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Boris Casoy pede o
impeachment
de Lula
Em artigo
arrasador, na Folha de São Paulo de hoje, o jornalista Boris
Casoy pede o impeachment de Lula. Vale a pena ler, reproduzir
e enviar para o maior número de pessoas. Vale a pena traduzir
e remeter para blogs, sites e jornais do exterior. Junto com o
artigo de Miriam Leitão, publicado em O Globo na semana
passada (sob o título "Inaceitável") o texto de hoje de Casoy
representa a manifestação indignada da sociedade brasileira
aos desmandos de um governo sem legitimidade, que deixou de
ser uma instância pública para se transformar no aparelho de
um grupo privado que se comporta como uma gangue política.
É uma
vergonha!
Boris Casoy
Folha de S.
Paulo
28/03/06
Jamais o
Brasil assistiu a tamanho descalabro de um governo. Quem se
der ao trabalho de esmiuçar a história do país certamente
constatará que nada semelhante havia ocorrido até a gestão do
atual ocupante do Palácio do Planalto. Há, desde o tempo do
Brasil colônia, um sem número de episódios graves de corrupção
e de incompetência. Mas o nível alcançado pelo governo Lula é
insuperável.
Não se trata de um ou
de alguns focos de corrupção. Vai muito além. Exibe notável
desprezo pelas liberdades e pela democracia. Manipula a
máquina administrativa a seu bel-prazer, de modo a colocar o
Estado a favor de sua inesgotável sanha de poder. Um exemplo
mais recente é a ação grotesca contra um simples caseiro,
transformado em investigado por dizer a verdade depois de ser
submetido a uma ação de provocar náuseas em qualquer
stalinista.
Não se investiga o
ministro Palocci, acusado de freqüentar um
bunker
destinado a operar negócios escusos em Brasília e de ter
mentido a respeito ao Congresso. Tenta-se, a qualquer preço,
desqualificar a testemunha para encobrir o óbvio. E o
desespero da empreitada conduziu a uma canhestra operação que
agora o governo pretende encobrir, inclusive intimidando o
caseiro.
Do presidente da
República, sob a escusa pueril de dever muito a Palocci
(talvez pela conquista do troféu dos juros mais altos do mundo
e pelo crescimento ridículo do PIB), só se ouve a defesa pífia
dos que não conseguem dissimular a culpa. A única providência
das autoridades federais foi um simulacro de investigação, com
a cumplicidade da Caixa Econômica Federal. Todos os limites
foram ultrapassados; não há como o Congresso postergar um
processo de impeachment contra Lula. Ou melhor, a favor do
Brasil.
O argumento para não
afastar Lula, de que sua gestão vive os últimos meses, é um
auto-engano! A proximidade das eleições faz com que o governo
use e abuse ainda mais do poder. Desde o início, este governo
é envolvido na compra de consciências, na lubrificação da alma
de órgãos de comunicação por meio de gigantescas verbas
publicitárias e de perseguir os que lhe negam aplauso.
Outro argumento usado
para não afastar Luiz Inácio Lula da Silva é a sua biografia,
a saga do trabalhador, do sindicalista que chegou a
presidente. Ora, aquele metalúrgico já não existe há muito
tempo. Sua legenda enferrujou. Foi tragado por sua verdadeira
figura, submetido a uma metamorfose às avessas.
As razões legais para
o processo de impeachment gritam no artigo 85 da Constituição,
que versa sobre os crimes de responsabilidade do presidente.
Basta ler os seguintes motivos
constantes da Carta Magna para que o Congresso promova o
processo de impeachment de Lula: atentar contra o livre
exercício do Poder Legislativo, contra o livre exercício dos
direitos individuais ou contra a probidade da administração.
Seguem alguns exemplos ilustrativos.
No "mensalão", fato
que Lula tentou transformar em um pecadilho cultural da
política brasileira, reside um grave atentado contra o livre
funcionamento do Congresso Nacional. A compra de consciências
não só interferiu na vida do Poder Legislativo como também
demonstrou a disposição petista de romper a barreira entre a
democracia e o autoritarismo, utilizando a máxima de que os
fins justificam os meios.
Jamais as
instituições bancárias estatais foram tão agredidas. O Banco
do Brasil teve seu dinheiro colocado a serviço de
interesse escusos; a Caixa
Econômica Federal também, demonstrando que o sigilo bancário
de seus depositantes foi posto à mercê da pilantragem
política.
No escândalo dos
Correios, mais que corrupção, foi posto a nu, além do assalto
aos cofres públicos, um cuidadosamente urdido esquema de
satrapias destinado a alimentar as necessidades pecuniárias de
participantes da mesma viagem. Como costuma acontecer nesses
casos, o escândalo veio à tona na divisão do botim.
Causa perplexidade,
também, a maneira cínica com que o governo tenta se defender,
usando todos os truques jurídicos para criar uma carapaça que
evite investigações de suspeitas gravíssimas em torno do
presidente do Sebrae, o generoso Paulo Okamotto, pródigo em
cobrir gastos do amigo Lula - sem que ele saiba. Aliás, ele
nunca sabe de nada...
Lula passará à
história, além de tudo, como alguém que procurou amordaçar a
imprensa com a tentativa da criação de um orwelliano
"conselho" nacional de jornalismo e com uma legislação para o
audiovisual, que tentou calar o Ministério Público pela Lei da
Mordaça e que protagonizou uma pueril tentativa de expulsar do
país um correspondente estrangeiro que lhe havia agredido a
honra.
Neste momento grave,
o Congresso Nacional não pode abdicar de suas
responsabilidades, sob o perigo de passar à história como
cúmplice do comprometimento irreversível do futuro do país. As
determinantes legais invocadas para o processo de impeachment
encontram, todas elas, respaldo nos fatos.
Mas, infelizmente, na
Constituição brasileira falta uma razão que bem melhor poderia
resumir o que estamos assistindo: Lula seria o primeiro
presidente a sofrer impeachment não apenas pela prática de
crimes de responsabilidade mas também pelo ímpar conjunto de
sua obra.
Boris Casoy, 65, é
jornalista. Foi editor-responsável da Folha de 1974 a 76 e de
1977 a 84. Na televisão, foi âncora do TJ Brasil (SBT) e do
Jornal da Record (Rede Record).
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