A POSSE DO PRESIDENTE
      
   
Gilda Fleury Meirelles  
Para um Presidente que sempre disse que não gostava de protocolo, o Presidente Lula saiu ileso da cerimônia de sua posse.
 
Falhas? Quem trabalha com eventos sabe das variáveis que acontecem nessas ocasiões, principalmente se o acontecimento envolve multidão de pessoas. Existe uma grande diferença entre trabalhar com público, multidão e massa. Enquanto o público envolve um grupo de pessoas com características iguais, com pensamentos semelhantes, facilitando a realização da interlocução, do debate, baseado nas opiniões e controvérsias, a multidão reúne grande número de pessoas, com características totalmente diversas, tanto de região geográfica em que habitam, como sócio-econômica e etária. Desse grupo, totalmente diverso em sua essência, pode-se esperar tudo ou nada.
 
Daí a dificuldade do trabalho da segurança de autoridades, praticamente apedrejada pelos críticos desse evento. Repito falha? Existiram, sim; mas motivadas pela dificuldade de se controlar uma multidão dominada pela emoção e incentivada pela afirmação do Presidente de que gostaria de estar sempre junto ao povo. Entenderam a frase no seu sentido mais amplo e isso gerou os abraços, corridas, gritos, rompimento de barreiras, enfim todo o tumulto.
 
Para se fazer uma análise sobre o cerimonial da posse, é necessário dividir a cerimônia em dois tempos: a solene e a festa popular.
 
Na primeira fase, o Presidente Lula estava ciente da importância da solenidade, do significado de cada ato, que foi iniciada duas semanas antes, no TSE - Tribunal Superior Eleitoral, com a cerimônia de diplomação.
 
No Congresso Nacional, tudo correu de acordo com o cerimonial, com o juramento protocolar e discursos emocionados e firmes, tanto do novo Presidente como do Presidente do Senado.
 
A Primeira Dama, que nesta gestão parece que fará um papel mais presente, participando de reuniões preliminares e até da primeira reunião ministerial - antes da posse - também adotou uma posição discreta, desempenhando sua função e desfilando junto ao Presidente, quando a situação assim o exigia.
 
Percebia-se visivelmente a preocupação do Presidente Lula com sua posição, a forma de cumprimento, de desfile, de agradecimento, somada a uma ponta de informalidade, como quando, sem cerimônia, questiona o Assessor do Cerimonial sobre o que fazer e qual o seu lugar no veículo presidencial.
 
Essa ponta de informalidade, característica do Presidente Lula, vamos sentir novamente no momento da transmissão de cargo no parlatório, quando acidentalmente derruba os óculos do Presidente Fernando Henrique e abaixa-se rapidamente para pegá-lo. Mas, a solenidade foi perfeita, podemos dizer até humana com sua dose de emoção, que falta aos atos protocolares.
 
A sessão de cumprimentos e a posse de Ministros são solenidades formais e protocolares, que correram perfeitamente bem. O Presidente Lula, em alguns momentos, de forma efusiva e descontraída, cumprimentou antigos e novos Ministros, dando seu toque pessoal e humano, sem contudo, ferir o protocolo.
 
A segunda parte - a festa popular - não pode ser analisada protocolarmente. Embora envolva o cerimonial, a segurança, institucionais à função do Presidente da República, mostram somente uma nova fase na relação poder / povo, com um Presidente querendo ficar ao lado de seus eleitores, querendo participar intensamente da grande emoção popular.
 
Esse sentimento foi lindo, germinou em todos nós aquele sentimento de Pátria, de amor, de querer vencer e ir para frente, que somente os grandes líderes têm capacidade de despertar.
 
Lula tem esse dom; enquanto o Presidente Fernando Henrique falava, a multidão o aplaudia, era o grande tribuno, o perfeito e correto representante do Brasil. Entretanto, quando Lula fala, a multidão o segue.
 
Esse dom é de poucos, mas nada tem de protocolo; é a festa das multidões.
 
É a festa de quem chegou lá.
Fonte: maxpress, janeiro de 2003   www.maxpress.com.br