COMO
ENSINAR ÉTICA
Quando Joseph Wharton criou a primeira escola de negócios dos Estados Unidos, na Universidade da Pensilvânia, em 1881, fez da legislação de negócios uma das cinco disciplinas básicas de estudo. Mais de um século depois, o estudo das leis que regem as empresas deu passagem ao da ética corporativa.
Os estudantes de negócios, porém, não precisam estudar ética tanto como precisam conhecer as leis. Os escândalos na Enron e na WorldCom não aconteceram porque os executivos implicados não eram especialistas em ética. Nesses casos, houve sérias violações à lei. Pelo menos em parte, isso aconteceu porque os envolvidos não conheciam – inclusive não temiam – a lei. As escolas de negócios tiveram uma ponta de responsabilidade nesse desastre.
A legislação que regula a vida das empresas é hoje, de longe, bem mais complicada que a do século passado. A necessidade de os gerentes terem uma apreciação realista do entorno legal é mais importante que nunca. Algumas escolas ainda têm sólidos programas em legislação, mas a maioria passou grande parte das últimas décadas reduzindo e, aos poucos, eliminando os professores dessa área, enquanto outras disciplinas têm crescido em status e popularidade.
Como conseqüência, em muitas escolas os estudantes são formados por professores que vêem a lei como um estorvo. Tenho escutado de professores de finanças que as normas sobre informação privilegiada e divulgação da informação minam a eficiência dos mercados. Mestres de contabilidade têm me explicado que a exigência de separação entre auditoria e consultoria nas empresas de auditoria contábil é desnecessária, porque os contadores não arriscariam sua reputação. Não é de surpreender, portanto, que professores transmitam a seus alunos que a lei existe para ser manipulada ou desviada.
Muitos dos professores que ensinam leis em prestigiosas escolas de negócios sequer têm graduação acadêmica em legislação. Grande parte da pesquisa em finanças e economia está assentada sobre a frágil suposição de que o homem, racionalmente, busca sempre a maneira de aumentar seus lucros.
Isso não só é irreal como também leva a pensar que qualquer estratégia de negócios que não cumpra com esse princípio é suspeita. Esta é a mensagem que as escolas de negócios tendem a enviar e que companhias como Enron tendem a seguir.
Diversas escolas têm estabelecido centros de ética, mas já é muito difícil ensinar valores éticos aos estudantes universitários, mais ainda aos que estão nos programas MBA. Se eles não captaram o sentido do correto e incorreto em suas famílias ou em suas religiões, é improvável que um professor possa inculcar-lhes esses preceitos. Os cursos de ética podem ajudar a solucionar dilemas onde a lei não é clara, mas o problema reaparece quando se trabalha nas empresas que valorizam os resultados acima da honestidade.
Esse é o momento para dar ênfase às leis nos currículos das escolas de negócios. As pessoas se esquecem de que o capitalismo foi salvo de seus próprios excessos pela lei de valores aprovada nos anos 30. Recentes estudos mostram que os países com sólidos sistemas judiciais e rigorosas leis financeiras permitem a suas companhias arrecadar dinheiro mais rapidamente e seus mercados são mais eficientes. As companhias que atuam de forma legítima querem leis que exijam transparência e que castiguem as empresas fraudulentas.
Os professores de escolas de negócios deveriam explicar a seus estudantes que as exigências legais não são opcionais. Estes requisitos permitem o funcionamento do nosso sistema de livre empresa e sua desobediência acarreta tanto custos pessoais como sociais. Eu e meus colegas devemos contar esta história com mais força que no passado. Para que isso seja feito, no entanto, precisamos de mais e melhores espaços para o debate sobre o tema nas escolas dos Estados Unidos.
Fonte:
Revista América-Economia, Seção Especial, pg.52, 13/12/2002, por
Robert Prentice, professor de legislação de negócios na McCombs
School of Business, da Universidade do Texas em Austin. Esta coluna foi
publicada originalmente no The New York Times.