Sabedoria Popular


Passei minha infância ouvindo ditados populares. Quem é caipira sabe o reflexo que isso tem na vida da gente. Um apego danado a estas frases feitas que tão bem resumem a sabedoria do povo. Os gurus do marketing que me perdoem, mas acho que elas são imbatíveis e na maioria das vezes ajudam mais que os tantos manuais da vida empresarial que existem por aí.
Outro dia recebi, via email, uma consulta a respeito da pesquisa em comunicação corporativa. Foi quando resolvi misturar alhos com bugalhos e selecionar alguns ditados para esclarecer minha opinião.

 
1. O pior surdo é o que não quer ouvir.
Desde que trabalho com pesquisa, há 7 anos, tenho freqüentemente encontrado profissionais de comunicação que pouco ou nunca realizam pesquisas. Me inquieta imaginar que muitas das decisões de comunicação nas empresas são baseadas em percepção e não em dados.
Os profissionais da comunicação corporativa estão menos familiarizados com as técnicas de pesquisa que seus colegas do marketing. Estes geralmente realizam sondagens para avaliar quaisquer mudanças no produto ou serviço da empresa.
No entanto, a pesquisa corporativa deveria ser prática comum. Pois o que pode ser mais importante para uma empresa que sua própria imagem junto aos diversos públicos?
 
2. Onde há fumaça, há fogo.
As corporações emitem sinais para clientes internos e externos, através de diferentes ferramentas: propaganda, relações com a imprensa, eventos, comunicação interna, programas culturais e sociais.
O mercado retribui a mensagem das mais diversas formas. Se repentinamente a mídia muda de comportamento em relação à empresa, é preciso identificar a razão. Se as queixas no SAC aumentam, é necessário estudar os motivos. Se há uma crise causada pela empresa, há que se verificar o seu impacto na imagem da corporação.
Muitas aplicações da pesquisa corporativa auxiliam os na tomada de decisões. Fique atento aos sinais de fumaça!
 
3. Quem procura, acha.
Essa é a essência da pesquisa: ir atrás da informação, coletar dados, sistematiza-los para que sejam analisados. As técnicas de pesquisa permitem identificar uma variedade enorme de quesitos da comunicação, tais como: eficiência dos meios, grau de satisfação, avaliações comparativas temporais, grau de uso de serviços, potencial de implantação de programas, grau de interesse em participar de projeto. Isso só para citar alguns.
 
4. Cada macaco no seu galho.
Você, caro leitor, já viu médico restaurando dentes? Ou um físico construindo viadutos? Uma fonoaudióloga fazendo fisioterapia? Pois bem.
Nós, profissionais de humanidades, temos o privilégio da versatilidade. Somos intuitivos, multidisciplinares e transitamos com desenvoltura ímpar em áreas tão variadas quanto jornalismo, recursos humanos, relações públicas, publicidade, psicologia, administração. Ousamos palpitar em quaisquer espaços que nos dêem voz.
Isso nos caracteriza como generalistas. Mas pesquisa é assunto que requer especialidade, domínio de certas técnicas, conhecimento de metodologias. Portanto, se precisar de pesquisa de comunicação ou de opinião, chame um profissional para discutir o assunto, informe-se sobre as técnicas possíveis, domine o vocabulário.
 
5. A pressa é inimiga da perfeição.
Pesquisa requer planejamento e, portanto, tempo. Existem algumas etapas a serem cumpridas, pois uma pesquisa mal feita é pior que nenhuma pesquisa, já que resultados distorcidos induzem a decisões erradas.
Não é possível chegar à aplicação dos questionários sem antes conhecer a população a ser pesquisada, selecionar adequadamente os métodos amostrais, montar os questionários e instrumentos de campo, pré-testar os questionários. Enfim, assegurar-se de que todos os cuidados foram tomados para que a pesquisa atenda aos objetivos pré-determinados.
É preciso investir tempo no planejamento para não sacrificar os resultados.
 
6. Quem tudo quer, nada tem.
Um dos fenômenos comuns na área de pesquisa é o “já que”. Já que vamos perguntar isto, que tal mais aquilo. Já que vamos medir a satisfação dos funcionários, porque não perguntamos sobre voluntariado? E, aproveitando o campo, por que não pesquisar também sobre o novo plano de saúde?... Isso não funciona!
Em pesquisa, como aliás em qualquer processo metodológico, é necessário definir um objetivo. Portanto, ao realizar o planejamento, feche o foco. Quanto mais dirigida e aprofundada for uma pesquisa, maior a probabilidade de ser bem sucedida.
 
7. Em terra de cego, quem tem um olho é rei.
Estudantes e profissionais de comunicação que adotarem pesquisa como prática de suas atividades de comunicação irão perceber que os dados fazem a diferença. Resultam em decisões mais seguras, projetos de comunicação mais consistentes e, principalmente, no desenvolvimento de uma atividade mais profissional.
É importante que se crie o hábito de trabalhar com pesquisas. É assim que se faz no marketing, na área financeira, na área de recursos humanos, na área de vendas. Não parece natural que se faça assim também na comunicação?
 
Agora, só para terminar, que meu estoque de ditados está chegando ao fim. Quero lembrar que este é o primeiro artigo da série “Catequese em Pesquisa” e todo mês você poderá encontrar, neste espaço, uma reflexão sobre o tema. Afinal, água mole em pedra dura tanto bate até que fura.
 

Suzel Figueiredo é pesquisadora, graduada em Relações Públicas pela FAAP, diretora da Ideafix Estudos Institucionais, consultora do CEPAC Pesquisa e Comunicação e coordenadora do Instituto ABERJE de Pesquisas.
(suzel.figueiredo@ideafix.com.br
Fonte: Site da Casper Libero www.casperlibero.com.br  dezembro de 2002