Mais
uma vez a tecnologia traz mudanças que devem afetar de
maneira profunda a maneira como se faz marketing,
especialmente em relação à comunicação com os
consumidores.Em janeiro aconteceu em Las Vegas
o International Consumer Electronics Show, um
mega-evento que reúne as maiores empresas do segmento,
como Sony, Panasonic, Samsung e muitas outras. A
novidade, entretanto, é que várias empresas do setor
de informática como Dell, HP e Microsoft também estão
lá. Não há dúvidas na cabeça de todos que a próxima
tendência é a confluência dos computadores com os
aparelhos de som e TV...ou seja, o entretenimento doméstico
vai ser englobado pela informática, criando o segmento
do infotainment.
Colocando
de uma maneira mais prática, o objetivo é acabar com
aquele monte de fios e aparelhos que não conversam uns
com os outros e integrar tudo em um aparelho
computadorizado que faça tudo: toque filmes, música,
fotos, grave da TV, do rádio, e arquive tudo em formato
digital. Mais do que isso, este aparelho poderá tocar
na TV da sala filmes baixados da internet. Uma revolução
que deverá gerar bons negócios através da distribuição
digital de conteúdo.
A
idéia de Bill Gates da Microsoft é criar uma
tecnologia chamada Windows Media Center
licenciando-a para fabricantes como Samsung, Dell, HP e
Gateway. O conceito é o de uma caixa que conecte o
computador com a TV.
Entretanto,
o Presidente da Intel, Paul Otellini, vai mais longe.
Ele pretende criar e vender por US$ 800 um PC para
entretenimento, que ficaria em sua sala, atuando como receiver,
DVD, gravador de vídeo digital e receptor de filmes e música
da internet, enviando por rádio o sinal para qualquer
TV da casa. A promessa é conseguir enviar por Internet
um filme para esse PC no mesmo dia em que ele tenha
estreado nos cinemas.
Tudo
isso parece ser uma idéia futurista, mas nos EUA já se
é possível ver em realidade o início dessa revolução,
no fenômeno do TiVo. TiVo é um gravador digital de
sinais de TV que funciona com TV a cabo, satélite,
etc., com capacidade para gravar 80 horas de programação.
Você diz para o aparelho quais programas prefere e ele
grava tudo automaticamente para você. Ele também
sugere programas baseado no seu histórico e permite que
você dê uma pausa, assista o programa no ponto onde
parou, volte a fita e pule os comerciais, isso tudo
mesmo em programas ao vivo. O aparelho custa US$ 149 e a
assinatura mensal do serviço US$ 13. O TiVo tem sido um
enorme sucesso porque permite que você volte para casa
depois do trabalho, ligue a TV e só veja os programas
interessantes. Nada de ficar pulando de canal em canal,
apenas para descobrir que não tem nada bom nos 60
canais da sua TV.
Embora
não possamos ainda inferir todas as implicações que
estas mudanças terão sobre o marketing, algumas
conclusões são óbvias. O sistema atual, onde a
publicidade paga para que o entretenimento seja
gratuito, começa a ficar ultrapassado. As pessoas,
especialmente nas classes econômicas mais altas, estão
dispostas a pagar mais para terem o direito de escolher
seus programas. Como estão pagando, ficam cada vez
menos dispostas a receberem mensagens comerciais, que
passam a ser percebidas como uma intrusão. Como a
tecnologia permite que essas mensagens sejam saltadas ou
simplesmente nem existam, como no caso dos filmes on-demand,
os marketeiros terão de pensar em formas alternativas
para atingirem este consumidor.
Um
outro fator que só vem complicar a situação é a
enorme enxurrada de mensagens e informação que o indivíduo
recebe hoje em dia. Estudos recentes, como aqueles
apresentados por John Beck em seu excelente livro The
Attention Economy, demonstram que a atenção humana
funciona de maneira seletiva, com o cérebro
furiosamente descartando tudo o que não interessa, para
depois focar no que possa ser uma prioridade para o
indivíduo. Ou seja, a biologia explica que o consumidor
passa na verdade a maior parte do tempo em uma atitude
passiva em relação aos comerciais, especialmente se
eles tiverem uma frequência alta...literalmente eles
entram inconscientemente por um ouvido e saem pelo
outro. Apenas quando algo realmente importante surge é
que o cérebro liga
a atenção e o consumidor foca no assunto,
tornando-se consciente da mensagem.
Essa
realidade favorece meios de comunicação mais
relevantes, segmentados e focados, em detrimento de
estratégias de bombardeamento massivo de comunicação.
Obviamente, não espere ouvir nada a respeito disso de
sua agência, especialmente se ela for daquelas grandes
que ganham seu filé na programação em televisão em
novela III ou encartes nacionais na Veja.
O
segredo é comunicar sua mensagem em momentos em que a
atenção do consumidor esteja disponível. Por isso a
promoção em ponto de venda está se desenvolvendo
tanto, já que na hora da compra o consumidor está
totalmente envolvido na escolha do produto.
Levando
esta mesma lógica para a comunicação eletrônica, a
melhor forma de comunicar o produto passa a ser dentro
de um contexto de envolvimento e atenção. Com as mudanças
tecnológicas, isso não vai mais poder ocorrer no
intervalo comercial, mas terá que ser feito dentro dos
programas, através de product placement (incorretamente
chamado de merchandising no Brasil). Em Hollywood,
existem várias agências especializadas nas negociações
de inserções de produtos dentro da história, o que é
feito ainda na fase de planejamento do roteiro do filme.
Finalmente,
a maneira mais efetiva de comunicação será a manutenção
do relacionamento com clientes existentes. Sem a ajuda
da comunicação de massa, a conquista de novos clientes
será cada vez mais complicada e dispendiosa.
Sem
dúvida, ainda falta muito para que o Brasil caminhe
para esta nova realidade. Afinal custou para que atingíssemos
a fase da comunicação de massa, colocando um televisor
em cada casa. Porém, as coisas estão mudando, como
mostra a pesquisa recente que revelou
que o brasileiro gasta mais com internet e tv a
cabo do que com feijão e arroz.
As empresas que começarem a se adaptar hoje serão
aquelas com maior sucesso no futuro.