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O XIS DA QUESTÃO – A competência do
trabalho as fontes produz um desequilíbrio na qualidade
da informação jornalística, porque o vigor jornalístico
dos discursos particulares tornou os jornais
intelectualmente preguiçosos, acomodados, e
empresarialmente pragmáticos, de olho nos cifrões. Para
salvar o jornalismo, alguma coisa terá de mudar, com
urgência, nos três lados: nas fontes, nas redações e nas
empresas jornalísticas.
1. Fotocópias
A transformação nos modos de concepção e produção do
jornalismo, produzida por aquilo que chamo de “revolução
das fontes”, pode ser sentida, cada vez mais, na leitura
diária dos jornais. Ou seja: no final do percurso da
Notícia. Hoje (quinta-feira, 20/04), por exemplo, medi o
tempo ocupado com a leitura dos dois diários que assino.
Percorri, em ambos, uma quantidade equivalente de
cadernos e páginas. Tentei dedicar igual interesse a
cada um dos jornais. E aconteceu o seguinte: com a
leitura do primeiro, consumi cerca de 50 minutos; já a
leitura do segundo se esgotou em 10 minutos,
aproximadamente.
Para desvendar o porquê da discrepância, paciente e
metodicamente, repassei e comparei as páginas. Editoria
por editoria. E confirmei o óbvio: a segunda leitura foi
drasticamente abreviada pela repetição de conteúdos, e
até de formas. Em alguns casos, aqui e ali, mudavam os
critérios de edição e diagramação das matérias. Mas a
essência dos relatos era a mesma, os sentidos atribuídos
aos fatos e falas se repetiam. Em alguns momentos, na
leitura do segundo jornal, parecia ter à minha frente
uma fotocópia do jornal concorrente, lido antes.
Entretanto, o que ali estava à minha frente, como
objeto do meu interesse, era a manifestação de um mundo
vibrante de conflitos importantes, em boa parte dos
quais se joga com o destino de pessoas, comunidades e
instituições. Conflitos em que gente de poder e querer
luta por dinheiro, poder, espaço, prestígio, direitos,
idéias, ideais, sonhos e ambições. Por meio do que se
diz e faz para ser notícia, luta-se para viver e
sobreviver, para mudar o mundo ou para mantê-lo como
está.
Nos jornais de cada dia se manifesta – e por isso à
sua leitura voltamos diariamente - a fantástica dinâmica
social e cultural de, pela notícia, produzir
transformações na realidade e na vida das pessoas.
Dinâmica nutrida e controlada por sujeitos sociais
institucionalizados, inseridos nos processos
jornalísticos, hoje alargados para bem além das
redações.
De forma competente e (por que não dizer?) legítima,
os sujeitos institucionais da atualidade se apropriaram
da linguagem jornalística, assumindo plenamente, com
vigor acional, o seu papel de produtores de conteúdos –
e por conteúdos se entenda: acontecimentos, falas,
revelações, produtos, saberes e serviços com relevância
jornalística.
Essas são as fontes de hoje, radicalmente diferentes
daquelas que, trinta, quarenta anos atrás, nós,
repórteres, tínhamos de seduzir, para que falassem.
Outros tempos, outros problemas...
2. Questão complexa
Este assunto não pode ser reduzir à simplista
discussão corporativa sobre que tipo de profissional
deve trabalhar em assessoria de imprensa, se jornalista
ou relações públicas. A filiação sindical não avaliza o
saber nem a competência de quem quer que seja. Mesmo em
países onde o jornalista é obrigado a se desligar do
sindicato para exercer funções em assessorias, a
carteira fica no sindicato, sim, mas com o profissional
vão, aonde quer que ele vá trabalhar, a competência, o
saber, as convicções e o conhecimento especializado que
lhe abrem as portas do mercado. Entretanto, os
sindicatos de jornalistas se esvaziam, como organismos
representativos. Porque o mercado da comunicação
institucional cresce em todo o mundo, não apenas no
Brasil.
A reflexão a ser feita tem a ver com as
complexidades, as imbricações e os problemas novos do
jornalismo, na sua fisionomia atual. E com os papéis que
lhe cabem, nas teias informacionais dos tempos atuais.
O poder conquistado pelas fontes é inquestionável e
irreversível. Diria até que, além de inquestionável e
irreversível, é crescente, porque as instituições
investem cada vez mais na aquisição de competência
comunicacional.
Estive há dias em Natal, para fazer a palestra de
encerramento do I Congresso Norte-Nordeste de
Comunicação Empresarial e Pública. Falei para uma
platéia de pelo menos 150 profissionais. Para conhecer o
público que me iria ouvir, pedi que se identificasse
quem era jornalista, relações públicas ou publicitário.
Mais de três quartos da platéia era de jornalistas. E
deve haver alguma boa razão para que assim seja.
A mim, e à questão que proponho, pouco interessa,
porém, o fato de os profissionais da área serem
jornalistas, relações públicas, publicitários ou de
outras carreiras (e os há). O que interessa é a
qualidade do trabalho que realizam e os efeitos que esse
trabalho projeta nos modos de pensar e fazer jornalismo.
Fiquei impressionado com a sofisticação de alguns
projetos e procedimentos. Mas fiquei também alarmado com
o tecnicismo e o racionalismo que move a comunicação
institucional, na busca de resultados em cujas medições
e avaliações nem como hipótese se levam em conta os
ganhos da sociedade. Importam, apenas, os interesses de
imagem e negócios das organizações – que, diga-se de
passagem, são interesses legítimos e, em apreciável
proporção dos casos, socialmente valiosos.
3. Rumos para mudanças
Trata-se de um cenário irreversível. Mas que produz
um desequilíbrio na qualidade da informação
jornalística, porque impõe às redações o vigor de
discursos particulares irrecusáveis. Que são
simplesmente reproduzidos.
Ou seja: o vigor jornalístico dos discursos particulares
tornou as redações intelectualmente preguiçosas,
acomodadas. E as empresas jornalísticas ficaram
perigosamente pragmáticas, de olho apenas nos cifrões.
Alguma coisa terá de mudar, nos três lados.
Das organizações geradoras de conteúdos, as chamadas
fontes, espera-se, no mínimo, que o discurso da
responsabilidade social se estenda à qualidade e à
função da divulgação jornalística.
Das empresas jornalísticas se exige, com urgência
crescente, que encontrem maneiras de as razões do lucro
servirem ao jornalismo, em vez de o estrangularem.
Às redações, é preciso dizer que está na hora de
acordarem e reassumirem o controle sobre a narração
jornalística, sua maior e mais bela tarefa. Na verdade,
nunca as redações foram tão bem servidas de conflitos,
protagonistas, contextos e conteúdos. Acabem, portanto,
com a preguiça e os lamentos. E façam jornalismo de
verdade. |