“O off” controlado pelas fontes

    Carlos Chaparro

     

    O XIS DA QUESTÃO – Antigamente, “off” era arma de repórter, nas artes de seduzir fontes e fazer alianças convenientes ao jornalismo. Hoje, o uso do “off” mudou de mão, faz parte do arsenal das fontes. Até que ponto a informação em “off”, controlado por fontes organizadas, pode ameaçar a confiabilidade da linguagem jornalística?


    1. Tempos de “off”

    Em um dos registros de sua coluna desta quinta-feira (8 de janeiro/04), Dora Kramer passou um pito em Lula, por causa daquela nota oficial por meio da qual, dois dias antes, a Presidência da República “desautorizava” as especulações sobre nomes e prazos  para “uma possível reforma ministerial”. Dora Kramer se sentiu particularmente incomodada pela frase que dava fecho à nota oficial: “O Presidente considera (...) que tal noticiário especulativo não ajuda o país, na medida em que pode ter como efeito prejudicar o bom andamento de setores da administração pública”.

    Por causa dessa frase, Dora Kramer achou que o Presidente interferia em um assunto no qual “não convém o Estado se imiscuir”: o trato da informação. Para a colunista, “o acesso à informação é um direito constitucional, não uma questão de gosto”.

    Para além do exagero interpretativo (o de atribuir significado de indevida intromissão do Estado em questões de direitos constitucionais a uma nota oficial de alcance meramente tático), creio que Dora Kramer caiu no mesmo equívoco que levou os jornais a enfiar a carapuça, como se as críticas e as queixas presidenciais fossem dirigidas à imprensa.

    Ao desautorizar o “noticiário especulativo”, a nota oficial apontava para as redações ou para as fontes ocultas que nutriam esse noticiário?

    Se apontava para as redações, teve o sentido de “reprimenda ética” aos jornalistas. Mas se – e essa é a leitura que faço – teve como alvo as partes em conflito, escondidas nos bastidores não revelados do noticiário, a nota oficial cumpriu, e bem, a função de vigoroso lance de afirmação do “comando do jogo”, por parte de quem o deve comandar.

    Ora, em momentos de divisão de espaços, benesses e poderes políticos, como este da reforma ministerial, faz parte do jogo a intensa utilização da informação em “off”, por parte dos protagonistas interessados. Pelo noticiário em “off”, sob a proteção do compromisso de anonimato, correm os recados táticos das partes em conflito. E a “engenharia política” do governo sabe muito bem disso, até como usuária do processo, quando lhe convém.

    2. Do “off” à especulação

    A despeito da nota oficial, o jogo do “off” prosseguiu, e de forma incrementada, alimentando a especulação política – que faz parte do jogo. Assim, na edição de 8 de janeiro, a Folha de S. Paulo, em texto de Kennedy Alencar, anunciou, sem ressalvas nem prudências condicionantes: “Planalto convida Eunício e Campos para o ministério”.

    A notícia é precisa: “Com o aval do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o ministro José Dirceu (Casa Civil) convidou anteontem o líder do PMDB Eunício de Oliveira (CE), para integrar o ministério sem definir a pasta e acertou ontem a substituição de Roberto Amaral (Ciência e Tecnologia) por Eduardo Campos (PE), líder do PSB na Câmara.”

    Só faltou identificar a fonte da notícia, como aval de credibilidade. Ainda assim, é provável que tudo se confirme ou já esteja confirmado. E se assim for, confirmado estará também o “noticiário especulativo” tão criticado pela nota oficial da Presidência da República.

    Mas o que me interessa salientar, aqui, é a força da informação em “off”, na construção do noticiário político, em momentos de crise ou tensão, como este da reforma ministerial.

    Voltemos ao texto de Kennedy Alencar. Depois daquela introdução marcada pela precisão do relato, a reportagem (?) entra em um labirinto de hipóteses e predições, de intenso sabor especulativo, em torno das acomodações políticas que permitam a concessão de dois ministérios ao PMDB. Se verdadeiras, são revelações de uma intimidade que o governo certamente gostaria de manter preservada. Se falsas, comprometem a confiabilidade do jornalismo, de forma geral, e a do jornal e do repórter, de modo particular.

    Como está em jogo um “capital político” de elevado valor de troca, é lógico supor que, atrás da trama especulativa elaborada por Kennedy Alencar, estejam fontes não independentes, mas altamente interessadas.

    Quem são elas?

    Kennedy Alencar as oculta sob expressão “a Folha apurou”, que faz parte dos códigos de linguagem do jornal, devidamente regulamentados no Manual de Redação. Assim está escrito no Manual, no verbete que define e regulamenta o uso do “off-the-record”, capítulo “Produção”:

    “(...) A Folha trabalha com três tipos de informação ‘off-the-record’: a) ‘Off’ simples –Obtido pelo jornalista e não cruzado com outras fontes independentes. Se tiver relevância jornalística, pode ser publicado em coluna de bastidores, com indicação (...) de  informação ainda não confirmada (...); b) ‘Off’ checado – Informação ‘off’ checada com  o outro lado ou com pelo menos duas outras fontes independentes. Em texto noticioso, o ‘off’ checado deve aparecer sob a forma a Folha apurou que etc.(...); ‘Off’ total – Informação que, a pedido da fonte,não deve ser publicado de modo algum, mesmo que se mantenha o anonimato de quem passa a informação (...)

    Eis aí o conceito e a norma que explicam a alta freqüência de matérias especulativas no jornalismo da Folha de S. Paulo, em especial na área política.

    3. Problemas novos

    No jornalismo de três, quatro décadas atrás, o “off” era ferramenta das mais importantes no trabalho dos grandes repórteres. Sou desse tempo. As fontes eram passivas, mais se escondiam do que se mostravam, preferiam mecanismos e estratagemas de não divulgar. Precisavam ser seduzidas. Saber seduzir fontes era uma habilidade de repórter. E o “off” fazia farte das artes de sedução.  Por isso, repórter bom era o que tinha boas fontes. E fontes próprias, só dele.

    Hoje, o uso do “off” faz parte do arsenal das fontes, que se profissionalizaram, tanto para a produção de acontecimentos noticiáveis quanto para a sua divulgação. Por isso e para isso, empregam e treinam jornalistas e profissionais de outras especializações. Muito mais do que nas redações, as áreas de comunicação nas organizações complexas são ambientes de multidisciplinaridade. Porque a notícia faz parte do agir estratégico e tático das instituições, que utilizam o jornalismo como espaço público dos conflitos em que se envolvem – e isto faz parte da fisionomia e da lógica das democracias contemporâneas, quer em seus formatos representativos, quer em suas manifestações participativas.

    É um quadro irreversível, sem espaços nem razões para saudosismos. Mas que coloca problemas novos ao jornalismo, um dos quais o “caos informativo” produzido pela mistura de quantidade, fragmentação e repetitividade noticiosa da atualidade. Essa é uma questão complexa, por enquanto mal discutida.

    Mas há problemas mais simples, que devem e podem ser questionados imediatamente. Um deles, a questão da informação em “off” e a sua utilização, nas práticas atuais. Pergunta-se: - Até que ponto a informação em “off”, hoje ferramenta das fontes organizadas, pode ameaçar a confiabilidade da linguagem jornalística? Que procedimentos de prudência deveriam ser ensinados nos cursos de jornalismo e adotados nas redações, em relação ao “off-the-record”?
     



    9/1/2004

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    Ruth Rabelo [09/01/2004 - 20:34]
    (Freelancer)

    "Alta freqüência de matérias especulativas no jornalismo da Folha de S. Paulo"? Que isso? Jornal de credibilidade (não) está ali.

    Tiago Scarpin [09/01/2004 - 20:30]
    (Estudante)

    Na faculdade, professores sempre falam que o jornalismo era melhor antigamente do que agora. Será que a sedução das fontes era mais ética? O que é seduzir fontes? Ficar amigo delas? Acho que a Folha de São Paulo exagera nas matérias em off e que isso é questionável, mas acho pior essa história de que antigamente era tudo emlhor

    Lucas Martins [09/01/2004 - 20:23]
    (Estudante)

    O off é importante no jogo político e o repórter, quando inexperiente, é alvo fácil das artimanhas e vantagens que este atalho para a notícia proporcianam. Se as escolas de jornalismo não têm um trabalho voltado para cognição e até de conhecimento do jogo político, por meio de órgãos laboratoriais de mais qualidade e que coloquem o estudante no campo, nós focas temos que ter um grande exercício de observação e mapeamento do chão que estamos pisando. Conhecer a histária dos políticos é um bom começo. Abraço.

    Fabio Amaro Lacerda [09/01/2004 - 18:39]
    (Freelancer)

    Antes o off era a seguridade da fonte. Hoje, uma banalização. Através dela, as especulações se tornam "verídicas" porque o off deixou se ser exclusivo. Há quantos anos no Brasil não há um jornalista que dá um "furo" jornalísitco? A internet é peça importante neste processo, uma vez que a credibilidade da informação é associada a questão quantitativa de profissionais. Ou seja, uma mera especulação informativa, se for bem "trabalhada" para sua divulgação, se torna notícia. Por outro lado, o que seria do jornalismo sem especulações? As especulações são frutos de colocações verbais ou escritas. Nada mais é que um produto que faz o profissional de comunicação pensar nas possibilidades, nas condições e até mesmo induzir através de argumentos sólidos um vislumbramento que não foi perceptível até então. Como se diz no futebol, o erro do arbítro é fundamental para a emoção do esporte, as especulações no jornalismo seguem a mesma linha. Até que ponto isto é bom ou ruim? Abraços e bom 2004

    Fabio Amaro Lacerda [09/01/2004 - 18:35]
    (Freelancer)

    Fabio Lacerda Antes o off era a seguridade da fonte. Hoje, uma banalização. Através dela, as especulações se tornam "verídicas" porque o off deixou se ser exclusivo. Há quantos anos no Brasil não há um jornalista que dá um "furo" jornalísitco? A internet é peça importante neste processo, uma vez que a credibilidade da informação é associada a questão quantitativa de profissionais. Ou seja, uma mera especulação informativa, se for bem "trabalhada" para sua divulgação, se torna notícia. Por outro lado, o que seria do jornalismo sem especulações? As especulações são frutos de colocações verbais ou escritas. Nada mais é que um produto que faz o profissional de comunicação pensar nas possibilidades, nas condições e até mesmo induzir através de argumentos sólidos um vislumbramento que não foi perceptível até então. Como se diz no futebol, o erro do arbítro é fundamental para a emoção do esporte, as especulações no jornalismo segue a mesma linha. Até que ponto isto é bom ou ruim? Abraço

    Milton Abrucio Junior [09/01/2004 - 18:26]
    (Profissional Contratado)

    Não entendo certas maldadezinhas que, cifradas, volta e meia são postadas neste espaço. Não entendi, Thomaz. Vc acha que o Kennedy está fazendo o jogo do governo, por ter sido assessor da campanha de 1994? E que o repórter em questão "tem um lado", o do PT, talvez por consequência da ocupação de dez anos atrás? Respeito, mas dicordo. Basta ler os textos de Kennedy na Folha. São muito bem informados sobre fatos do governo (mérito do repórter), mas longe de serem chapa-branca. A própria desastrada nota do governo mostra que o que a imprensa publica sobre os bastidores da reforma (incluindo a Folha) incomoda o governo -- seja porque tem muita gente procurando influir falando em off, o que é do jogo, seja porque o governo preferia que a mídia se limitasse ao oficialismo. Abraço.

    Ricardo Mello*** [09/01/2004 - 17:28]
    (Freelancer)

    Acredito que mais importante do que antecipar fatos obtidos através das fontes dos novos tempos é ter a capacidade de definir o interesse do que ela pede em troca de tais informações. Sabemos que muitos políticos trocam informações de bastidores por notícias "plantadas" que vlorizam seus mandatos ou cargos públicos, mas que nem sempre tem valor jornalístico. Conseguir fontes exclusivas através de trocas de favores é fácil e isso não qualifica o bom jornalista. Na busca pelo caminho mais curto, a credibilidade sempre fica para trás.

    Yara Verônica Ferreira [09/01/2004 - 15:00]
    (Estudante)

    Como bem colocou o Luiz Carlos Reis Junior, "o discernimento cognitivo mais apurado" é imprescindível para os estudantes de jornalismos, mas infelizmente as instituições de ensino não adequaram seus cursos para tal. Como estudante de Jornalismo sinto falta de uma matéria que seria de suma importância para desenvolver a cognição: a psicologia. Muitas teorias psicológicas poderiam ser aplicadas no ato de uma reportagem. Mas, esperança é a última que morre, quem sabe até o 4º ano alguém não resolve inovar o curso, ainda estou no 3º.

    Thomaz Magalhães [09/01/2004 - 14:10]
    (Freelancer)

    Ao comentar a precisão do citado texto de Kennedy Alencar na Folha de São Paulo em seu início, e depois as especulações feitas na sequência da matéria, lembrei da polêmica entre Jânio de Freitas e Kennedy tempinho atrás, qundo da coletiva presidencial num programa de tv. Off simples, off checado e off total, em qual dessas categorias estaria o off apurado entre jornalistas que atuam em assessorias de campanhas políticas ou jornalistas que tem lado?

    Luiz Carlos Reis Junior [09/01/2004 - 13:34]
    (Freelancer)

    A credibilidade da notícia está relacionada exclusivamente à veracidade dos fatos.Os valores éticos e a confiabilidade da linguagem jornalística está intimamente ligada às fontes,impreterívelmente.Cabe a nós jornalistas checá-las e desenvolvermos o "tirocínio".Por outro lado as universidades deveriam aplicar metodologias de estudos voltadas para o dicernimento cognitivo mais apurado, mediados entre a pesquisa e a investigação propriamente ditas.
    Fonte: Comunique-se 09/01/04