Internet derruba TV e jornais nos EUA

Eduardo Graça (*)

Fonte:Direto da Redação

 

O ano chega ao fim com uma série de notícias ruins para os que apostavam na diminuição da importância da internet como um meio estratégico no milionário mundo da informação. Em sua pesquisa bianual, o Instituto Gallup acaba de anunciar que a única fonte de notícia que aumentou seu público leitor nos dois últimos anos aqui nos Estados Unidos foi a Internet. O Gallup mostra que as maiores baixas de audiência, neste ano que passou, foram registradas nos canais de televisão regionais e nos jornais locais. É a força das corporações, cada vez mais presentes em um negócio sufocante e comandando pelos mesmos grupos. A mídia eletrônica não escapou do fenômeno. No mesmo momento em que o Gallup informava que 20% da população norte-americana se mantém informada preferencialmente através dos noticiários que inundam a internet (contra 5% em 1995), o tradicional The Washington Post anunciava a compra da revista Slate (www.slate.com), da Microsoft, pioneira no universo on-line, por alguns milhões de dólares.

A família Graham, que também controla a revista semanal Newsweek, está de olho nesta audiência de cerca de 58 milhões de pessoas que diariamente acompanha do computador o que acontece de mais interessante mundo afora. A Slate é uma espécie de prima pop da Salon, sem pretensões intelectualóides, e conta com um interessante grupo de colaboradores, como Franklin Foer, editor da The New Republic e autor do recente "How Soccer Explains The World". Em entrevista para o NoMínimo, Foer, que lançou seu livro pela Harper Collins, braço editorial do grupo de empresas do magnata Rupert Murdoch, regente do império conservador da Fox, me disse em agosto que, cada vez mais, "é profissionalmente impossível evitar as grandes corporações. Mais dia, menos dia, todos nós, inclusive você, estaremos trabalhando para elas".

De acordo com o memorando anunciado pelos manda-chuvas do The Washington Post, Foer pode dormir tranqüilo. Nenhuma mudança editorial será feita na Slate, que acabara de comemorar oito outonos em sua sede em Seattle. A edição segue sob a batuta de Jacob Eisberg e não haverá redução, ao menos inicialmente, no corpo de 30 jornalistas fixos da revista. Desde julho o jornalão da capital tentava abocanhar a Slate, e teve entre seus concorrentes diretos o The New York Times, que chegou a fazer sua proposta - também não-divulgada oficialmente, como a do Post, mas também na casa dos milhões de dólares - para anexar a revista de Bill Gates. Mas os sinais de que o Post viria a abocanhar a revista ficaram claros já em setembro, quando Melinda Gates, a senhora Bill, sentou cadeira no corpo de conselheiros do jornal dos Graham.

A Slate tem uma visitação diária média que varia entre 4,8 e 6 milhões. O site do The Washington Post conta com uma média de 4,5 a 7 milhões de leitores todos os dias. A incorporação da Slate ao catálogo do jornalão pretende incrementar este número nos dois lados do negócio. Detalhe final que o dá que pensar: a Slate nunca deu lucro algum à Microsoft. Pelo contrário, trata-se de negócio deficitário. Seu valor, o tal estimado em milhões de dólares, é medido em prestígio. Não por acaso as ações do Post, negociadas a US$ 26,95 até segunda-feira, hoje valem algo em torno de US$ 960. Um Feliz Natal e bom Ano Novo para todos vocês que, como o colunista, não possui ações do Post. Quem as têm, certamente, já reservou seu pacote de comemorações de fim de ano em algum resort exclusivo no Caribe. Até 2005.

(*) Foi repórter do Jornal do Brasil, O Dia, Estado de S. Paulo e Valor Econômico. Em TV, foi editor, roteirista e repórter dos canais Brasil e Multishow. Vive atualmente em New York, de onde colabora para jornais e revistas brasileiros.

                       Fonte: Comunique-se 27/12/04