COMUNICAÇÃO
NA ERA LU
A
capacidade de mobilizar apoios é um dado definitivo
Roberto Simonsen e Euvaldo Lodi, pioneiros da nossa industrialização, fortaleceram a Confederação Nacional da Indústria (CNI) e a Federação das Indústrias no Estado de São Paulo (Fiesp) graças à facilidade de acesso ao Palácio do Catete nos idos da era Vargas. Eram íntimos do poder. No ciclo militar, a mesma receita foi posta em prática e, quando os ventos sopravam em direção contrária aos interesses do empresariado, entravam em cena as entidades de classe.
Era um mundo fechado mas simples, onde o relacionamento pessoal, como na era Vargas, representava uma espécie de senha mágica para o diálogo com o poder. Hoje, não é mais assim. O acesso pessoal continua sendo importante, mas a imagem das entidades e a sua capacidade de mobilizar apoios na mídia tornaram-se um paradigma definitivo.
No próximo governo, os predicados da imagem e da capacidade de comunicação se tornarão ainda mais relevantes. A época do acesso direto e pessoal ao poder começou a declinar após o impeachment de Collor e chega ao fim agora com a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva.
Os anos anteriores foram de perda gradativa da influência das entidades de classe porque poucas conseguiram transitar do conceito de acesso ao conceito de comunicação continuada. Um exemplo positivo se deu por ocasião da Constituinte, quando a Confederação Nacional da Indústria, com o decisivo apoio da mídia, conseguiu evitar que os recursos do sistema Sesc/Senai passassem a ser controlados pelo Estado. Escudada por um vultoso abaixo-assinado, logrou rechaçar a emenda estatizante.
Na era Lula, as ações de comunicação por parte das entidades de classe terão que ser mais eficazes e continuadas. Não que o governo esteja planejando abocanhar verbas hoje administradas pelo setor privado. O desafio é de outra natureza. Lula terá necessariamente que definir quem ganha e quem perde no jogo das reformas que pretende realizar. Isto porque os recursos são escassos e as demandas crescentes.
Certas perdas serão inevitáveis, mas a firme vontade de participação do empresariado poderá influir, e muito, no equilíbrio da repartição de verbas, ou em decisões como a reforma tributária, o combate à sonegação de impostos, os financiamentos de longo prazo, o aumento do salário mínimo e a queda das taxas de juros. O ambiente democrático hoje prevalecente favorece uma revitalização das entidades empresariais e pode garantir decisiva participação da retomada do desenvolvimento.
O PT tem sido um partido muito hábil no sentido de evitar antagonismos desnecessários. E vive autêntica lua-de-mel com o empresariado. A questão é saber se o empresariado está preparado para comunicar ao futuro governo as suas expectativas e demandas, buscando o alicerce da opinião pública no momento em que precisar defender suas teses.
Este o desafio do presente. Ampliar a política de comunicação das entidades empresariais, combinando o acesso à cúpula governamental, indispensável para o saudável relacionamento, com iniciativas que venham a integrá-los no processo político. Vai ser um trabalho lento e complexo. Na realidade, os tempos de ação estão apenas começando.
Fonte:
Jornal Gazeta Mercantil, Seção Opinião - pg. A-3, 0312/2002, por Mário S.Viana, sócio-gerente da Allcomm Partners
Comunicação Integrada.