É possível salvar o jornalismo

Carlos Chaparro

 

O XIS DA QUESTÃOA competência do trabalho as fontes produz um desequilíbrio na qualidade da informação jornalística, porque o vigor jornalístico dos discursos particulares tornou os jornais intelectualmente preguiçosos, acomodados, e empresarialmente pragmáticos, de olho nos cifrões. Para salvar o jornalismo, alguma coisa terá de mudar, com urgência, nos três lados: nas fontes, nas redações e nas empresas jornalísticas.

1. Fotocópias

A transformação nos modos de concepção e produção do jornalismo, produzida por aquilo que chamo de “revolução das fontes”, pode ser sentida, cada vez mais, na leitura diária dos jornais. Ou seja: no final do percurso da Notícia. Hoje (quinta-feira, 20/04), por exemplo, medi o tempo ocupado com a leitura dos dois diários que assino. Percorri, em ambos, uma quantidade equivalente de cadernos e páginas. Tentei dedicar igual interesse a cada um dos jornais. E aconteceu o seguinte: com a leitura do primeiro, consumi cerca de 50 minutos; já a leitura do segundo se esgotou em 10 minutos, aproximadamente.

Para desvendar o porquê da discrepância, paciente e metodicamente, repassei e comparei as páginas. Editoria por editoria. E confirmei o óbvio: a segunda leitura foi drasticamente abreviada pela repetição de conteúdos, e até de formas. Em alguns casos, aqui e ali, mudavam os critérios de edição e diagramação das matérias. Mas a essência dos relatos era a mesma, os sentidos atribuídos aos fatos e falas se repetiam. Em alguns momentos, na leitura do segundo jornal, parecia ter à minha frente uma fotocópia do jornal concorrente, lido antes.

Entretanto, o que ali estava à minha frente, como objeto do meu interesse, era a manifestação de um mundo vibrante de conflitos importantes, em boa parte dos quais se joga com o destino de pessoas, comunidades e instituições. Conflitos em que gente de poder e querer luta por dinheiro, poder, espaço, prestígio, direitos, idéias, ideais, sonhos e ambições. Por meio do que se diz e faz para ser notícia, luta-se para viver e sobreviver, para mudar o mundo ou para mantê-lo como está.

Nos jornais de cada dia se manifesta – e por isso à sua leitura voltamos diariamente - a fantástica dinâmica social e cultural de, pela notícia, produzir transformações na realidade e na vida das pessoas. Dinâmica nutrida e controlada por sujeitos sociais institucionalizados, inseridos nos processos jornalísticos, hoje alargados para bem além das redações.

De forma competente e (por que não dizer?) legítima, os sujeitos institucionais da atualidade se apropriaram da linguagem jornalística, assumindo plenamente, com vigor acional, o seu papel de produtores de conteúdos – e por conteúdos se entenda: acontecimentos, falas, revelações, produtos, saberes e serviços com relevância jornalística.

Essas são as fontes de hoje, radicalmente diferentes daquelas que, trinta, quarenta anos atrás, nós, repórteres, tínhamos de seduzir, para que falassem. Outros tempos, outros problemas...
 
2. Questão complexa

Este assunto não pode ser reduzir à simplista discussão corporativa sobre que tipo de profissional deve trabalhar em assessoria de imprensa, se jornalista ou relações públicas. A filiação sindical não avaliza o saber nem a competência de quem quer que seja. Mesmo em países onde o jornalista é obrigado a se desligar do sindicato para exercer funções em assessorias, a carteira fica no sindicato, sim, mas com o profissional vão, aonde quer que ele vá trabalhar, a competência, o saber, as convicções e o conhecimento especializado que lhe abrem as portas do mercado. Entretanto, os sindicatos de jornalistas se esvaziam, como organismos representativos. Porque o mercado da comunicação institucional cresce em todo o mundo, não apenas no Brasil.

A reflexão a ser feita tem a ver com as complexidades, as imbricações e os problemas novos do jornalismo, na sua fisionomia atual. E com os papéis que lhe cabem, nas teias informacionais dos tempos atuais.

O poder conquistado pelas fontes é inquestionável e irreversível. Diria até que, além de inquestionável e irreversível, é crescente, porque as instituições investem cada vez mais na aquisição de competência comunicacional.

Estive há dias em Natal, para fazer a palestra de encerramento do I Congresso Norte-Nordeste de Comunicação Empresarial e Pública. Falei para uma platéia de pelo menos 150 profissionais. Para conhecer o público que me iria ouvir, pedi que se identificasse quem era jornalista, relações públicas ou publicitário. Mais de três quartos da platéia era de jornalistas. E deve haver alguma boa razão para que assim seja.

A mim, e à questão que proponho, pouco interessa, porém, o fato de os profissionais da área serem jornalistas, relações públicas, publicitários ou de outras carreiras (e os há). O que interessa é a qualidade do trabalho que realizam e os efeitos que esse trabalho projeta nos modos de pensar e fazer jornalismo.

Fiquei impressionado com a sofisticação de alguns projetos e procedimentos. Mas fiquei também alarmado com o tecnicismo e o racionalismo que move a comunicação institucional, na busca de resultados em cujas medições e avaliações nem como hipótese se levam em conta os ganhos da sociedade. Importam, apenas, os interesses de imagem e negócios das organizações – que, diga-se de passagem, são interesses legítimos e, em apreciável proporção dos casos, socialmente valiosos.

3. Rumos para mudanças

Trata-se de um cenário irreversível. Mas que produz um desequilíbrio na qualidade da informação jornalística, porque impõe às redações o vigor de discursos particulares irrecusáveis. Que são simplesmente reproduzidos.
Ou seja: o vigor jornalístico dos discursos particulares tornou as redações intelectualmente preguiçosas, acomodadas. E as empresas jornalísticas ficaram perigosamente pragmáticas, de olho apenas nos cifrões. Alguma coisa terá de mudar, nos três lados.

Das organizações geradoras de conteúdos, as chamadas fontes, espera-se, no mínimo, que o discurso da responsabilidade social se estenda à qualidade e à função da divulgação jornalística.

Das empresas jornalísticas se exige, com urgência crescente, que encontrem maneiras de as razões do lucro servirem ao jornalismo, em vez de o estrangularem.

Às redações, é preciso dizer que está na hora de acordarem e reassumirem o controle sobre a narração jornalística, sua maior e mais bela tarefa. Na verdade, nunca as redações foram tão bem servidas de conflitos, protagonistas, contextos e conteúdos. Acabem, portanto, com a preguiça e os lamentos. E façam jornalismo de verdade.


20/4/2006
  Jonas S. Marcondes [20/04/2006 - 18:52]

O próprio jornalismo pode se salvar, se quiser, porque ele mesmo está se enterrando. Bastaria que os donos da imprensa permitissem mais liberdade ou , por outro lado , se se inserir um estatuto do jornalista.

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