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Começo hoje, atendendo a honroso
convite de Gisele Centenaro e Rafael Sampaio, a ocupar mensalmente
este espaço com comentários, informações e entrevistas sobre o
setor de relações públicas. Mas será que vale a pena? Será que
RP tem futuro no Brasil?
Neste ambiente deprimido, nesta paradeira que vivemos atualmente no
mercado em geral e em especial no campo da comunicação
empresarial, propaganda e mídia, é freqüente a indagação:
"E aí? O que você está achando das perspectivas? Será que
essa draga vai acabar algum dia?".
Quando me perguntam isso, eu arrosto o ceticismo dos que acham que
um otimista é um desinformado com boas intenções e sempre digo
que, salvo a ocorrência de algum terremoto imprevisto, o negócio
de relações públicas no Brasil está condenado a crescer. E por
motivos racionais; nada de wishful thinking.
Em primeiro lugar, sabe-se que, no mundo inteiro, está crescendo o
investimento relativo em non-advertising, que abrange RP, ao lado de
promoções, marketing direto etc. Nos Estados Unidos, ninguém
menos que o respeitado Al Ries provocou recentemente uma polêmica
com um livro em que afirma que as estratégias que criam marcas são
as de relações públicas, enquanto a propaganda apenas as reforça.
Em maio ultimo, na revista Exame, Ries afirmava: "Torno a
dizer: propaganda não é comunicação. Você repete e reforça idéias
que já estão na mente, sendo que a maior parte delas foi colocada
lá pela única atividade que tem credibilidade: relações públicas.
O que você diz sobre você mesmo (leia-se publicidade) não tem
credibilidade. É apenas o que os outros dizem a seu respeito (relações
públicas) que possui credibilidade. As duas funções podem e devem
caminhar juntas. Primeiro, a credibilidade da marca é estabelecida
pelas relações públicas e, depois, reforçada pela
propaganda".
O Brasil não é exceção nesse processo global de crescimento
maior dos investimentos em non-advertising do que na propaganda
tradicional, que certamente fortalecerá o negócio de relações públicas
entre nós.
Além disso, apesar de todos os problemas que estamos cansados de
conhecer, o Brasil vem fazendo um grande esforço para passar a ser
visto com melhores olhos pelos grandes investimentos - estrangeiros
e nacionais - e para começar a caminhar em direção a uma posição
de liderança mais explícita da América Latina.
Somando-se a isso o peso atual do mercado brasileiro de consumo (e
principalmente seu imenso potencial; quem não se lembra de quando
crescemos uma Espanha, em questão de meses, no início da vigência
do real?), aumentam as probabilidades de que o Brasil continue a
atrair investimentos empresariais - com a conseqüente ampliação
do negócio de RP.
A terceira razão de minha confiança é de ordem política.
Arriscando-me a ser visto como pretensioso, sempre digo que relações
públicas é a profissão da democracia por excelência. Nas
ditaduras - de direita ou esquerda, não importa o matiz - até os
jornalistas têm emprego, os publicitários fazem seus anúncios, os
advogados têm condição de atuar, ainda que com limitações em
todos os casos. Mas não há campo para o trabalho de relações públicas
em ambientes de governo centralizado, pois neles o que predomina são
as relações pessoais. Não interessa a opinião pública, não há
grupos de pressão, impera a mordaça geral. O importante, o
essencial, é ser amigo do rei, ou do general, ou do ministro mais
influente.
No Brasil, porém, nunca na história - à exceção dos poucos anos
de Juscelino Kubitschek - houve um período de absoluta liberdade de
expressão como o que vivemos crescentemente, desde o governo
Sarney. Qualquer um de nós pode dizer, escrever e publicar o que
bem entenda, pode lutar por seus interesses pautado apenas pela lei
e pela ética, sem temer a mão-de-ferro do totalitarismo.
E as empresas precisam também investir em comunicação de todos os
tipos, a fim de conquistar, para si e para suas marcas, algum espaço
nos corações e mentes dos consumidores e dos formadores e
multiplicadores de opinião - ou, na pior das hipóteses, para
defender sua imagem e sua reputação institucional.
Não é por acaso que o mercado de RP nos Estados Unidos é o maior
do mundo. Lá, em mais de 200 anos, as liberdades políticas nunca
foram cerceadas e o processo democrático nunca sofreu interrupção
- bem ao contrário do que aconteceu na história do Brasil, desde a
colônia, passando pelo império e atravessando a república. Foi
principalmente por essa razão que, lá, o negócio de relações públicas
florescia, enquanto, por aqui, vegetava.
Como, entre nós, o negócio de RP esteve mirrado até 18 anos atrás,
estrangulado pela ausência da liberdade democrática e pela
pequenez da economia e do mercado, para mim fica claro que, no atual
cenário, onde se conjugam, de um lado, a plena liberdade de expressão,
crítica e choque de interesses e opiniões; e, de outro, a
perspectiva de aumento da atividade empresarial (um dia os juros vão
cair), relações públicas é o setor da comunicação empresarial
que mais chão tem pela frente.
http://www.portaldapropaganda.com/marketing/relacoes_publicas/2003/07/0001 |