O que é assimilação

É escolher o caminho mais fácil, por necessidade de aceitação ou conveniência

Por Max Gehringer

 

 

Embora naquela época nenhum de nós suspeitasse, nosso primeiro contato com o conceito de assimilação aconteceu quando tínhamos meros 7 anos de idade. Foi logo no primeiro ano do primeiro grau. Um belo dia, a mestra determinou que antes do P e do B deveríamos escrever um M, e não um N. E nós nem perguntamos por quê. Acatamos a determinação, sem discutir. Se tivéssemos perguntado a razão daquela aparente discriminação literal, teríamos descoberto, precocemente, o que era assimilação. Em muitas palavras, para facilitar a pronúncia, um som se torna similar a outro som vizinho. As letras P e B são bilabiais (para pronunciá-las, nossos lábios se fecham). A letra M também é bilabial. Mas o N não é. Nós o pronunciamos de boca aberta, com a língua tocando o espaço entre os dois dentes centrais superiores. Então, para facilitar a vocalização, o som do N vira som do M antes do P e do B. Essa é a primeira regra da assimilação: nós assimilamos porque é mais fácil.

Mas há outros motivos para assimilarmos as coisas. Um deles é cultural. Os romanos assimilaram boa parte do vocabulário dos gregos. E, de quebra, também os deuses e os mitos. A assimilação, nesse caso, se deu por pura conveniência. Se a cultura grega era melhor e mais avançada, por que não copiá-la? E há a assimilação por necessidade de aceitação. Num país tropical como o Brasil, o que teria sido mais lógico há 500 anos? Assimilar os hábitos dos índios, que andavam bem à vontade, ou os hábitos dos europeus, que usavam trajes apropriados para climas gelados? Para não serem vistos como selvagens pelos empertigados europeus, nossos ancestrais decidiram assimilar um traje pouco apropriado ao nosso clima.

Nas empresas brasileiras, estamos assimilando a cultura corporativa americana. Usamos termos que não precisaríamos, porque temos palavras em nosso idioma com igual significado. Adotamos gurus alienígenas, em detrimento dos nacionais. Essa assimilação seria do tipo 3 (somos um povo em busca de aceitação), do tipo 2 (a cultura de lá é melhor que a de cá) ou do tipo 1 (é fácil)? Já no caso de um subordinado que assimila o jeito do chefe, seria uma sábia emulação, uma cópia conveniente ou puro puxa-saquismo? Há três versões: a de quem assimilou (e acha que é certo), a de quem está observando (e acha que é errado) e a do chefe (que fica todo orgulhoso).

Em maior ou menor escala, carreiras são construídas por assimilação. Raros são os profissionais que tentam criar o próprio estilo. E estes sofrem, porque descobrem como é difícil ser autêntico. Por facilidade, preguiça ou conveniência, 99 de cada cem aceitam que a assimilação é inevitável. Justificam que, num mundo globalizado, se correr o bicho pega e se ficar o bicho come. Apenas um centésimo deles percebe que existe, sim, uma saída. Ela é ousada, mas é bem mais arriscada: ser o bicho. O bicho que não imita, é imitado. Empty Picture Box edição 89 -  Vocêsa - novembro de 2005

Max Gehringer é escritor e palestrante. E-mail: max.g@uol.com.br