CONCORRÊNCIA IGNORA CALENDÁRIO

Da Reportagem local

Se você já ia dizer que “no seu tempo” as coisas eram diferentes e que depois do dia 15 de dezembro nem adiantava procurar emprego, pode até dar certo.

Há alguns anos o período era considerado “morno”. Mas as empresas têm tido urgência em contratar os melhores antes da concorrência. “Nos últimos cinco anos, dezembro não tem sido calmo. As efetivações, até em cargos-chave, continuam”, afirma Denise End Kamel, da Selectus.

Para João Rodrigues Canadá Filho, 46, diretor-executivo do Grupo Foco, traços de cultura do brasileiro foram modificados. “Pensávamos em época de festa como sinônimo de desligar completamente, mas isso mudou.”

A diretora-adjunta de RH do BankBoston, Denise Asnis, diz que o banco não vê este período como “entressafra”. “Continuamos os processos como se fosse apenas um feriado, já tivemos a experiência de entrevistar candidatos na semana do Natal”, diz.

E não é só no setor privado. Concursos públicos, que oferecem bom número de vagas, dão continuidade às inscrições. E alguns, como o da Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações), devem ter início ainda este ano.

Papai Noel existe

Patrícia Reis Mota, 23, auxiliar administrativa da Acesita, recebeu um “bom presente”no Natal passado. “Comecei a trabalhar no meio de dezembro, quando já tinha decidido parar e procurar só  depois do Ano Novo. Quando me ligaram, fiquei surpresa e pensei ‘Papai Noel existe’”, lembra.

Segundo ela, “pode ser até mais fácil procurar vaga nesta época, já que a concorrência diminui”.

Mas nem todos se surpreendem ao serem chamados para começar a trabalhar agora. Samir Redona Jorge, 27, gerente de Norton Tecnologies, que estréia no novo emprego amanhã, diz que tudo correu como o planejado. “Estava fora do mercado havia dois meses, e minha expectativa era a de conseguir algo ainda este ano.”


CONTRATAÇÕES NÃO TÊM PAUSA DE FINAL DE ANO

Paulo Lago/Reportagem Local

Procurar emprego no final do ano é tarefa difícil quanto caminhar pelos corredores dos shoppings. Claro, as oportunidades diminuem, mas processos seletivos  continuam em andamento, concursos são abertos, e muitos candidatos contratados.

Antonio Stelzer, 28, diretor comercial da Gelre(consultoria de recursos humanos), espera um crescimento de 30% no número de vagas em dezembro em relação ao mesmo período de 99.

“Os recrutamentos existem, e, apesar de não serem grandes projetos, esta é uma época em que surgem vagas temporárias e faltam profissionais”, diz Stelzer.

Uma explicação para essa dificuldade está, muitas vezes relacionada ao fator idade. “Como as oportunidades são principalmente para jovens, é complicado convencer um universitário a voltar da praia e trabalhar durante o reveillon, por exemplo.”

“Para David Ivy, sócio sênior da Korn Ferry, como o candidato fica à mercê dos empregadores, aguardando um chamado, pode até pensar em viajar com a família nesta época.  “Desde que passe às empresas onde estiver participando de processos de seleção um número de telefone em que seja facilmente encontrado”, avisa.

Não são só os estudantes que preferem adiar a busca de emprego para o início do novo ano. Mozart Amaecing Langbeck, gerente de consultoria da Deloitte Toche Tohmatsu, afirma que muitos profissionais vêem a época como um período improdutivo.

“Ledo engano, pois é o momento em que as companhias definem o comportamento estratégico do próximo ano fiscal, o que pode provocar mudanças e mostrar a necessidade de contratação.”

“Apesar das férias coletivas, o setor de planejamento segue trabalhando. Muitas decisões são tomadas nos bastidores”, completa.

Sem férias coletivas

O número de oportunidades pode, inclusive, superar as expectativas. Na Manager, também da  área de RH, o mês de dezembro de 98 foi considerado inexpressivo, com queda de até 50% do número de vagas em relação a novembro daquele ano. Em 99, a empresa havia decidido dar férias coletivas para todos.

“Mas tivemos de desistir. Dezembro foi aquecido, trabalhamos com 186 vagas e chegamos a receber outras até na manhã do dia 24”, conta Ricardo de Almeida Prado Xavier, presidente da consultoria, que busca hoje 277 profissionais - 40% mais que em 99.

Caderno de Empregos/Folha de S. Paulo, domingo, 17 de dezembro de 2000, pág. 3


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