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As ações de dois jornalistas movimentaram os Estados
Unidos neste início de ano: Armstrong Williams e Jerry
Mitchell. O primeiro por motivos sórdidos e outro por um belo
trabalho de reportagem.
O jornalista Williams, negro e conservador, produzia uma
coluna para a Tribune Media Services, a qual se encarregava de
comercializá-la com várias publicações do país. Ele, porém,
caiu em descrédito depois de ter sido desmascarado. Segundo
denúncias publicadas no USA Today, o jornalista recebeu US$
240 mil para promover a lei No Child Left Behind (uma lei
defendida pela Casa Branca que visa atender todas as crianças
dos EUA, mas que é seriamente contestada por vários
educadores do país) junto à população negra do país. Não
se sabe ao certo porque ele foi escolhido para esta, digamos,
“missão”. Talvez pelo fato de ser uma voz conservadora e
simpático ao Partido Republicano, num universo
majoritariamente favorável aos democratas, formado pelos
negros americanos.
O acerto feito entre o Departamento de Educação dos EUA e
Armstrong Williams foi intermediado pela agência de
Relações Públicas Ketchum, uma das maiores do mundo.
O próprio jornalista admitiu o erro e fez seu mea culpa.
Mesmo sendo sincero, perdeu toda credibilidade. Tanto que a
empresa para qual produzia o material rescindiu seu contrato.
Ele cruzou a tênue linha entre seriedade e oportunismo e isto
foi fatal para sua carreira. Ninguém mais pode confiar em
suas opiniões.
O bom exemplo fica por conta de Jerry Mitchell, repórter
de 45 anos do Clarion-Ledger de Jackson, Mississippi, que
através de um apurado trabalho investigativo levou a polícia
a capturar Edgar Ray Killen, de 79 anos, pastor e líder da
proscrita organização racista Ku Klux Klan, como o mandante
e incitador dos assassinatos de Michael Schwerner, Andrew
Goodman e James Chaney em 1964. Os dois primeiros eram jovens
brancos de Nova York que foram para o sul do país para
cadastrar os negros como votantes. Chaney era o jovem negro
que atuava como guia para os novaiorquinos.
Eles foram vítimas de uma emboscada depois de terem sido
detidos por um policial (também membro da Ku Klux Klan), que
os prendeu durante algum tempo. O suficiente para que os
integrantes da seita se organizassem e os perseguissem. Os três
foram retirados do veículo, executados e enterrados. O carro
em que viajavam foi incendiado para ocultar provas incriminatórias.
Esse caso terrível foi retratado no filme "Mississippi
Burning" (Mississippi em Chamas), estrelado por Gene
Hackman. Aliás, após ter visto o filme, em 1989, ao lado de
Bill Minor, outro repórter e ativista de direitos humanos e
dois agentes do FBI, Mitchell decidiu entrar com tudo na
investigação. Os quatro dissecaram o crime e o próprio
Mitchell reconheceu que algo precisava ser feito para corrigir
aquela injustiça. Na verdade, Killen foi levado a julgamento
em 1967, mas inocentado por um júri composto apenas por
pessoas brancas.
Em sua cruzada contra os remanescentes da Ku Klux Klan, ele
conseguiu publicar uma reportagem que incriminava Byron de la
Beckwith pelo assassinato do líder negro Megar Evers. O caso
foi reaberto pela viúva de Evers, Beckwith foi levado a
julgamento e condenado à prisão perpétua em 5 de fevereiro
de 1994.
Novamente, num furo de reportagem, ele entrevistou Sam
Bowers, sábio imperial da KKK. Bowers admitiu ter obstruído
a justiça e reconheceu estar feliz por ser condenado, desde
que o principal instigador da matança (Killen) também fosse
punido. Mitchell entrevistou novas testemunhas e jurados que
integraram o júri de 1964, os quais declararam ter decidido
pela condenação de Killen por 11 votos a 1. Uma jurada, no
entanto, disse que ela nunca poderia condenar um pastor.
Agora, foi marcada uma nova data para o julgamento: 28 de
março de 2005. Dependendo do resultado, Killen poderá passar
o resto de sua vida na prisão. E Mitchell mostra que o bom
repórter não aceita a versão oficial dos fatos. Investiga
as pistas e checa as informações dando aos leitores e às
autoridades outra visão do ocorrido. Muitas vezes, a correta.
(*) Jornalista
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