Diplomas misto-quente
MARIANA SGARIONI
free-lance para a Folha de S.Paulo
A oportunidade de estudar no
exterior, ainda na graduação, é pouco conhecida pelos alunos,
apesar de bastante difundida nas universidades brasileiras. O sistema,
conhecido como programa "sanduíche" ou de intercâmbio,
permite que o aluno frequente parte do curso em uma universidade no
exterior e tenha os créditos aproveitados na sua faculdade. Alguns
cursos podem até oferecer duplo diploma, como o de relações
internacionais na PUC-SP.
"Tive contato com matérias que não constam na grade
brasileira", conta Daniel de Mattos Hoffling, 29, que fez
economia, parte na Unicamp, parte na Universidade Bocconi, em Milão.
"Tenho certeza de que minha formação ficou mais
abrangente." Para chegar lá, ele agiu por conta própria.
Escolheu a Itália e pesquisou, com a ajuda de professores, a melhor
faculdade de economia do país. A Bocconi foi selecionada por causa do
prestígio, por permitir ao aluno estrangeiro cursar quantas
disciplinas quiser e pelo preço: US$ 800 por um ano de curso (sem
incluir despesas com acomodação ou alimentação). Na volta, parte
dos créditos foram aceitos pela Unicamp.
Assim como Hoffling, os estudantes que estiverem interessados nesses
programas devem se preparar desde o início da faculdade. Boas notas,
fluência no idioma do país escolhido e ter cursado pelo menos 20%
dos créditos são algumas das exigências.
Uma dica do departamento de assuntos internacionais da UFRGS
(Universidade Federal do Rio Grande do Sul) é procurar conselhos acadêmicos
de professores e pesquisar a universidade que pretende frequentar.
Assuntos internacionais, cooperação internacional ou relações
internacionais são os diversos nomes dos departamentos que cuidam
desse tipo de programas de intercâmbio. Quem quiser participar deve
procurar materiais de consulta e editais do departamento na própria
faculdade.
A demanda dos alunos por programas de abrangência internacional não
pára de crescer no mundo inteiro. Nos EUA, a cada ano, cerca de 155
mil estudantes viajam para outros países em busca de um complemento
curricular em seu curso de graduação. No Brasil, não há um órgão
que centralize esse número, uma vez que os acordos partem diretamente
de cada universidade. O Faubai (Forum das Assessorias das
Universidades Brasileiras para Assuntos Internacionais) conta hoje com
120 universidades filiadas —todas com programas de intercâmbio e
aproveitamento de créditos.
De acordo com Thymothy Dennis Ireland, presidente do Faubai, a maioria
dos brasileiros opta por faculdades na Europa, nos Estados Unidos e no
Canadá. Os cursos mais procurados são relações internacionais,
direito e comércio internacional, idiomas, engenharia, computação,
política e ciências do ambiente. Áreas ligadas às artes, como moda
e design, também estão em crescimento.
Além de estudar, muitos países, como os do Reino Unido, permitem que
os alunos de programas "sanduíche" também façam estágios.
"O estudante não perde nem um minuto. Enriquece seu currículo
acadêmico, pessoal e profissional", afirma Isobel Oliveira,
gerente de marketing do Conselho Britânico.
A estudante de direito da USP Simone Galvão de Oliveira, 23, ganhou
uma bolsa de estudos e fez quatro matérias na Universidade de
Westminster, em Londres. O valor da bolsa foi de US$ 10 mil e incluiu,
além da mensalidade, a acomodação por quatro meses e meio. Oliveira
acabou não pedindo a equivalência de créditos. Por isso, precisou
recuperar o tempo na volta e frequentar mais um semestre de aulas,
adiando sua formatura. "A experiência pessoal que adquiri foi tão
valiosa quanto a acadêmica."
A professora e diretora de relações internacionais da UFMG
(Universidade Federal de Minas Gerais), Sandra Regina Goulart de
Almeida, concorda. "O aluno não perde nunca", afirma.
"Em um mundo com distâncias cada vez mais curtas, aquele que
vivenciou essa experiência se sente mais seguro, maduro e aberto a
novas informações. Sem dúvida, ele será diferente dos
outros."
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Fonte: Folha online. janeiro de 2003