
Awakening Customers
O consumidor da era de vacas magras
Por Felipe Rosito
Como sabemos, o mundo está passando por uma grande
crise. E essa crise não diz respeito apenas à falta de
empregos, oportunidades e dinheiro. É uma crise também
de valores. Talvez uma grande revolução que seremos
forçados a viver. Mas nem tudo está perdido. Se é
verdade que em toda crise existem novas oportunidades,
chegou o momento de conhecer quem possivelmente é o
nosso mais novo público-alvo.
Sacrifice will become simplicity (o sacrifício se
tornará simplicidade). Essa é a mais nova premissa do
marketing mundial. As pessoas que foram afetadas pela
crise vão mudar os seus padrões de consumo, optando por
uma vida mais “simples”. Com a falta de dinheiro e a
incerteza sobre o futuro, a palavra de ordem é segurar a
onda na hora de consumir. Algumas famílias vão apreciar
esse nível de simplicidade no seu dia-a-dia, procurando
atividades mais caseiras, trazendo um novo sentido à
vida em família. Receitas tradicionais, como uma pizza
em casa seguida de um filme no DVD, vão ganhar
popularidade e haverá uma rejeição do consumo de
produtos percebidos como poluentes, principalmente no
segmento de carrões de luxo.
O consumidor tradicional irá questionar o que a sua
marca está fazendo. Algumas teorias empresariais pregam
que é hora de dar a ele menos opções, como vem fazendo a
Patagônia, que reduziu algumas linhas de produtos. As
marcas serão avaliadas conforme a sua pró-atividade em
resolver questões sobre desenvolvimento sustentável,
evidenciando o equilíbrio do uso dos recursos naturais
para a produção de produtos de consumo.
Mas não é só nas empresas que a mudança está
ocorrendo. Cada vez mais o comportamento das pessoas na
hora de comprar algo seguirá o seguinte raciocínio:
“Será que eu preciso disso?”. Em tempos de crise, os
produtos também se transformam. Hummers vão passar de
automóveis de “pessoas VIP” para “OVSP (Official Vehicle
of Stupid People – veículo oficial de pessoas
ignorantes).
Entretanto, o consumo de alto escalão ainda existirá,
porém com um foco diferenciado. Sai o produto de status
e entra o que realmente merece um preço mais alto,
principalmente no que se refere aos bens duráveis.
Resumindo: o luxo, antes fator de diferenciação, acaba
de se tornar supérfluo.
Outra “novidade” que a crise está trazendo é um novo
senso de participação das pessoas na sociedade. Com a
recessão econômica e os escassos recursos financeiros, a
colaboração e o espírito de solidariedade estarão em
evidência. Um grande senso de comunidade irá emergir,
substituindo o conceito de globalização por humanidade,
assumindo o meio ambiente como nosso lar.
Concluindo, por mais incrível que possa parecer, a
nova possível quebra de paradigmas da vida em sociedade
partirá novamente de um momento de recessão, e não de
fartura, como vivemos nos últimos quatro anos em escala
global. Mesmo com tanto dinheiro circulando em épocas
prósperas, não conseguimos erradicar a miséria do mundo
por pura falta de interesse. Só para termos uma ideia,
se os 20 países mais ricos do mundo doassem apenas 0,6%
do seu PIB, tiraríamos da miséria 1,1 bilhão de pessoas.
Mas quem sabe essa crise não tenha surgido justamente
para questionarmos esse modo insustentável de vida? De
agora em diante, o mundo empresarial terá quatro pilares
da sustentabilidade (simplicidade, igualdade,
responsabilidade e comunidade) totalmente baseados nas
pessoas.
Essa nova visão do mercado vem substituir o atual
Triple Bottom Line, que classifica a atuação das
empresas apenas no desenvolvimento social, ambiental e
empresarial. As marcas mais prósperas no mercado serão
aquelas que conseguirem articular melhor esses valores.
Boa sorte a todos nós!
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Felipe Rosito:
Diretor de criação e coordenador do
Núcleo de Responsabilidade Socioambiental da
Kaapora Comunicação.
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