O jornalista e as interfaces da comunicação

    A delimitação de espaço entre os profissionais que atuam no ramo de comunicação corporativa tem causado polêmica.

    Esta foi uma das mais acirradas discussões durante o XVIII EEJAC. Participaram o presidente do Conferp (Conselho Federal de Relações Públicas), Flávio Schimidt, a professora Izolda Cremonine, consultora em Comunicação e o vice-presidente da Fenaj, Everaldo Gouveia. Felizmente, a idéia de estabelecer um diálogo produtivo entre representantes de jornalistas, relações públicas e empresários do setor, sobrepôs-se à troca de farpas.
    Everaldo Gouveia ressaltou a necessidade de encarar os desafios e resolver conflitos. Segundo ele, a organização e o reconhecimento dos assessores de imprensa como jornalistas parece uma coisa automática, mas não foi assim, no passado. Quando o segmento surgiu e passou a ocupar espaço houve rejeição nas redações e estranhamento até na Fenaj, que a partir de 1980 não só admitiu os assessores de imprensa como jornalistas, como passou a organizar este segmento. O diálogo gera entendimento e na questão atual não deve ser diferente, conclui.
    A importância das assessorias de imprensa no mercado de trabalho é fato, e parece compreensível, diz Everaldo, que tenham surgido conflitos com segmentos afins na comunicação, especificamente dos RPs. A Fenaj, apoiada no trabalho desenvolvido pela comissão de assessorias do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, elaborou um manual para orientar o mercado sobre as atribuições.
    Em 1999 foi lançado o livro Relação – Assessorias e Redações –, que resume vários workshops e reuniões realizadas entre as partes. Uma experiência que mostrou a possibilidade de diálogo e, mais importante, que é possível produzir algo em comum.

    Conferp admite o diálogo
    Convidado a participar do EEJAC, o presidente do Conferp, Flávio Schimidt, não se furtou a defender a atuação dos relações públicas. Ele sinaliza que a intenção é estabelecer diálogo com os jornalistas em face ao mundo completamente novo que surge na área de comunicação. Ele garante que o Conferp dá importância para a formação profissional dos dois segmentos porque não se faz um bom trabalho sem qualificação.
    A internacionalização dos mercados mexe com jornalistas, agências, profissionais de marketing, publicidade e RP. Por outro lado, Schimidt avalia que os RPs organizaram-se melhor no aspecto jurídico. Na condição de autarquia federal, o Conferp pôde baixar a polêmica resolução 43, que obriga as assessorias de comunicação a ter um relações públicas como técnico responsável. Para ele, não se pretende esvaziar a atividade dos jornalistas, mas ordenar a atividade com base em preceito legal. Sobre as empresas multadas por não acatar a resolução, Schimidt considera que os problemas são provocados pela falta de disposição ao diálogo. Esta postura do Conferp foi criticada durante o Encontro.

    Confusão no conceito
    Com 33 anos de atividade no ramo da comunicação, a professora Izolda Cremonine diz que pode falar mal de jornalistas, relações públicas e de publicitários porque tem formação nas três áreas. Humor à parte, ela companha as dificuldades de cada área em buscar espaço. E propõe definições.
    Para ela, o RP deve trabalhar o relacionamento com os diferentes públicos das organizações. E quanto mais segmentado o público, mais rica é a atuação. A imprensa é um público a ser trabalhado.
    A migração de jornalistas de redação para as assessorias é positiva, avalia Izolda, porque elevou a qualidade ao levar a cultura das redações.
    Já o marketing, enquanto estratégia empresarial, faz mesmo é criação ou reformula-ção de produtos. Pensa a embalagem, insu-mos, pontos de venda, o preço e a promoção.
    A discussão das atividades se dá quando o assunto é o trato da imagem da empresa. De que jeito a empresa é conhecida e como gostaria de ser percebida. É no último item que entra o trabalho de RP, de caráter estratégico, de gestão. Neste sentido, a professora coloca a assessoria de imprensa em outro degrau, o das ações táticas, de colocar na mídia o que a organização se propõe, de execução das estratégias. Desatado este nó, a harmonia tende a reinar.
    Os jornalistas dominam, numericamente, o mercado de assessorias de comunicação. Este fato reforça que o entendimento surgirá porque é necessário e urgente. Pesquisa da ABRACOM (Associação Brasileira das Empresas de Comunicação) revela que 95% das assessorias de comunicação prestam serviços de assessoria de imprensa. Um dado forte para os debates.
    Mais do que nunca, é tempo de diálogo.
    Jornal Unidade - Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Est. de S. Paulo, No 257, Setembro de 2003, p
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