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O XIS DA QUESTÃO – Jornalismo é um
exercício mental inevitavelmente subjetivo. Não há como
observar, apurar, depurar, para relatar ou comentar, sem a
intervenção inteligente de ajuizamentos valorativos. Apesar
disso, ainda há quem defenda a objetividade como virtude
essencial do jornalismo. Fala-se em separação de opinião e
informação como se a manchete não contivesse um ponto de vista,
ou não fosse o resultado de uma intervenção opinativa
provavelmente complexa. E como se a pedra angular da
argumentação não estivesse nos fatos.
1. “Verdade” dogmática
Ainda fico impressionado com a quantidade de gente que exige
e espera do jornalismo o milagre da objetividade, como se isso
fosse possível e desejável. Sei, até, de professores e
pensadores do ramo que não se acanham de ensinar e espalhar por
aí que a tal objetividade deveria ser a virtude essencial da
linguagem jornalística. Na concepção deles, estaria aí a grande
marca de caráter do jornalismo. Por essa maneira de olhar e
entender as coisas, teríamos de atribuir à objetividade
propriedades de valor ético.
Dos que conheço, porém, nenhum dos pregadores da objetividade
diz que bicho é esse. E porque nada explicam, transformam a
objetividade em uma espécie de verdade dogmática, pairando acima
de polêmicas e dúvidas.
Por causa dessa proposta dogmática do conceito, chegam-me,
por e-mail, freqüentes solicitações de entrevistas, em busca do
que penso sobre o assunto. Na esperança de reduzir a demanda, e
também para dar uma satisfação aos que, por alguma
circunstância, ficaram sem resposta, resolvi tratar do assunto
neste espaço que a generosidade do mundo me concede.
Como jornalismo não é religião nem objeto de fé, há que pelo
menos tentar explicar o que vem a ser esse “dogma” racionalista.
Mesmo correndo o risco de uma explicação pobre, começo por
dizer que objetividade, no jornalismo, seria a capacidade de
olhar os fatos em sua realidade material, sem perspectivas
individuais “deformadoras”. Os fatos teriam de ser olhados como
“objetos reais” perceptíveis, mensuráveis, que valem e se
esgotam em sua materialidade. Portanto, livres de componentes
abstratos. O que significa dizer, descolados de qualquer
dimensão valorativa.
Por esse conceito, não haveria na notícia nem espaço nem
função para leituras ou entendimentos da interpretação. E aí
temos uma asserção incompatível com o jornalismo, linguagem que,
por natureza e vocação, está culturalmente obrigada a atribuir
valor às coisas que narra. Para a narração jornalística, as
coisas (os fatos, as falas...) são o que valem, não o que são.
2. Objetividade X Precisão
A notícia e a reportagem não são relatos frios, de coisas
meramente materiais. Os fatos jornalísticos têm materialidade,
sim. Mas têm, principalmente, causas, efeitos, contextos,
significados. Valem pelas razões que os geraram, pela ação
discursiva que contêm e pelas conseqüências que produzem ou
podem produzir. Além disso, estão inseridos em cenários de
conflito, onde sujeitos sociais agem e interagem no mundo pela
notícia do que fazem e dizem. Isso obriga o jornalismo à ação de
atribuir valor às coisas, para que o mais relevante se
diferencie do secundário e com o secundário se relacione. E esse
é um exercício mental inevitavelmente subjetivo.
Como (por exemplo) assumir critérios éticos de observação e
relato sem a intervenção subjetiva, criativa, do sujeito
narrador?
Decidir o que deve ser tratado como mais importante, para
fazer um título ou uma abertura de matéria, é escolha impossível
de realizar sem a utilização de critérios subjetivos de
valoração dos fatos.
Em resumo, a objetividade simplesmente não existe, no
jornalismo. Porque a observação e o relato estão no espaço do
individual. Têm perspectiva, pertencente ao sujeito observador.
O que existe, e deve ser cultivado com crescente empenho e
rigor, é a precisão, no recorte de dados, fatos e falas, para
que o relato jornalístico tenha as indispensáveis virtudes da
clareza e da veracidade.
Há quem confunda objetividade com precisão. Pois são coisas
diferentes. Objetividade pertence ao universo das atitudes
mentais. É um conceito de “objeto real”, a ser visto pelo que é,
não pelo que significa. Já a precisão é o resultado do uso
competente de um conjunto de técnicas (de observação e captação)
que servem aos fundamentos da linguagem jornalística, para que
nela seja preservada a natureza da veracidade asseverativa, sua
principal característica.
Mas não há como observar, apurar, depurar e relatar ou
comentar sem a intervenção inteligente de ajuizamentos
valorativos. Que, por sua vez, dependem de critérios subjetivos
- qualquer que seja o texto, da simples notícia à mais complexa
reportagem ou ao mais elaborado editorial.
3. Fraude secular
A crença na objetividade é filha legítima do velho paradigma
que propõe a divisão do jornalismo em classes de textos
opinativos e informativos. E essa é uma fraude teórica
surpreendentemente persistente, já secular. Com a conservação de
tal matriz mentirosa, se esparramam efeitos que, além de
empobrecer o ensino e a discussão do jornalismo, tornam cínicas
as suas práticas profissionais.
Fala-se em separação de opinião e informação como se a
manchete não contivesse um ponto de vista, ou não fosse o
resultado de uma intervenção opinativa provavelmente complexa.
Se não é hipocrisia, é ingenuidade dizer, e tentar convencer
os outras a acreditar, que onde se informa não se opina, como se
isso fosse possível. Ainda por cima, ao se propor essa fronteira
entre opinião e informação, os manuais de redação sugerem que a
opinião pode contaminar perigosamente o noticiário. É uma
abordagem moralista que ilude a opinião pública.
Ora, o que qualquer bom jornalista procura fazer, em seu
trabalho? Boas reportagens, boas entrevistas, boas notícias,
bons editoriais, boas fotos.
Narrando ou argumentando, entregam-se à arte de associar os
fatos às idéias, o essencial ao secundário, a aparência à
essência, o particular ao geral, os dados às emoções, os
acontecimentos à reflexão, os sintomas ao diagnóstico, a
observação à explicação, o pressuposto à aferição.
A boa obra jornalística resulta, portanto, da relação interativa
entre informação e opinião – uma relação dialética, estratégica,
carregada de subjetividades.
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O jornalismo não se divide em opinião e informação, mas se
constrói com informação e opinião, tanto nos esquemas da
narração (para relatar os fatos) quanto nos esquemas da
argumentação (para comentar os fatos). O que existe, e se
deveria estudar com seriedade, é a divisão entre esquemas
narrativos e esquemas argumentativos – ambos com informação e
opinião, em proporções e estratégias diferenciadas. |