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Na
estrada do desenvolvimento
Com
forte investimento no aperfeiçoamento da comunicação
e dos produtos, a Fiat brasileira promove a excelência
na construção de sua imagem institucional.
Nara Damante e Paulo Nassar
Investir em treinamento,
desenvolvimento e produção de automóveis de
qualidade tem sido a meta da Fiat ao longo de sua
permanência no Brasil. Mais que isso, a montadora
vem fazendo um trabalho de responsabilidade social
em sua comunidade em Minas e também com seus
funcionários. Com o dever de casa cumprido, a
montadora está expandindo essa atuação para
outros mercados, inclusive com o recente apoio à
Fundação Cafu, que atende crianças carentes no
bairro do Jardim Irene, em São Paulo. Mesmo diante
da alta dos preços dos automóveis no Brasil e da
crise financeira da matriz italiana, os
investimentos da Fiat no Brasil estão mantidos para
que a montadora se fortaleça cada vez mais na região
da América Latina. Mas o leque de notícias boas da
Fiat tem superado as mensagens negativas, garante
Marco Antônio Lage, diretor de comunicação
corporativa da Fiat, empresa que conquistou o título
de uma das melhores empresas para se trabalhar,
segundo o Guia Exame, e também a Empresa do Ano, do
Prêmio ABERJE Brasil 2002. Lage é mineiro de
Itabira, formado em jornalismo pela PUC/MG, com
mestrado em engenharia de produção e marketing
estratégico, pela Universidade Federal de Santa
Catarina. Foi redator de jornais diários em Belo
Horizonte e da revista Visão, tendo passado pela
gerência de comunicação do Sebrae/MG em 1991. No
ano seguinte, transferiu-se para a assessoria de
imprensa da Fiat. Em 1997, assumiu a gerência de
comunicação da Fiat e dois anos depois, a área
ganhou o status de diretoria. Para falar sobre a
estratégia que vem posicionando a Fiat como uma das
empresas de excelência em comunicação no Brasil,
Lage nos concedeu a seguinte entrevista:
Comunicação Empresarial (CE) - Qual é a linha
mestra da Fiat em comunicação? Qual a estrutura
que gera o sistema de relacionamento do grupo com
seus vários públicos?
Marco Antônio Lage - Do ponto de vista interno é a
coerência, mas nós trabalhamos com uma linha
mestra geral dentro da equipe que é a da ética e
da transparência. Nós acreditamos que esta
filosofia de trabalho parte também dos
profissionais de comunicação. As empresas, de uma
maneira geral, devem entender a comunicação como
uma atividade que tem de chegar ao mundo externo,
sair da companhia com absoluta ética e transparência.
Essa é uma exigência da sociedade moderna.
CE - Como é construída essa capilaridade? Que
estrutura existe para se criar esse modelo?
Lage -Temos uma forma de envolver todos os setores
da empresa transversalmente nas várias atividades
para que a organização inteira viva e conviva com
o mundo da comunicação. E esse é um aspecto
fundamental: que a comunicação não chegue a
reboque e que ela não seja percebida em apenas
alguns momentos por determinadas áreas da
companhia. Ela tem que ser percebida a todo momento.
Isso chama-se criar cultura. O diretor industrial de
uma empresa como a minha tem de perceber a comunicação
no dia-a-dia. E assim sucessivamente perante as
demais áreas da empresa. Nós dividimos a estrutura
organizacional em núcleos. O departamento de
comunicação corporativa da Fiat é responsável
por toda a atividade de relacionamento com a
imprensa, eventos, lançamentos de produtos e serviços,
com as relações públicas, a promoção do
relacionamento com a comunidade local e toda a
atividade de responsabilidade social do terceiro
setor. Além das áreas de memória e de banco de
dados da empresa, que também estão sob nossos
cuidados. Assim nos relacionamos com os diversos públicos:
imprensa fundamentalmente; concessionários, porque
são parceiros essenciais, que se relacionam
diretamente com o cliente na ponta da linha;
fornecedores, que também são importantes do ponto
de vista corporativo; os colaboradores, que são
formadores de opinião e tem de vivenciar todos os
aspectos de comunicação; e, naturalmente, o
consumidor final, a
comunidade.
CE - Por que a imprensa ocupa o papel fundamental ou
prioritário para a Fiat?
Lage - Porque por meio da imprensa buscamos esse
trabalho ético, de transparência. É pela imprensa
que se consegue mostrar para a sociedade - e para
todos os outros públicos - o que é a empresa, o
que ela está fazendo, quais produtos possui, por
que e onde está se posicionando, qual a opinião
sob determinados temas etc. Mas isso não significa
que você não tenha de desenvolver atividades de
comunicação específicas para esses outros públicos,
nem que se tenha que utilizar a imprensa como
ferramenta. A Fiat é responsável pelo trabalho de,
pelo menos, 20 mil pessoas diretamente, ou de 120
mil famílias que vivem em função dela. É também
uma empresa com grande responsabilidade em relação
ao consumidor porque constrói carros para a
mobilidade de milhares de clientes em todo o Brasil.
É uma empresa que está permanentemente se
comunicando com a sociedade e que atrai muito a atenção
da imprensa porque tem muitas informações
importantes que repercutem em todos os aspectos,
sejam eles de produto, economia, recursos humanos,
industrial, da responsabilidade social.
CE - Uma vez você declarou que a Fiat tinha não só
um trabalho de assessoria de imprensa mas também o
de auxiliar as pautas, contribuindo para a melhora
da qualidade editorial dos veículos. Com isso,
promoviam até cursos de mecânica para jornalistas.
Qual a estratégia e o resultado disso?
Lage - O resultado é muito bom porque vem de uma
postura da empresa de ser de fato uma extensão das
redações, ou seja, ter, em primeiro lugar, ética
e transparência, senão com pouco tempo se perde a
credibilidade e a confiança dos interlocutores.
Depois, temos de estar prontos para prestar informações
sobre a empresa a todo momento com a agilidade que
as redações exigem. Também temos de estar prontos
para prestar serviço para essas redações com
informações técnicas e não necessariamente que só
digam respeito à própria empresa. Por exemplo, no
caso da Fiat, temos no departamento de comunicação
um engenheiro trabalhando full time para atender à
imprensa especializada no que diz respeito às questões
técnicas. Sabemos que o turn over nas redações é
alto, há jornalistas jovens que estão ingressando
no tema e que, muitas vezes, se deparam com uma
determinada dúvida ao escrever uma matéria. E se
ele não encontra apoio, uma fonte de informação
segura e de credibilidade, vai transmitir informações
equivocadas, comprometendo até sua carreira e
reputação do jornal.
CE - Existe uma tese do professor Manuel Chaparro,
da USP, sobre a revolução das fontes, na qual ele
argumenta que as empresas estão mais bem preparadas
para atender às solicitações da imprensa que os
jornalistas a efetuar seu trabalho. Foi a partir
dessa premissa que surgiu a idéia da Fiat?
Lage - Não é tanto pela falta de preparo dos
jornalistas, mas principalmente dos mais jovens, que
estão começando a carreira e precisam desse
suporte. Entendemos que precisávamos criar um núcleo
no qual pudéssemos dar informações precisas e
oferecer algum tipo de embasamento, como é o caso
do curso de mecânica. Percebemos que muitas
mulheres jornalistas estão cobrindo o setor
automobilístico na imprensa especializada, que era
um segmento totalmente dominado por homens até bem
pouco tempo. Sabíamos que elas eram excelentes
jornalistas, mas que trabalhavam sem conhecimento técnico
do tema. Então, desenvolvemos o curso de mecânica
para mulheres absolutamente independente, sem vínculo
com a nossa assessoria, e acreditamos que é uma
contribuição aos jornalistas.
CE - Algumas das ações de comunicação da Fiat no
Brasil servem como referência para outros países
do mundo Fiat. Quais são essas elas?
Lage - Por exemplo, nunca fazemos um evento sem uma
mensagem. O lançamento de um produto é uma grande
festa, tradicionalmente, um encontro onde se
apresenta o produto com pompa e circunstância. Nós
buscamos trabalhar esses eventos, mas utilizando-os
como uma ferramenta de comunicação. Trazemos
sempre uma mensagem forte e isso é um aspecto que
atraiu as atenções dos nossos pares na Europa.
Outro aspecto é a comunicação integrada, que
temos desenvolvido com muita velocidade na Fiat
Automóveis. O início é sempre muito difícil, mas
nós conseguimos hoje, depois de um ano e meio de
trabalho nessa área, realmente consolidar uma política
de comunicação integrada onde todas as áreas de
comunicação se falam permanentemente, seja
comunicação social, corporativa, publicitária,
interna ou marketing e área de produto. Os
departamentos, nas grandes empresas, tendem a
trabalhar isoladamente, o que gera o risco muito
grande de falta de coerência e unidade na comunicação.
Então, nossos eventos de lançamento e a comunicação
integrada têm sido benchmark. No início do ano,
fomos convidados a participar do encontro de todas
as áreas de comunicação do grupo Fiat no mundo e,
pela primeira vez, alguém de um outro País teve
uma participação efetiva. Mostramos o trabalho que
o Brasil vem desenvolvendo na área de comunicação
para que as outras unidades da Fiat no mundo, como
Portugal, Espanha, Tchecoslováquia, África do Sul,
China, Polônia e Índia pudessem, de alguma maneira
e respeitando suas peculiaridades culturais,
assimilar alguma iniciativa ou filosofia nova de
trabalho.
CE - Como a Fiat promove a integração da comunicação
institucional, comunicação mercadológica e
recursos humanos?
Lage - Criamos o comitê de comunicação integrada,
que se reúne a cada 15 dias e, nas reuniões,
colocamos os principais temas da companhia, sejam
eles de produtos, serviços ou institucional que
envolvam comunicação e crises (eventuais ou possíveis).
Esses sistemas são discutidos e, a partir daí,
cria-se um projeto de comunicação único,
respeitando todas as abordagens de nosso
departamento e trazendo um briefing único. A
comunicação com a imprensa define o projeto a
partir disso, assim como a publicidade, cada um
respeitando as exigências mercadológicas e
comerciais de cada diretoria. Esse comitê definiu
que nunca uma informação pode sair de dentro para
fora sem que seja difundida internamente. Temos
ainda um envolvimento de todo o comitê diretivo da
empresa - presidente e todos os diretores - na
discussão das propostas do comitê de comunicação
integrada.
CE - Como funciona essa agilidade na comunicação
interna? No caso de acontecer um fato ou uma
circunstância não planejada, como essa estrutura
se mobiliza numa situação de emergência?
Lage - Dependendo da questão, o próprio diretor de
recursos humanos, presidente ou superintendente pode
tomar uma decisão. A agilidade é uma característica
da Fiat e também a da autonomia de cada diretoria.
Mas a agilidade tem buscado respeitar a visão de
todas as áreas de comunicação para que não haja
nenhuma interferência depois. As questões são
levadas ao comitê e imediatamente passadas para o
interno da empresa e, a partir daí, deflagra-se o
processo de comunicação geral. Na publicidade, por
exemplo, comprometida com as vendas, leva-se muito
em conta o impacto que uma campanha vai ter junto ao
consumidor, mas por vezes se esquece o efeito do
ponto de vista da imagem corporativa. Hoje, na Fiat,
pensamos muito nisso.
CE - Como as áreas de comunicação e recursos
humanos dividem a responsabilidade da comunicação
interna?
Lage - Não vemos nenhum problema na comunicação
interna estar vinculada ao RH e acho até que
agiliza porque a partir do momento em que o
departamento de comunicação está vinculado à
fonte primária - que é a área de RH, no caso da
comunicação interna - dá agilidade na tomada de
decisões. Se você tem uma cultura de busca de coerência
com as outras comunicações, como acontece na Fiat,
isso facilita e evita desastres. Como filosofia da
Fiat, a comunicação interna é de mão dupla. A
Fiat sempre informa, fala e ouve. Ela tem mecanismos
para levar informação para os funcionários, mas
também o caminho tem volta. Temos as ferramentas
tradicionais de ida, como a revista semanal Expresso
Fiat; a mensal Fiat em Família, direcionada à família
dos funcionários; os boletins semanais; o quadro de
avisos. E há aquelas ferramentas de contato direto
por meio das quais, sobretudo, se ouve muito, como
os programas Bom Dia, em que os empregados se reúnem
todos os dias para discutir temas do trabalho e da
própria comunicação; o Café, em que diariamente
um executivo senta-se à mesa com profissionais de
todos os níveis da empresa, estabelecendo uma
comunicação de mão dupla; o Antenas, que faz com
que os empregados colaborem com o processo de
comunicação, havendo até um telefone especial
para que ele sugira uma pauta ou passe uma informação.
Isso significa a participação ativa do piso da fábrica
até no processo de comunicação interna.
CE - O panorama mundial aponta para uma retração
do mercado no setor automobilístico. Como a Fiat
lida com demissões de pessoal e como fica o clima
organizacional diante dessas situações?
Lage - É importante que o empregado acompanhe passo
a passo a situação para que ele tenha de fato
informações sobre a realidade do mercado e da
empresa. A pior coisa é quando o funcionário está
mal informado. Felizmente, a Fiat não tem passado
por demissões. Apesar dos momentos adversos, a
empresa não costuma repor turn over e desenvolve
alternativas, como paradas técnicas, que muitas
vezes oneram o custo de produção da empresa, mas
que no aspecto social são significativos. Ou
promovemos férias coletivas. Demissão não é a
palavra de ordem diante de crise. No mercado interno
brasileiro, existe hoje um nível de ociosidade de
50% na indústria automobilística e nem por isso a
Fiat promoveu demissões em massa.
CE - A Fiat foi apontada algumas vezes como uma das
melhores empresas para se trabalhar, pelo Guia
Exame. A satisfação dos funcionários traz que
tipo de responsabilidade para a empresa? Qual o
resultado em termos de imagem interna e externa? Ela
influencia no valor das ações, por exemplo?
Lage - O resultado dentro da empresa é de um
orgulho muito grande, uma paixão imensa pelo
trabalho. O Estado de Minas historicamente tinha
predominantemente atividades de extrativismo mineral
e agropecuária. A chegada da Fiat mudou o perfil da
economia mineira e representa 10% do PIB de Minas
Gerais. Então, o funcionário da Fiat é importante
na comunidade dele porque difunde o orgulho de fazer
parte de um time vencedor. Internamente é uma sensação
de participação muito grande e a Fiat investe
muito em formação de pessoal. No aspecto externo,
as menções à Fiat também foram muito benéficas.
Em responsabilidade social, há um projeto voltado
para a educação e a cidadania com jovens e crianças
nas escolas do Brasil inteiro. Isso é muito
importante, mas nós entendemos que responsabilidade
social começa dentro da empresa, ou seja, tratar
bem os funcionários, dar a eles não só salários,
mas visão e futuro, treinamento, formação,
entretenimento, enfim, cobrir todos os aspectos que
o Estado não atinge. O fato de o próprio funcionário
da Fiat ter definido junto a essa pesquisa da Exame
que a Fiat é a melhor empresa para se trabalhar no
Brasil foi percebido pelo público externo. Passa a
imagem de uma empresa responsável, que cumpre todos
os compromissos de cidadania e de envolvimento com
os seus funcionários. Quando a empresa recebeu esse
título, entendeu que estava credenciada a ir ao
mercado e falar de cidadania e de responsabilidade
social porque fez muito bem seu dever dentro de
casa.
CE - Esse é um aspecto positivo na imagem da Fiat.
Mas, em novembro, todas as montadoras praticaram um
reajuste de preços de seus automóveis para o
consumidor e o Banco Fiat anunciou um aumento das
taxas de juros de financiamento. E isso pesa
bastante no bolso do consumidor, provocando uma
certa antipatia, mesmo que momentânea no final do
ano. Como a Fiat lida com essas notícias não tão
boas para a imagem da empresa?
Lage - Quando você adota medidas como o aumento de
juros ou de preço, elas têm de ser simplesmente
bem explicadas. Se observarmos os índices
acumulados do ano e até os históricos do setor,
veremos que os aumentos praticados pela Fiat são
menores que os da concorrência. Aumento de preço e
de taxa de juros são sempre notícia ruim para o
consumidor, mas ele entende se explicarmos com
clareza. O consumidor não está alienado das questões
macroeconômicas do País. Cada vez mais no Brasil
cresce o conceito de consumidor cidadão, aquele
que, além da qualidade e do preço do produto,
analisa também a reputação da marca. Isso é algo
que observamos e temos investido muito em mostrar
porque uma marca bem sucedida, socialmente responsável,
é uma marca de boa reputação. Ao comunicar um
aumento de preço, é importante que essa informação
seja calçada com o que motivou a empresa a elevar
os preços e chegar àqueles índices. Quando se
consegue demonstrar que a empresa não está tirando
proveito de uma situação de mercado para aumentar
suas margens, mantém um relacionamento forte com o
consumidor.
CE - O Brasil ainda é o segundo maior mercado para
a Fiat, depois da Itália?
Lage - Ainda é. Apesar da crise e da queda do
mercado, a Fiat continua apostando muito no Brasil.
Para se ter uma idéia, ela acaba de confirmar
investimentos de US$ 1 bilhão até o ano de 2006 e
mais R$ 400 milhões em pesquisa e tecnologia para
transformar o Brasil num pólo de desenvolvimento
automotivo. É um projeto de longo prazo que
demonstra a consolidação da Fiat no País e também
que a empresa acredita no mercado brasileiro.
CE - As montadoras terão prejuízos em suas operações
no Brasil neste ano. Já na Itália, a Fiat vem
enfrentando uma crise com greves de funcionários e
intervenção do governo. De que modo a comunicação
é impactada por essa baixa no caixa da companhia?
Apesar da situação da Fiat na Itália, esses
investimentos estão confirmados para o Brasil?
Lage - A Fiat no Brasil é intocável em relação
à crise da matriz. O setor automobilístico vive em
crise no mundo inteiro e quase todas as empresas estão
com problema de fluxo de caixa e de mercado, mas a
estratégia da Fiat mundial é preservar os
investimentos no Brasil para que se fortaleça cada
vez mais no mercado latino-americano. E a unidade da
Fiat no Brasil é um pólo responsável por toda
essa região, do México ao Chile.
CE- Como vem se mantendo o investimento em comunicação
em relação aos anos anteriores?
Lage -A empresa está percebendo cada vez mais a
comunicação como uma atividade estratégica e vem
aumentando seus investimentos. A Fiat é uma empresa
que tem uma série de pontos favoráveis no aspecto
de responsabilidade social, relacionamento com seus
funcionários, qualidade do produto, relacionamento
com parceiros, know-how desenvolvido no Brasil,
exportação e está atualizada em relação ao que
há de melhor no mundo no setor automobilístico.
Ela é considerada uma das maiores redes de
concessionárias do mundo inteiro e os fornecedores
estão integrados com a fábrica. Então, se a Fiat
tem tanta coisa boa para mostrar, tanta pauta
positiva, há muito mais soluções que problemas.
Essa crise na Europa é uma questão negativa, mas
que não é suficiente para arranhar a imagem da
empresa no Brasil justamente pela pauta de aspectos
positivos que nós temos. É importante continuar a
investir em comunicação, mostrar à sociedade que
a Fiat é uma multinacional, mas absolutamente
integrada à cultura brasileira, feita por
brasileiros. Há pouco mais de dez italianos hoje na
fábrica de Betim atuando ativamente.
CE - De alguma forma a língua italiana é exigida
ou obrigatória para os profissionais de comunicação
da empresa?
Lage - Sim, é importante porque a Fiat é uma
empresa de origem italiana e há a necessidade de
integração com a matriz. Mas temos um grau alto de
independência, autonomia e, o que é mais
importante, é uma companhia feita por brasileiros.
CE - Quanto foi investido em comunicação em 2002?
Lage - Há uma média de investimentos gerais de US$
250 milhões por ano, não só para comunicação
para o Brasil e América Latina. Envolve o processo
de comunicação, desenvolvimento de produtos, lançamentos
de novos modelos e formação e pessoal. A
publicidade absorve o maior volume de recursos, mas
todas as atividades de comunicação estão incluídas.
CE - A sede da Fiat é em Betim (MG). As atividades
de responsabilidade social estão centradas nessa
comunidade ou a Fiat tem ações de âmbito
nacional?
Lage - As atividades de maior peso começam em Betim
e Belo Horizonte, mas também procuramos desenvolver
ações de âmbito nacional. É preciso ter
atividades sociais em todos os Estados e por isso
fizemos uma escolha, definimos uma política de atuação
social na área de educação para atingir
diretamente o jovem brasileiro e, com isso,
contribuir com a formação do futuro cidadão
brasileiro. A Fiat tem grandes projetos de educação
no trânsito, que envolvem também saúde,
cidadania, meio ambiente. Temos kits escolares,
atingindo 60% das escolas públicas de todos os
Estados e 40% das escolas privadas. Também atuamos
transversalmente nas disciplinas curriculares, com o
apoio e a chancela técnica do Ministério da Educação.
Além do projeto de educação, também tentamos
mostrar aos jovens brasileiros o Brasil que poucos
conhecem, para que eles possam ter um pouco mais de
esperança e acreditar no País.
CE - Na área social, a Fiat desenvolveu uma
parceria com o jogador de futebol Cafu. Quais são
as metas desse projeto?
Lage - Trata-se de um braço desses projetos
sociais. Nós estamos ajudando o jogador Cafu a
viabilizar um sonho dele, um projeto de inclusão
social no Jardim Irene, um dos bolsões de miséria
de São Paulo, onde o Cafu viveu toda a sua infância.
Foi gesto muito bonito dele e merece nossa atenção,
nosso respeito. Afinal, ele é jogador de futebol já
consagrado, chegou a capitão da Seleção
Brasileira, o único a participar de três Copas do
Mundo. No final do jogo da vitória do Brasil na
Copa, como capitão do time, ele ergueu a taça e
chamou a atenção na sua camisa: "100% Jardim
Irene". Ele quis dizer: "olha, o Brasil não
tem só esse futebol bonito, mas também miséria,
problemas sociais muito grandes". Foi um gesto
que entendemos que, ao invés de ser escondido, tem
de ser encarado e as empresas devem participar dessa
realidade. Quando o Cafu chamou atenção para isso,
os jornais do mundo inteiro falaram do Jardim Irene
e do aspecto social do Brasil, juntamente com o
futebol. E nós, como vínhamos de um projeto histórico
de inclusão social junto aos jovens carentes do País
inteiro, na área de educação, nos propusemos a
colaborar com o Cafu nessa iniciativa. Doamos cinco
carros assinados pelos jogadores pentacampeões e
construímos uma rede de colaboradores solidários
(voluntários). Cid Mosca, o artista que pintava o
capacete do Ayrton Senna, deu um tratamento gráfico
diferenciado, transformando os cinco automóveis em
verdadeiras relíquias, carros para colecionadores.
Todos eles vêm com certificado de que as
assinaturas foram autorizadas e de que são
originais. A intenção é conseguir, através do
leilão no website Arremate.com.br, um volume de
recursos suficientes para a construção da sede da
Fundação Cafu no Jardim Irene, que terá aulas
inclusive de informática e servirá para a base do
projeto de cidadania.
CE - Na campanha presidencial, tivemos dois
finalistas com discurso desenvolvimentista e muitos
setores empresariais manifestaram apoio ao
presidente eleito antes mesmo de ele ganhar a eleição.
A Fiat se engajou nesse processo ou se manteve
neutra?
Lage - A Fiat se manteve neutra porque procura agir
de forma correta no País, independente de quem
fosse o eleito. Até porque a Fiat está no mundo
inteiro e convive com regimes de governos
diferentes, com comandos diferentes. A única coisa
que é bastante clara é que a Fiat quer participar
do desenvolvimento do Brasil, gerando empregos e
produzindo muito. Claro que para isso precisa que o
governo adote medidas que façam crescer o mercado
interno, aumentar a exportação. A grande participação
da Fiat é produzir cada vez mais com qualidade e
competitividade para que o Brasil seja excelente
também no setor de automóveis.
CE - Nisso, a comunicação pode também dar sua
contribuição. Quais são as características que
deve ter um profissional de comunicação para esse
novo milênio?
Lage - O profissional de comunicação tem de ser
aberto, versátil, entender globalmente a
necessidade da empresa e da sociedade. Ele não pode
estar focado demais só nas necessidades da empresa.
Cada vez mais ele é o elo da empresa com a
sociedade, tem de ter uma visão de mão dupla. Deve
manter a sua capacidade crítica bastante apurada,
que é uma das principais características do
jornalista. Mas ele tem de buscar experiência em
diversas áreas porque entendo que o conceito de
comunicação integrada vai crescer ainda mais.
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