Além da assessoria de imprensa
Nemércio Nogueira (Qua, 26 de Novembro de 2003 16:22
Cresce
entre as grandes empresas brasileiras a convicção de que saber
relacionar-se adequadamente com os jornalistas é dever fundamental de
seus gestores e de que essa responsabilidade não pode ser de apenas uma
pessoa, um porta-voz único - pois as dimensões e a complexidade dessas
empresas requerem que diferentes executivos falem sobre os assuntos de
suas respectivas áreas.
É importante registrar essa evolução porque, pouco tempo atrás, muitas
das nossas empresas de destaque ainda se limitavam a, unilateralmente,
enviar press releases aos jornalistas, mas se recusavam a dialogar com
algum repórter que caísse na asneira de procurá-las para informações
adicionais Possivelmente se deva a essa unilateralidade antiga, que final
e felizmente está caindo em desuso, o surgimento aqui no Brasil da
expressão "assessoria de imprensa", muito menos abrangente e
mais instrumental que o nome correto desse ramo do trabalho de relações
públicas, que é "relações com a imprensa" (do inglês
"media relations"), refletindo uma função mais estratégica,
ampla e complexa do que a simples fabricação de press releases - que
implica também a compreensão de que a imprensa é um pilar fundamental
da democracia e de que ela requer diálogo e não monólogo.
A mais recente demonstração desse entendimento mais aberto e moderno da
importância e do que envolve o trabalho de relações com a imprensa é o
livreto Manual da Fonte, que acaba de ser publicado pela Philips do Brasil
e visa a capacitar seus executivos para a interface positiva com a
imprensa, normatizada em um documento interno que define as políticas de
comunicação da empresa na América Latina.
A Philips tem diretrizes mundiais básicas sobre o relacionamento com a
imprensa, mas cada país define suas orientações específicas. E o
Manual da Fonte é uma iniciativa exclusiva do Brasil - que abrange também
os demais países da América Latina onde a empresa opera -, o que torna
essa iniciativa ainda mais significativa, por demonstrar o valor que a
empresa dá, entre nós, ao bom relacionamento com os jornalistas.
Sem dúvida, o fato de esse manual ser publicado pela primeira vez agora,
por uma empresa que atua há décadas no Brasil, constitui um importante
indicativo, de um lado,
da
crescente relevância, para as empresas, do bom relacionamento com a
imprensa; e, por outro lado, do reconhecimento de que a imprensa
brasileira merece e requer um tratamento sério e profissional.
A nova publicação integra um extenso programa de capacitação dos
executivos da empresa, para poderem atuar como fontes, iniciado há dois
anos. O Manual da Fonte visa principalmente a ajudá-los a conhecer seus
interlocutores, a dinâmica do universo da notícia e a rotina de sua
produção.
No contexto desse programa, a Philips procurou avaliar a imagem que a
imprensa tem da empresa, produzindo um vídeo em que 14 profissionais de
jornalismo econômico dão suas impressões sobre o relacionamento da
companhia com a imprensa
Marcos
Magalhães, presidente da Philips, considera que "a imprensa é o
canal de comunicação da sociedade contemporânea. Portanto é por meio
da comunicação com a imprensa e os demais públicos que a empresa se dá
a conhecer. Assim, é fundamental para o sucesso desse diálogo que a
empresa conheça quem são seus interlocutores, seus interesses, suas
necessidades e desejos. O Manual da Fonte é uma das ferramentas
disponibilizadas a nossos porta-vozes para melhorarem suas competências
comunicacionais".
A Philips seleciona seus porta-vozes entre os executivos que passam pelas
sessões de Media Training. No ano passado, foram realizados quatro
treinamentos desse tipo. E, para este ano, foi programada uma sessão para
cada divisão de negócios e uma para a área corporativa.
Esse
treinamento de relacionamento com jornalistas é requisito básico, mas
cada porta-voz também se define por sua atuação dentro da empresa. Em
outras palavras, o diretor de marketing de eletrônica de consumo, por
exemplo, só fala sobre marketing de produtos eletrônicos. Devido à sua
complexidade, a Philips tem 40 porta-vozes, para os mais diferentes
assuntos.
Qual a maior dificuldade que os executivos encontram nesse relacionamento?
Para Ana Valéria Haddad, gerente de comunicação corporativa, "a
maior dificuldade é os executivos conseguirem adequar suas agendas diárias
à urgência dos jornalistas. Muitas vezes os porta-vozes não têm o
tempo que gostariam para se prepararem adequadamente, ou mesmo para
atender a imprensa no momento em que ela necessita".
Finalmente, na visão da Philips, não basta que o porta-voz conheça a
indústria da notícia, ou domine as técnicas de fala e expressão. É
fundamental que cada porta-voz também conheça perfeitamente o discurso
institucional e as mensagens que compõem a cultura da organização, pois
só assim saberá projetar junto à imprensa o perfil que a empresa quer
apresentar ao público.
Fonte
Revista About on line - fevereiro de 2004