Comunicação corporativa – que
novidade é essa?
Ana Beatriz Benites Manssour
Não se
assuste, comunicação corporativa não é uma nova ciência ou nova
modalidade de comunicação. Na verdade, para nós, relações-públicas, o
que tem de mais novo é mesmo o nome. Quem já ouviu falar ou já
aprendeu alguma coisa sobre comunicação
organizacional ou comunicação empresarial, não está longe da
comunicação corporativa.
O que ocorre
é que a expressão “corporativa” entrou na moda. Enquanto até
uns anos atrás se usava organização ou empresa para nos referirmos ao
conjunto de todas as divisões de uma instituição, hoje, em função da
ascendência inexorável das multinacionais, que geralmente são de
origem estrangeira e que têm cada vez mais filiais espalhadas pelo
mundo, passou-se a dizer corporação. Em termos de Brasil, nada mais
natural. Afinal, não é necessário sermos grandes analistas
antropológicos e lingüísticos para sabermos que as expressões
americanas, ou, pior, americanizadas, são uma verdadeira febre
nacional. Em inglês, corporation nada mais é do que “uma
empresa de negócios”, conforme o velho e bom dicionário Oxford (5th
edition, p. 260).
Então, vamos deixar claro, desde
já, que comunicação corporativa, comunicação organizacional e
comunicação empresarial são sinônimos e que assim serão utilizados
neste artigo.
Os princípios da comunicação
organizacional não mudaram muito ao longo do tempo. Trata-se da gestão
da comunicação estratégica da organização, ou seja, o planejamento e a
administração dos relacionamentos da empresa pela utilização dos
princípios da comunicação social, com o objetivo de construir e manter
a identidade, imagem e reputação empresariais perante todos os seus
públicos. Dessa forma, considera-se a empresa como um todo, um corpo
único, que, embora formado de diferentes partes, segue (ou deveria
seguir) os parâmetros determinados pelo caráter e personalidade que a
caracterizam e orientam todas as suas ações e reações.
A comunicação corporativa,
portanto, segue ocupando-se da análise do ambiente em que a empresa se
insere, identificando e conhecendo as especificidades dos diversos
públicos com os quais se relaciona. Desenvolve estratégias de
comunicação adequadas para atingirem esses públicos e possam deles
auferir resultados alinhados aos objetivos organizacionais, sem perder
de vista o movimento cada vez mais veloz de constante mudança no mundo
globalizado. A diferença, entretanto, da antiga para a nova
comunicação empresarial, encontra-se na evolução e revolução constante
das necessidades e expectativas dos públicos, que deixaram de ter o
posicionamento passivo e condescendente do início do século vinte,
para assumir, demonstrar e manifestar suas vontades, exigências ou
mesmo carências e demandar atenção cada vez mais individualizada.
As principais funções da
comunicação corporativa são reconhecidas (ARGENTI, 2006) como sendo as
de 1) gerenciamento da reputação, 2) propaganda corporativa e ações
que beneficiem a sociedade, 3) relações com a mídia, 4) comunicação de
marketing, 5) comunicação interna, 6) relações com os investidores, 7)
responsabilidade social, 8) relações com o governo e 9) gerenciamento
de crise. Embora estejam, assim, categorizadas, facilmente se observa
que há uma estreita inter-relação entre esses conceitos, uma vez que
são interdependentes apesar de conservarem suas características
específicas.
Em cada uma das situações citadas
pode-se verificar algumas mudanças de foco. Quando se fala em
gerenciamento da reputação, o que fica mais claro é que,
embora a imagem organizacional ainda seja a menina dos olhos da
comunicação empresarial, – e, portanto, das relações públicas, o
conceito ampliou-se muito. Enquanto a imagem é baseada principalmente
na percepção dos públicos em relação a uma organização, e que,
portanto, pode ser “maquiada” para garantir maior aceitação, a
reputação baseia-se na credibilidade da empresa no mercado, no correr
de uma linha de tempo que remonta às suas origens. Hoje, dá-se muito
mais relevância a questões como caráter, personalidade, coerência,
honestidade, valores morais, do que à simples “aparência” externa,
embora esta precise estar em harmonia com aqueles, em nome da
consistência do conjunto de informações. Estranho seria, por exemplo,
se um executivo de uma empresa, que se propõe a comprometer-se com a
defesa do meio ambiente, fosse fotografado numa festa calçando um
sapato de couro de jacaré.
Quanto à função propaganda
corporativa e ações que beneficiem a sociedade, vê-se que
cada vez mais as organizações apercebem-se da necessidade de
desenvolver ações voltadas para a sociedade, sem cunho comercial,
comprometendo-se com a cidadania num sentido amplo, como parceiros dos
gestores da área pública. A realidade menos favorecida de muitos
países nos quais as multinacionais mantêm filiais ou sucursais
torna-se um estímulo à conscientização das grandes corporações em
relação ao seu papel de apoio às políticas e projetos governamentais,
especialmente aqueles voltados para a saúde, saneamento básico,
educação e cultura. Dessa forma, é cada vez mais comum ver-se
propagandas de diferentes empresas em diversos meios de comunicação,
apoiando campanhas de vacinação, de controle de pragas, incentivo à
leitura e atenção à qualidade de vida, por exemplo.
Ao se falar de relações com
a mídia, a primeira idéia que nos vem à mente é a das
assessorias de imprensa, muitas vezes terceirizadas, com a propagação
quase indiscriminada de releases
Imagine quão satisfeito você
ficaria se as empresas enviassem mensagens para sua casa e depois
ficassem telefonando para saber se você as recebeu. Pois é.
Jornalistas também não gostam disso!
E aí que encontramos o foco do
relacionamento com a mídia, que bem além da assessoria de imprensa,
que tem um cunho mais comercial e impositivo. Pretende estabelecer
relações mutuamente positivas, em que a empresa se posicionará como
uma fonte de informações confiáveis e de expertise na sua área de
atuação para a mídia, e a mídia como uma parceira, capaz de ampliar e
diversificar o alcance das informações sobre a empresa que auxiliarão
na formação de opinião do público quanto à sua imagem e reputação.
Todos sabemos que quem tem a
incumbência de trabalhar a concepção, demanda, determinação de preços,
promoção e distribuição de produtos e serviços é o profissional de
marketing - que em inglês é a “teoria e prática de apresentação,
publicidade e venda de bens” – (OXFORD, p. 718). Entretanto,
comunicação de marketing, é a orientação e
acompanhamento das ações de marketing, de maneira que estejam
alinhadas com as políticas e diretrizes estratégicas de comunicação
organizacional, evitando distorções que poderiam confundir a opinião
pública em relação à identidade, imagem e reputação da empresa.
Trata-se de um trabalho interno de parceria para manter a harmonia e
congruência da comunicação com o objetivo comum de alcançar resultados
organizacionais positivos, tanto financeiros quanto institucionais.
Em tempos de globalização, de
acesso quase ilimitado à informação, de maior nível de formação e
especialização dos trabalhadores nas organizações, o chamado “público
interno” é hoje muito mais consciente do próprio valor enquanto ativo
humano e principal agente das atividades da organização, e, portanto,
diretamente relacionado à capacidade da empresa gerar lucro e difundir
sua imagem e reputação no mercado. Por isso, a comunicação
interna encontra-se num novo patamar em que as ações voltadas
a esse público precisam estar ancoradas num mesmo núcleo estratégico
de comunicação, considerando não só o corpo funcional como um todo,
mas também os diferentes segmentos e individualidades. Mais uma vez, a
coerência na comunicação é imprescindível, de maneira que os
funcionários tenham, na prática, as mesmas possibilidades de receber,
enviar e buscar informações da organização, e que sejam reconhecidos e
tratados como viabilizadores do sucesso e da continuidade da empresa.
As relações com os
investidores também não são novidade. Todavia, o perfil dos
investidores mudou muito nos últimos anos e têm-se desde grandes
instituições financeiras até pessoas físicas dentro desse segmento de
público. Em conseqüência, surgiu a necessidade de diversificar a
linguagem e as formas de relacionamento, de maneira mais direcionada,
adaptando-se o modo e os meios de divulgação das informações de acordo
com as características e expectativas de cada tipo de investidor. Isso
implica em monitorar e atender permanentemente as necessidades e
interesses dos investidores, de maneira a, além dos resultados
financeiros, proporcionar-lhes também um ambiente de confiança que dê
estabilidade à organização em casos de eventuais crises.
Sabe-se que uma das palavras de
ordem dos nossos tempos é a responsabilidade social.
A crise econômica que assola uma grande parte dos governos de vários
países trouxe à tona a sua incapacidade de gerir com exclusividade as
necessidades das populações, especialmente as de menor poder
aquisitivo. Com isso, as organizações passaram a assumir parte dessa
responsabilidade, através de políticas, projetos e ações sociais nas
mais variadas áreas, inclusive a ambiental, como forma de contribuir
para a melhoria da qualidade de vida da população, evitar um colapso
ecológico de proporções globais e garantir a própria sobrevivência.
Essa é mais uma função da comunicação corporativa, uma vez que planos
de responsabilidade social devem invariavelmente estar de acordo com
as políticas e diretrizes estratégicas da organização e têm influência
direta na formação e manutenção da identidade, imagem e reputação
empresariais.
As relações com o governo
sempre tiveram importância estratégica nas organizações. Uma simples
alteração numa lei que tenha impacto sobre as atividades da empresa
pode gerar uma crise e até dificultar a continuidade das operações.
Dessa forma, estabelecer e manter boas relações com as entidades
governamentais e seus representantes, colaborando com os mesmos em
termos de informações, pesquisas, opiniões de especialistas,
relatórios, são atribuições inerentes à comunicação corporativa, ao
lado do permanente e transparente cumprimento das obrigações legais da
organização, que garantem-lhe a boa vontade mínima por parte do
governo para incrementar o relacionamento.
A cada dia observa-se que
catástrofes, incidentes, acidentes e outros acontecimentos inesperados
ocorrem com maior freqüência e com amplitude de impacto cada vez
maior, muito por causa da mundialização da economia e da agilidade com
que as informações perpassam os continentes. Qualquer que seja o
evento desafortunado, os riscos de uma crise se desencadear são
enormes, e, dependendo da forma como for administrada, pode levar a
empresa ao seu fim. O gerenciamento de crise, ou
gerenciamento da comunicação de crise, tem papel
fundamental na administração da crise. O planejamento com antecedência
de como, quando e com quem agir em situações extremas é prioritário,
pois no momento em que acontecem, a improvisação é o pior caminho. O
raciocínio precisa ser muito rápido e há excesso de informações e
preocupações das mais diversas origens circulando, o que dificulta a
clareza para a tomada de decisões e cujos efeitos podem ser
prejudiciais e até fatais para imagem e reputação organizacionais.
Todas essas funções da comunicação
corporativa, como pode ser visto acima, têm influência umas sobre as
outras e precisam ser regidas como se fossem diferentes instrumentos
de uma mesma orquestra. E justamente por isso precisam estar reunidas
sob a batuta de um mesmo regente, que, nas grandes corporações costuma
ser conhecido como Assessoria de Comunicação Corporativa. Certamente,
se você for ouvir um concerto, notará que alguma coisa está errada se
um ou mais instrumentos estiverem tocando em outro tom, ou às vezes
até uma outra música. A dissonância ou estridência machucará o seu
ouvido e o seu conceito sobre aquela orquestra – ou banda – será
afetado. Provavelmente você nunca mais gastará um centavo para comprar
uma entrada para apresentações dela. E ainda aconselhará familiares e
amigos a fazerem o mesmo. Você já pensou que com isso poderá estar
decretando o fim de carreira do conjunto? Não é à toa que existem
bandas que surgem meteoricamente num mês e desaparecem antes de o ano
acabar. O mesmo se aplica às corporações!
Então, só para lembrar o título,
comunicação corporativa não é novidade nenhuma. É apenas o
aprimoramento dos nossos conhecimentos e da prática da comunicação
empresarial de acordo com os novos tempos e com as novas nomenclaturas
em voga. Relações Públicas na cabeça!