| Risco zero nas
resoluções de ano-novo |
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Prometa pouco a si mesmo e depois se elogie por
ter feito mais |
Por Max Gehringer |
"Adeus, ano velho! / Feliz
ano-novo! / Muito dinheiro no bolso!/Saúde pra dar e
vender!" Essas frases vêm sendo cantadas, fim de
ano após fim de ano, desde o longínquo 1951. Elas
fazem parte do que a gente poderia chamar de Hino
Nacional do Otimismo Brasileiro: a canção Fim de Ano,
composta pelo cantor Francisco Alves, o Chico Viola, com
letra do jornalista David Nasser, da extinta revista
Manchete. Obviamente, quem está na faixa dos 20 deve
estar se perguntando, pela ordem: a. quem é essa gente?
b. que raio de música é essa? e c. naquele tempo, as
pessoas falavam, mesmo, coisas como "longínquo"?
Pois é, falavam. Os tempos eram outros. Tão outros
que, em 1951 ainda não constava nos dicionários o
termo "executivo", que só entraria na moda
ali pela década de 1970. Mas há uma tradição daquela
época que ainda não criou mofo: as pessoas
aproveitarem a virada da última página do calendário
para ficar prometendo fazer isso e aquilo no ano
seguinte, algo tecnicamente conhecido como "Resoluções
de ano-novo". E executivos, claro, não são exceção
à regra, embora há muito tenham trocado o arcaico
"resoluções" por termos como
"objetivos", "metas" ou "targets"
(sendo que este último só pode ser usado por quem tem
MBA).
Qualquer profissional bem-intencionado que faça um
balanço sincero de tudo o que prometeu para si mesmo,
ou para seus entes queridos, nos últimos cinco anos há
de convir que, se a vida fosse uma empresa, ele já
teria sido dispensado por negligência. E essa situação
gera um sentimento pessoal de culpa que só é aplacado
um pouco no fim do ano seguinte, quando todo mundo sai
prometendo, de novo, as mesmas coisas. O que muda é o
uso cada vez mais incisivo dos advérbios que acompanham
as promessas:
-- Este ano, eu vou parar de fumar. Definitivamente!
-- Você não falou a mesma coisa no ano passado?
-- Claro que não. No ano passado, eu disse
"categoricamente".
Uma coisa muito importante que a gente aprende nas
empresas sobre "objetivos de curto prazo" é
que eles devem sempre levar em conta a conjuntura,
palavra cujo significado é "fatores externos que
possam levar a culpa, caso algo dê errado". Tipo
assim a economia, os concorrentes camicases, a
insensibilidade dos fornecedores ou a ingratidão dos
clientes. Como nada disso se aplica às resoluções
pessoais, o importante é não criar armadilhas para si
mesmo e estabelecer metas profissionais factíveis. Por
exemplo:
Vou trabalhar um mínimo de 13 horas diárias. Com
um pouco de esforço, quem sabe, até um pouquinho mais.
Incluindo os sábados. Porque empresa é empresa, e lar
é lar. Quer dizer, na empresa não há crianças
pentelhando, pode-se ler o jornal em paz, acessar a
internet o dia inteiro e tomar café a qualquer hora. E
tudo de graça. E -- melhor ainda -- sendo pago para
fazer tudo isso!
Vou ficar estressado pelo menos uma vez por dia. Estresse
é bom. Porque gera adrenalina, um hormônio que acelera
o organismo, estimulando a disposição física e
mental, e forçando a ação posterior da dopamina, que
provoca uma relaxante reação de tranqüilidade e
bem-estar.
Vou permanecer neste emprego. Sei lá por que,
mas ano após ano eu tento me convencer de que, a partir
da noite de 2 de janeiro, todos os headhunters vão começar
a sonhar comigo. Na verdade, a primeira resolução de
ano-novo de um headhunter que se preze é "prometo
delegar a minha secretária a agradável tarefa de
informar a quem ligar que eu não estou no momento. Nem
neste momento nem em nenhum outro". Além disso,
emprego novo tem aquela coisa horrível de ter de provar
tudo novamente para um monte de gente.
Não vou sair de férias. Além de ser um
sugadouro de recursos financeiros, férias são um
enorme risco para a carreira. Porque é na ausência do
funcionário que seu trabalho é realmente avaliado.
Erros que antes não apareciam, de repente aparecem.
Invejosos pululam de dentro das gavetas. Críticas
surgem de todos os lados e o coitado, em vez de estar
ali para se defender, está torrando ao sol em alguma
praia superlotada e poluída. Por isso, se a empresa
insistir muito, eu até tiro férias. Mas aqui, na minha
mesa.
Não vou dizer o que estou pensando. Sabe aquele
desejo que todo funcionário tem de querer resolver
sozinho todos os problemas da empresa? Propor soluções
radicais? Confrontar os incompetentes? E que ele vai
adiando, tentando encontrar coragem e prometendo a si
mesmo, todas as noites, antes de ter insônia, que amanhã
cedo tudo será diferente? Pois é, eu também tenho.
Mas este ano eu já me prometi: vou parar de pensar
nessas bobagens e elogiar tudo o que a Alta Direção
faz. Porque meus amigos que foram despedidos
recentemente tinham uma característica em comum: eles
falavam. O único da nossa turma que continua firme em
seu emprego -- e foi até promovido em 2002 -- é o
Etevaldo, vulgo "Mudinho".
Vou conservar meus quilinhos a mais. O que
aconteceu com a sabedoria das mães de outrora, que
diziam que "gordura é sinal de saúde"? De
repente, nos tornamos escravos de uma estética corporal
que está a um passo da anorexia. Por causa disso, todo
mundo que nem gordo é acaba sendo injustamente
classificado como "acima do peso". Segundo as
últimas estatísticas, 68% dos executivos estão nessa
condição. Portanto, viva a maioria! Sucumbir à
ditadura da fita métrica significa abandonar o segundo
maior prazer da vida (o primeiro, claro, é trabalhar
nesta empresa) em troca de um elogio extemporâneo e dúbio,
do tipo "Você emagreceu, né?". E quem
acredita que uma frase dessas possa dar mais satisfação
que uma boa macarronada merece viver em estado de inanição
permanente.
Pronto, agora é só assinar embaixo e passar 12 meses
tranqüilo. Porque tudo isso satisfaz a regra número 1
do estabelecimento de objetivos profissionais:
"Prometa pouco e você será elogiado por ter feito
mais. Prometa muito e você será criticado pelo que não
fez".
Fonte: Exame/15 de janeiro
de 2003 pág.
94 e 95 www.exame.com.br
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