O bom e o mau jornalismo Antonio Monteiro (*)

Fonte:Direto da Redação

 

As ações de dois jornalistas movimentaram os Estados Unidos neste início de ano: Armstrong Williams e Jerry Mitchell. O primeiro por motivos sórdidos e outro por um belo trabalho de reportagem.

O jornalista Williams, negro e conservador, produzia uma coluna para a Tribune Media Services, a qual se encarregava de comercializá-la com várias publicações do país. Ele, porém, caiu em descrédito depois de ter sido desmascarado. Segundo denúncias publicadas no USA Today, o jornalista recebeu US$ 240 mil para promover a lei No Child Left Behind (uma lei defendida pela Casa Branca que visa atender todas as crianças dos EUA, mas que é seriamente contestada por vários educadores do país) junto à população negra do país. Não se sabe ao certo porque ele foi escolhido para esta, digamos, “missão”. Talvez pelo fato de ser uma voz conservadora e simpático ao Partido Republicano, num universo majoritariamente favorável aos democratas, formado pelos negros americanos.

O acerto feito entre o Departamento de Educação dos EUA e Armstrong Williams foi intermediado pela agência de Relações Públicas Ketchum, uma das maiores do mundo. O próprio jornalista admitiu o erro e fez seu mea culpa. Mesmo sendo sincero, perdeu toda credibilidade. Tanto que a empresa para qual produzia o material rescindiu seu contrato. Ele cruzou a tênue linha entre seriedade e oportunismo e isto foi fatal para sua carreira. Ninguém mais pode confiar em suas opiniões.

O bom exemplo fica por conta de Jerry Mitchell, repórter de 45 anos do Clarion-Ledger de Jackson, Mississippi, que através de um apurado trabalho investigativo levou a polícia a capturar Edgar Ray Killen, de 79 anos, pastor e líder da proscrita organização racista Ku Klux Klan, como o mandante e incitador dos assassinatos de Michael Schwerner, Andrew Goodman e James Chaney em 1964. Os dois primeiros eram jovens brancos de Nova York que foram para o sul do país para cadastrar os negros como votantes. Chaney era o jovem negro que atuava como guia para os novaiorquinos.

Eles foram vítimas de uma emboscada depois de terem sido detidos por um policial (também membro da Ku Klux Klan), que os prendeu durante algum tempo. O suficiente para que os integrantes da seita se organizassem e os perseguissem. Os três foram retirados do veículo, executados e enterrados. O carro em que viajavam foi incendiado para ocultar provas incriminatórias.

Esse caso terrível foi retratado no filme "Mississippi Burning" (Mississippi em Chamas), estrelado por Gene Hackman. Aliás, após ter visto o filme, em 1989, ao lado de Bill Minor, outro repórter e ativista de direitos humanos e dois agentes do FBI, Mitchell decidiu entrar com tudo na investigação. Os quatro dissecaram o crime e o próprio Mitchell reconheceu que algo precisava ser feito para corrigir aquela injustiça. Na verdade, Killen foi levado a julgamento em 1967, mas inocentado por um júri composto apenas por pessoas brancas.

Em sua cruzada contra os remanescentes da Ku Klux Klan, ele conseguiu publicar uma reportagem que incriminava Byron de la Beckwith pelo assassinato do líder negro Megar Evers. O caso foi reaberto pela viúva de Evers, Beckwith foi levado a julgamento e condenado à prisão perpétua em 5 de fevereiro de 1994.

Novamente, num furo de reportagem, ele entrevistou Sam Bowers, sábio imperial da KKK. Bowers admitiu ter obstruído a justiça e reconheceu estar feliz por ser condenado, desde que o principal instigador da matança (Killen) também fosse punido. Mitchell entrevistou novas testemunhas e jurados que integraram o júri de 1964, os quais declararam ter decidido pela condenação de Killen por 11 votos a 1. Uma jurada, no entanto, disse que ela nunca poderia condenar um pastor.

Agora, foi marcada uma nova data para o julgamento: 28 de março de 2005. Dependendo do resultado, Killen poderá passar o resto de sua vida na prisão. E Mitchell mostra que o bom repórter não aceita a versão oficial dos fatos. Investiga as pistas e checa as informações dando aos leitores e às autoridades outra visão do ocorrido. Muitas vezes, a correta. (*) Jornalista

                       Fonte: Comunique-se 17/01/04