A Profissão da democracia

Nemércio Nogueira (Qua, 16 de Julho de 2003 16:24)

Começo hoje, atendendo a honroso convite de Gisele Centenaro e Rafael Sampaio, a ocupar mensalmente este espaço com comentários, informações e entrevistas sobre o setor de relações públicas. Mas será que vale a pena? Será que RP tem futuro no Brasil?

Neste ambiente deprimido, nesta paradeira que vivemos atualmente no mercado em geral e em especial no campo da comunicação empresarial, propaganda e mídia, é freqüente a indagação: "E aí? O que você está achando das perspectivas? Será que essa draga vai acabar algum dia?".

Quando me perguntam isso, eu arrosto o ceticismo dos que acham que um otimista é um desinformado com boas intenções e sempre digo que, salvo a ocorrência de algum terremoto imprevisto, o negócio de relações públicas no Brasil está condenado a crescer. E por motivos racionais; nada de wishful thinking.

Em primeiro lugar, sabe-se que, no mundo inteiro, está crescendo o investimento relativo em non-advertising, que abrange RP, ao lado de promoções, marketing direto etc. Nos Estados Unidos, ninguém menos que o respeitado Al Ries provocou recentemente uma polêmica com um livro em que afirma que as estratégias que criam marcas são as de relações públicas, enquanto a propaganda apenas as reforça. Em maio ultimo, na revista Exame, Ries afirmava: "Torno a dizer: propaganda não é comunicação. Você repete e reforça idéias que já estão na mente, sendo que a maior parte delas foi colocada lá pela única atividade que tem credibilidade: relações públicas. O que você diz sobre você mesmo (leia-se publicidade) não tem credibilidade. É apenas o que os outros dizem a seu respeito (relações públicas) que possui credibilidade. As duas funções podem e devem caminhar juntas. Primeiro, a credibilidade da marca é estabelecida pelas relações públicas e, depois, reforçada pela propaganda".

O Brasil não é exceção nesse processo global de crescimento maior dos investimentos em non-advertising do que na propaganda tradicional, que certamente fortalecerá o negócio de relações públicas entre nós.

Além disso, apesar de todos os problemas que estamos cansados de conhecer, o Brasil vem fazendo um grande esforço para passar a ser visto com melhores olhos pelos grandes investimentos - estrangeiros e nacionais - e para começar a caminhar em direção a uma posição de liderança mais explícita da América Latina.

Somando-se a isso o peso atual do mercado brasileiro de consumo (e principalmente seu imenso potencial; quem não se lembra de quando crescemos uma Espanha, em questão de meses, no início da vigência do real?), aumentam as probabilidades de que o Brasil continue a atrair investimentos empresariais - com a conseqüente ampliação do negócio de RP.

A terceira razão de minha confiança é de ordem política. Arriscando-me a ser visto como pretensioso, sempre digo que relações públicas é a profissão da democracia por excelência. Nas ditaduras - de direita ou esquerda, não importa o matiz - até os jornalistas têm emprego, os publicitários fazem seus anúncios, os advogados têm condição de atuar, ainda que com limitações em todos os casos. Mas não há campo para o trabalho de relações públicas em ambientes de governo centralizado, pois neles o que predomina são as relações pessoais. Não interessa a opinião pública, não há grupos de pressão, impera a mordaça geral. O importante, o essencial, é ser amigo do rei, ou do general, ou do ministro mais influente.

No Brasil, porém, nunca na história - à exceção dos poucos anos de Juscelino Kubitschek - houve um período de absoluta liberdade de expressão como o que vivemos crescentemente, desde o governo Sarney. Qualquer um de nós pode dizer, escrever e publicar o que bem entenda, pode lutar por seus interesses pautado apenas pela lei e pela ética, sem temer a mão-de-ferro do totalitarismo.

E as empresas precisam também investir em comunicação de todos os tipos, a fim de conquistar, para si e para suas marcas, algum espaço nos corações e mentes dos consumidores e dos formadores e multiplicadores de opinião - ou, na pior das hipóteses, para defender sua imagem e sua reputação institucional.

Não é por acaso que o mercado de RP nos Estados Unidos é o maior do mundo. Lá, em mais de 200 anos, as liberdades políticas nunca foram cerceadas e o processo democrático nunca sofreu interrupção - bem ao contrário do que aconteceu na história do Brasil, desde a colônia, passando pelo império e atravessando a república. Foi principalmente por essa razão que, lá, o negócio de relações públicas florescia, enquanto, por aqui, vegetava.

Como, entre nós, o negócio de RP esteve mirrado até 18 anos atrás, estrangulado pela ausência da liberdade democrática e pela pequenez da economia e do mercado, para mim fica claro que, no atual cenário, onde se conjugam, de um lado, a plena liberdade de expressão, crítica e choque de interesses e opiniões; e, de outro, a perspectiva de aumento da atividade empresarial (um dia os juros vão cair), relações públicas é o setor da comunicação empresarial que mais chão tem pela frente.

http://www.portaldapropaganda.com/marketing/relacoes_publicas/2003/07/0001