| O verdadeiro teste
do mercado |
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Tão importante quanto combater a miséria é
evitar o recuo no consumo |
Por Nelson Blecher |
O grande e definitivo teste para o
governo que se inicia será dado pelo mercado,
literalmente. Não se trata daquele ser indefinido e sem
rosto, por vezes acusado de conspirar contra a moeda
nacional. É mercado na acepção do termo. Significa a
capacidade de, por um lado, elevar da linha da pobreza
extrema os brasileiros ainda não integrados ao sistema
de consumo. E, de outro, assegurar que outros milhões
de cidadãos da baixa renda, que o Plano Real graduou
como consumidores regulares, assim permaneçam, e cada
vez mais afluentes. Isso só se consegue com a manutenção
da estabilidade, uma vez que a inflação é um câncer
que corrói o bolso dos mais fracos. O mais recente
censo industrial do IBGE aponta um salto qualitativo na
lista dos principais produtos: automóvel, eletrodomésticos,
cerveja e suco de laranja à frente, em vez de
commodities como algodão e café torrado, que lideravam
a lista de 20 anos atrás. Mesmo considerando os tropeços
do Plano Real, o que se observa é uma evolução
qualitativa do portfólio de produtos. Entre 1995 e
2001, como aponta uma pesquisa do instituto LatinPanel
em 6 000 domicílios, itens que não pertencem
exatamente à cesta básica foram os que mais cresceram:
amaciante (149%), petit suisse (73%), requeijão (58%) e
até detergente líquido para louça (57%). (Ao
exemplificar os rumos dos investimentos do BNDES, seu
virtual presidente, o economista Carlos Lessa, disse que
"para acabar com a fome, produzir alimentos, é
preciso criar uma indústria de alimentos". Exemplo
infeliz: foi a indústria nacional que mais proliferou e
cresceu em anos recentes vendendo barato e dando um
baile nas marcas multinacionais.)
Note que o avanço da baixa renda no mercado de consumo
não se restringe aos produtos rotineiros. Segundo o
IBGE, o número de moradias com geladeira e máquina de
lavar cresceu 4,4% ao ano, de 1999 a 2001. Em uma década,
as classes C e D passaram a responder por 57% das vendas
de medicamentos, 45% do vestuário, 48% dos eletrodomésticos
e 51% dos celulares. Por isso, tão importante quanto o
fim da miséria é possibilitar que a classe C (renda
familiar de quatro a dez salários mínimos), tida como
a classe média da baixa renda, continue a progredir. O
retrocesso no consumo seria um paradoxo sob um governo
de coloração e apelo social. Para além dos números,
há outro indicador de amadurecimento. É o que revela a
influência dos valores de cidadania no comportamento do
consumidor. Um levantamento do instituto AC Nielsen
mostrou que brasileiros, em maior número do que
argentinos, chilenos e mexicanos, consideram quesitos
como prazo de validade e valor nutricional do produto,
comparam preços e são atraídos por ofertas.
A boa notícia é que dificilmente deverá se repetir
uma estratégia recorrente do ciclo inflacionário: para
compensar a queda nos volumes, as indústrias
reajustavam seus preços a fim de garantir a
rentabilidade. "É consenso entre os varejistas que
a partir de fevereiro ou março haverá queda na inflação",
afirma o economista Nelson Barrizzelli. "Os preços
ficaram completamente soltos, mas não há poder
aquisitivo que sustente o repasse feito nos últimos
meses." Não faltam condições para tanto: há
mais concorrência (as três principais marcas de cada
prateleira perderam mercado e a condição de
exclusividade) e os consumidores estão atentos.
Enquanto aguardam o prometido crescimento econômico, os
planejadores interessados em que suas empresas cresçam
terão de perseguir as nuances do real mercado
brasileiro. Com preços acessíveis, produtos de valor
reconhecido pelo consumidor, novos formatos e opções,
além de forte atividade promocional. Será essa a
arquitetura de mercado, moldada pelo Plano Real, que
deverá consolidar-se nos próximos anos.
Fonte: Exame/15 de
janeiro de 2003 pag. 93 www.exame.com.br
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