De A (de apresentação) a Z de Zuenir Ventura, o leitor de Jornalismo é... pode garimpar lições e reflexões sobre a mídia brasileira (informações com a ABA, 011- 283 4588). Reunidos por Nemércio Nogueira, ex-repórter e hoje diretor de uma empresa de relações públicas, 16 jornalistas* explicam como desempenham o seu ofício. Boris Casoy conta sua experiência de âncora no telejornal, Sandro Vaia fala de tempo e instantaneidade, Zuenir Ventura faz o elogio do repórter, Ricardo Setti defende a importância do editor, Juca Kfouri bate redonda a bola do jornalismo esportivo. Quase todos são reconhecíveis na rua. A exceção é Mario Sérgio Conti, o recluso diretor de redação de Veja. Ele não dá entrevistas, não se deixa fotografar, e, se escreve muito, não assina, mas neste livro desvenda com fibra o universo de pressões e paixões de um editor. Selecionamos os parágrafos iniciais da apresentação de Nemércio Nogueira:
São uns tipos solitários os jornaistas, apesar
de viverem intensamente o dia-a-dia dos povos e da gente. Ainda que pareçam
enturmados, por dentro são muito sozinhos, pois a profissão os faz céticos.
Infelizmente não é a sua missão maior buscar boas notícias — porque,
mesmo somando as páginas e minutos de todos os veículos jornalísticos do
mundo, simplesmente não há espaço físico para publicar todas as
novidades agradáveis que ocorrem em qualquer dia. Nem é seu métier falar
bem de todos os milhões de pessoas que merecem elogio diariamente. Também
não há espaço para tanto. Vida de jornalista, por isso, é proclamar não
a rotina e sim sua quebra, que em geral é trágica. Remexer crimes,
investigar desonestidades, denunciar injustiças, cobrir o desastre.
Mergulhados em más notícias, não admira que sejam céticos, com calos na
sensibilidade — por isso, lá no âmago, profundamente solitários. Por
outro lado, quanto mais alta a função, quanto mais influente sua coluna ou
veículo, mais intensas também as tentativas de pressão/sedução de todo
tipo se exercem sobre o jornalista. E mais acendrada se torna então essa
solitude profissional, traduzida agora em couraça de defesa, ainda que
camuflada de simpatia pessoal, ironia, humor, riso.
Tudo isso onera, pesa na alma. Eu, porém, não trocaria por qualquer outra
a vivência que tive como jornalista. E aposto que nenhum dos autores deste
livro a trocaria, tampouco. Faz bem à cabeça trabalhar na imprensa. Acho
até que, se fosse possível, todas as pessoas deveriam atuar algum tempo
como jornalistas. Tipo serviço militar obrigatório. Seriam mais
desiludidas, talvez, mas certamente enxergariam mais claramente a realidade.
* Boris Casoy, Célia Pardi, Cláudia de Souza, Diléa Frate, Jânio
de Freitas, José Nêumanne Pinto, Juca Kfouri, Lilian Witte Fibe, Luis
Nassif, Mário Sérgio Conti, Ricardo Noblat, Ricardo Setti, Salomão Esper,
Sandro Vaia, Sonia Racy, Zuenir Ventura.
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Boletim Nº 18 Setembro-Outubro de 1997