A roupa certa no lugar certo
faz muita diferença na vida
profissional. Como saber
o que usar? Olhe para o chefe

Tatiana Schibuola

Uma pessoa se veste bem. Outra se veste mal. Qual terá mais chance de subir na carreira? Por mais que a aparência não seja tudo, ela é, sim, um aspecto importante na hora de arranjar emprego e de ser promovido até chegar, enfim, à cobiçada cadeira do chefe – quando quem tanto perseguiu um padrão adequado pode ser, ele mesmo, o modelo em que o escritório inteiro se espelha. "A roupa não faz o homem nem a mulher. Mas ajuda a fazer uma carreira", resumiu a revista americana New York, em reportagem recente sobre o estilo dos que labutam nas estações de trabalho mais cobiçadas da cidade.

Aparentemente, a missão de se vestir "certo" para o trabalho tornou-se muito mais simples nos últimos tempos, quando tudo ficou permitido, do jeans rasgado à tatuagem. Nada mais longe da realidade do bem-vestir profissional. VEJA visitou cinco escritórios onde trabalham profissionais bem-sucedidos, de áreas diferentes: um escritório de advocacia, outro de arquitetura, uma gravadora, uma empresa de cosméticos e um banco. Em todos, o formal continua formal, e o informal também tem suas regras. Executivos de bancos e advogadas continuam a usar ternos e tailleurs, empresárias de destaque são o epítome do clássico chique, os tênis e camisetas dos arquitetos passam muito longe da vestimenta preferencial do recente Fórum Social de Porto Alegre. Até a tribo dos modernos tem lá seus critérios. Conclusão a ser sempre lembrada: ganha pontos no plano de carreira quem entende o modo de se apresentar em seu ambiente de trabalho e sobressai quem tem segurança para acrescentar um toque de estilo. As dicas e os comentários dos profissionais retratados nesta reportagem podem ser valiosos.

 

ESCRITÓRIO DE ADVOCACIA

Advogados são ultraformais, na maneira de se dirigir aos colegas, de escrever uma peça de defesa e, claro, de se vestir. "A apresentação conta muito na hora de montar minha equipe", diz a advogada Renata di Pierro, que exala poder em cada centímetro. "Meus funcionários levam a minha imagem até os clientes." Vaidosa assumida, Renata tem 150 pares de sapato de salto alto e bico fino. Seu sócio, Alberto Barbour, é capaz de passar horas falando de seus ternos sob medida de tropical inglês, aquela lã fininha, própria para o calor.

 
Fotos Pedro Rubens

• Daniela Hristov, 22, estagiária
"A gente chega ao 1º ano da faculdade e já vê todo mundo se produzindo para o trabalho. Não dá para ser diferente."
Caio de Oliveira Neto, 20, estagiário
"Estar bem-vestido é pré-requisito no meio jurídico. Um advogado pouco conhecido precisa se esforçar ainda mais."
Mariana Ponte, 29, advogada
"O cuidado com as roupas e o visual acaba se tornando uma das nossas armas na hora de conquistar clientes."
Mario Francisco di Pierro Neto, 17, office-boy
"Tem muito office-boy que anda largadão, de calça velha e camiseta. Eu, não, sou exceção mesmo."
Renata di Pierro, 43, sócia-diretora
"Atender cliente mascando chiclete é o mesmo que ir ao médico e ele fumar no consultório."
Alberto Barbour, 45, sócio-diretor
"Minhas gravatas são fruto de um trabalho de garimpo. São alegres, para contrastar com a sobriedade do terno."
Mariana Arruda, 19, secretária
"Aqui todo mundo tem de ser disciplinado, formal, tratar de doutor e doutora. A roupa entra nesse universo."

 
1. TERNO, CAMISA, GRAVATA
Sempre em cores escuras, os ternos só aceitam padronagens sóbrias, como a risca de giz. A camisa deve ser da melhor qualidade possível – e mais um pouco.
2. PASTA DE COURO
Acessório absolutamente indispensável. Precisa ser grande, para caber os processos sem amassá-los. E chique.
3. SAPATO INGLÊS
A regra é bem simples: desista de inovar e use exatamente aquele modelo clássico que todo homem deveria usar.

 

EMPRESA DE LUXO

Lidar com marcas como Chanel e Clinique exige uma certa identificação com o meio. Cristiana Arcangeli, desde 1986 no ramo da indústria cosmética, mantém-se impecável do começo ao fim do expediente: depois de mil compromissos, a roupa está perfeita, o cabelo, arrumado, a maquiagem, retocada. Seu escritório é uma troca constante de informações úteis. "Quando fiquei grávida, Cristiana me ensinou a continuar comprando as roupas de sempre, mas um número maior", conta a diretora Viviane Simões.

 
Cristiana Arcangeli, 41, presidente
"Normalmente, o chefe puxa o trem. O estilo dele influencia o dos outros. Já reparei isso em diversas empresas."
Viviane Simões, 34, diretora de importados
"Na entrevista, o que me incomoda é o candidato de cabelo sujo, de unhas malcuidadas. Mulher é pior: roupa feminina dá muita margem a erro."
Patrícia Silveira, 33, secretária
"Quem trabalha em uma empresa de produtos de beleza precisa dar o exemplo. Não que isso seja sacrifício para mim. Adoro me cuidar."

 

1. TERNINHO
Impossível passar sem ele. Compre o mais caro que sua carteira permitir. Investimento de retorno garantido no dia-a-dia, em viagens e reuniões com clientes.

2. BOLSA GRANDE
Fundamental é 1) ter espaço para caber agenda, nécessaire, carteira, celular, óculos; 2) ter grife cara.
BATOM
É como cabelo liso: obrigatório. Viviane, que também usa base, lápis e rímel, ensina: "Tem de reaplicar o tempo todo".

 

 

GRAVADORA

Quem sonha com um lugar de trabalho onde ninguém liga a mínima para a maneira de vestir pode esquecer – esse lugar não existe. Mesmo num ambiente moderníssimo como a gravadora Trama, regras existem. É verdade que elas são muito próprias. Exemplo: originalidade é aceita e até estimulada. Arroubos de ousadia também. "Acho muito louco imaginar que alguéam passe a maior parte do tempo vestindo algo com que não se sinta bem", diz o chefe, João Marcelo Bôscoli. Mas o que seria do conforto sem um anel de caveira?

 

João Marcello Bôscoli, 32, presidente
"Não julgo pela aparência porque posso estar diante de uma pessoa que ainda não descobriu seu jeito. Mas roupa e estilo não são fatores desprezíveis."
Carlos Eduardo Miranda, 40, diretor de conteúdo do site
"Uso qualquer roupa em qualquer lugar. Compro sandália e tênis nos bairros da periferia. Faço coleção de correntes e anéis de caveira."
Claudia Lima, 32, redatora-chefe do site
"Já trabalhei em um escritório onde todas as mulheres vestiam terninho. Mas eu nunca cedi. Era conhecida como a diferente."
Emanuela Carvalho, 31, diretora de moda e imagem
"É um desafio trabalhar aqui, em um ambiente cheio de artistas, onde a maioria das pessoas faz até questão de parecer diferente."
Fábio Luiz, 27, assistente artístico
"Considero um privilégio trabalhar em um lugar em que os códigos e o gosto de cada um para se vestir são respeitados."

 
1. TÊNIS
Primeiro passo: olhe os modelos que os homens usam para ir ao shopping com os filhos. Segundo: não compre absolutamente nada parecido.
2. ÓCULOS ESCUROS TIPO MÁSCARA
Cobre boa parte do rosto e lembra o estilo disco dos anos 80. Moços e moças não saem de casa sem eles.

3. CALÇA CARGO
De algodão ou jeans, bem largas, são o uniforme dos rapazes. Quanto mais bolsos, enormes, melhor. Dá para guardar o celular e o que mais houver.

 

ESCRITÓRIO DE ARQUITETURA

O arquiteto Arthur de Mattos Casas não esconde o jogo. "Tenho um closet imenso", orgulha-se. Já teve a fase do preto absoluto, mas agora voltou a experimentar as cores. Tudo despojado, moderno, cool – como convém a arquitetos. "Não poderia trabalhar de terno e gravata. A camisa ficaria toda amassada e manchada cada vez que me debruçasse sobre a prancheta." Detalhe: em seu escritório, é o único que ainda desenha a mão. De mudança, encomendou a Alexandre Herchcovitch os uniformes para a turma da recepção.

 
Arthur de Mattos Casas, 42, dono
"Gosto de moda, mas já não arrisco muito. Depois dos 30, a gente sabe o que fica bem e o que não fica, e o estilo se torna mais definido."
Alessandra Schloesser, 29, arquiteta
"O estilo do chefe influencia muito o ambiente de trabalho. Se o Arthur não usasse tênis, ninguém usaria."
Juliana Garcia, 30, arquiteta
"Arquitetos mexem com arte, estilo. A gente usa roupa básica, mas procura um detalhe que a torne diferente."
Juana Martinez, 26, designer
"Roupa é cartão de visita. Em reunião com cliente, caprichamos mais. Mas nada que chame a atenção."
Lorenz Ackermann, 32, arquiteto
"O preto é o uniforme do arquiteto. Aliás, é uniforme do mundo dos artistas. Jean-Paul Sartre vivia de preto."

 

 
1. CAMISETA
Da Hering branca à pólo de tricô, vale tudo para não usar camisa, que lembra terno (socorro!).
2. RELÓGIO ESPORTIVO
De grife, com o melhor design do mercado, mas sem exagerar no modelão. "Desisti do Rolex. Já me roubaram três", diz Casas.

3. BOLSA CARTEIRO
Mochila é informal demais. Perfeita é a bolsa copiada da que usam os carteiros de Nova York.

 

 

BANCO

Um banqueiro paulista já disse que seus funcionários tinham de se vestir de modo absolutamente impecável para lidar com o que "o ser humano tem de mais sagrado: o dinheiro". Mesmo quem vê algum exagero nisso sabe que o ambiente financeiro é o reino do rigor: ternos italianos, cabelos obsessivamente aparados, nenhuma invenção. "Para convencer um cliente a fazer uma transação com seu patrimônio, temos de passar uma imagem de seriedade", diz o francês François Legleye, vice-presidente do banco francês BNP. Legleye abomina a idéia das sextas-feiras casuais.

 
André Pires, 35, diretor
"Minhas camisas têm as iniciais gravadas. Não sei bem por quê. Acho que é uma tradição no meio."
Renata Leonel Vieira, 28, operadora
"Sou a única mulher em uma bancada com 25 operadores. Não dá para usar nada curto ou decotado."
François Legleye, 37, vice-presidente
"Nada mais ridículo que poder usar camisa pólo na sexta e não na quinta. Vira uma camisa-de-força."
Cíntia Pureza, 31, diretora de private banking
"Quando entrevisto um candidato, presto muita atenção à imagem. Se usa piercing, já é um ponto contra."
Cássio Vidigal, 33, responsável por commodities agrícolas
"Um terno bem cortado mostra austeridade, o que condiz com a imagem que o banco quer passar."

 

1. TERNINHO
Num ambiente de homens, as mulheres são escravas do tailleur e do terninho. Com um toque de cor ou couro, para as que podem.
2. TERNO, CAMISA E GRAVATA
O trio deve ser discreto, em tons sóbrios. E, mais importante, exalando grifes caríssimas, italianas de preferência.
ACESSÓRIOS
Acompanham as roupas no estilo e no preço alto. Abotoaduras, de tão formais, dão a quem as usa um certo ar de atitude.

  Fonte: Veja Ano 34 No 5,  05/02/03