Era essa mesmo roda diretiva que decidia o pacote da remuneração do executivo”, lembrou o presidente da Burson.

Judi Mackey, também da B-M, chamou a atenção  das diretorias de grandes empresas as serem “mais vigilantes em relação aos planos de compensação, se pretendem ajustar-se aos verdadeiros padrões de boa administração corporativa.” A pesquisa Burson-Wirthlin trabalhou com 150 executivos(presidentes, vice-presidentes e diretores) de empresas que integram a lista Fortune das mil maiores companhias dos Estados Unidos. A maioria dos consultados(124) eram homens.

Fonte: Classificados-Empregos – O Estado de S. Paulo, Caderno Ce 7 , domingo, 1 de dezembro de 2002