Gerenciando a Si
Gerenciando a si mesmo
Daqui a alguns séculos, quando a história da nossa era for escrita de
uma perspectiva bem distante, eu acho que é muito provável que o
evento mais importante que esses historiadores irão retratar não será
a tecnologia, não será a Internet e nem mesmo o comércio via e-mail (e-commerce).
O que verão é uma mudança sem precedente na condição humana. Pela
primeira vez, literalmente, há um substancial e rápido crescimento no
número de pessoas que tem escolhas. Pela primeira vez, eles terão que
gerenciar a eles mesmos. E deixe-me dizer, nós estamos totalmente
despreparados para isso.
Durante o desenrolar de nossa história, praticamente ninguém teve
alguma chance. Até 1900, mesmo nos países mais desenvolvidos, uma
assustadora maioria seguiu seus pais. Havia apenas mobilidade para um nível
mais baixo, não havia mudança para um nível superior. Se seu pai era
um modesto agricultor em algum lugar, você também seria um modesto
agricultor. Se ele era um artesão, você também seria um artesão, e
foi assim por muito tempo.
Oportunidades de escolha
Atualmente, surpreendentemente, um grande número de pessoas tem feito
escolhas - ainda uma minoria, mas esse número está crescendo. E mais,
no futuro eles terão mais do que uma carreira. A média de anos
trabalhados será em torno de 60 anos. Em 1900 trabalhava-se em média
20 anos.
Em breve, nós não acreditaremos mais que aposentadoria significa fim
da vida de trabalho. A aposentadoria pode ocorrer até antes do que tem
sido, mas a vida de trabalho continuará, mesmo sem necessidade econômica.
É previsível que nos próximos 25 anos, a maioria das pessoas
continuará trabalhando, talvez não mais em tempo integral, não mais
como empregados de uma empresa – como temporários, meio-turno, mas
ainda trabalhando até seus 70 anos de idade - em parte, talvez, por razões
econômicas. Eu espero que meus netos não sejam bobos o bastante para
estarem dispostos a dar 35% de seus salários para dar suporte a idosos
que são perfeitamente capazes de trabalhar. Poucas pessoas serão
capazes, não importa quanto elas coloquem em suas contas de
aposentadoria, de viver sem um salário adicional.
Conhecimento também traz escolhas
Se seu pai foi um advogado, você foi um advogado, ou talvez um médico,
mas um profissional e assim por diante. E você nasceu, talvez não na
profissão, mas certamente na classe na qual você passou toda a sua
vida. E isso não é mais verdade de conhecimento.
Isso também explica porque nós temos mulheres nos mesmos trabalhos que
homens. Historicamente, homens e mulheres têm sempre tido a mesma
participação na força de trabalho. A idéia da dona de casa ideal foi
uma ilusão do século XIX, mas homens e mulheres fizeram trabalhos
diferentes. Não há civilização onde os dois sexos tivessem feito o
mesmo trabalho. E trabalho com conhecimento não conhece distinção
entre os sexos. Essa é uma das grandes mudanças – em trabalho do
conhecimento homem e mulher fazem o mesmo.
Responsabilidades nas escolhas
Nós teremos que aprender primeiro quem nós somos. Nós não sabemos.
Quando eu pergunto aos meus alunos – pessoas bem-sucedidas, “Você
sabe em que você é bom?” - quase nenhum sabe responder. “Você
sabe o que você precisa aprender para utilizar 100% das suas forças?”
Nenhum deles nunca, sequer, questionou-se sobre isso. Do contrário, a
maioria deles está muito orgulhosa da sua ignorância. Existe este tipo
de relação, pessoas que se orgulham de não saber ler um extrato.
Entretanto, se você quer ter sucesso hoje, você tem que ser capaz de
ler um extrato. Por outro lado, há os contadores que são igualmente
orgulhosos por não serem capazes de se relacionar com outros indivíduos.
Bem, não há nada para se orgulhar e sim, muito para se envergonhar,
porque não podemos aprender isso. Ambos são coisas muito fáceis - não
é muito difícil aprender “por favor” e “obrigado”, aprender
boas maneiras – e boas maneiras são o que fazem você se relacionar
com pessoas.
Usando Feedback
Poucas pessoas sabem o lugar a que pertencem, que tipo de temperamento têm
e que tipo de pessoas elas são. “Eu trabalho com pessoas ou sou um
solitário?”; “Quais são os meus valores?”; “Quais são meus
compromissos?”; “A que lugar eu pertenço?”; “Qual é minha
contribuição?”.
E isso é, como já disse, sem precedente. Essas perguntas nunca foram
feitas, com exceção de por alguns realizadores. Leonardo Da Vinci
tinha um caderno no qual ele perguntava a si mesmo essas questões.
Mozart sabia disso e sabia muito bem. Ele é o único homem na história
da música que foi igualmente bom em dois instrumentos completamente
diferentes. Ele não foi apenas um virtuoso pianista, mas também um
grande violinista. Ainda assim, ele decidiu que se pode ser bom em
apenas um instrumento, porque para ser bom é preciso praticar três
horas por dia. Não há horas suficientes em um dia e, então, ele
desistiu do violino. Ele sabia disso e ele escreveu isso. E nós temos
suas anotações.
Os grandes realizadores sempre souberam quando dizer “não”. E eles
sempre souberam o que buscar. Eles sabiam onde se posicionar. Essas
coisas fazem deles grandes realizadores. E agora todos nós teremos que
aprender isto. Essa tarefa não é tão difícil. A chave para isso –
o que Mozart e Leonardo fizeram - é escrever e checar essas coisas.
Toda vez que você fizer alguma coisa que é importante, escreva o que
você espera que aconteça. “Quais são os resultados da sua decisão?”.
As importantes decisões em organizações são decisões de pessoas.
Ainda hoje, apenas os militares, e apenas recentemente, tem começado a
fazer perguntas, “se eu colocar este homem para ajudar esta base, o
que nós esperamos que este general realize?” e ,então, eles olham
para isso três anos depois. Creio que só agora eles alcançaram um
ponto onde quarenta por cento das suas decisões funcionam.
Construindo na força
É muito fácil aprender “quais são minhas forças” escrevendo os
resultados. E deixe-me dizer, a maioria de nós pesa erradamente sua força.
Nós acreditamos que as conhecemos. Nas coisas nas quais somos bons,
conseguimos resultados facilmente, e se algo não vem com sacrifícios,
isso não pode ser bom o bastante. Dessa forma, nós não conhecemos
nossas forças e não sabemos o que precisamos para melhorá-las.
Nós não conhecemos os dons que nos foram passados pelo bom senhor.
Sim. Eu não preciso nenhum feedback para saber que eu não sou um bom
pintor. A primeira vez que eu peguei um giz de cera nas minhas mãos,
quando tinha dois anos, eu acho que eu já sabia disto. Este é um caso
extremo, mas... e nas entrelinhas? Você realmente sabe que “isso não
é para mim” . Então, nós estamos novamente em um lugar sem
precedentes, e a maioria das pessoas educadas nos próximos trinta anos
terá que aprender como se posicionar.
Teremos que aprender qual é o nosso lugar, quais são nossas forças, o
que temos que aprender para obter benefícios dessas coisas; onde estão
nossos defeitos, em que somos bons, a que lugar pertencemos, quanto
valemos. Pela primeira vez na história da humanidade, teremos que
aprender a ter a responsabilidade de gerenciarmos a nos mesmos. E, como
eu já disse, essa é uma mudança bem maior do que qualquer mudança
tecnológica – uma mudança na condição humana. Ninguém ensina isso
- nenhuma escola, nenhuma faculdade – e provavelmente levará mais cem
anos até que eles venham a ensinar essas coisas.
Neste meio tempo, os realizadores (e eu não quero dizer milionários,
mas sim aqueles que querem fazer uma contribuição, que querem ter uma
vida de realizações, e que querem sentir que há alguma razão para
sua estada na terra) terão que aprender algumas coisas que, apenas a
alguns anos atrás, poucos super realizadores souberam. Eles terão que
aprender a gerenciar a eles próprios, a construir suas forças e seus
valores.
E, pela primeira vez, o mundo está cheio de opções. Quando eu escuto
meus netos e as opções que eles têm... Isso é bastante assustador,
quase assustador demais. Quando eu nasci, não havia nenhuma. E você
terá que aprender que é seu trabalho decidir “qual opção é para
mim? e por quê?”, “qual se adecua melhor a mim”, “a que lugar
eu pertenço?”.... E essa será a grande mudança em nossa história!!
Artigo de Peter F. Drucker, publicado no site Leader to Leader
http://www.pfdf.org/leaderbooks/l2l/www.gc-consultoria.com.br