13 de janeiro de 2005 262ª EDIÇÃO EDIÇÃO SEMANAL

Especial
O EMPREGO ESTÁ SE MUDANDO PARA O INTERIOR


* Ana Paula Ruiz

O crescimento industrial das pequenas cidades é aparente, e isso está mudando o mapa do emprego no Brasil. Hoje em dia, é considerada antiga a idéia de que as melhores oportunidades de trabalho estão nas grandes cidades, nas metrópoles, nos grandes centros urbanos. Algumas delas continuam lá, mas nestes mesmos paraísos de trabalho estão a competitividade, o grande número de faculdades formando profissionais e a alta taxa de desemprego.

Mas, em compensação, está sendo criado hoje um paraíso de igual prazer profissional, porém com uma menor pressão exercida pela competição. Estamos falando sobre as pequenas cidades, sobre o interior dos estados. E não é de hoje que esta mudança está ocorrendo! Depois do inchaço populacional dos grandes centros devido à migração intensa de pessoas em busca de oportunidades de emprego, o fluxo industrial passou a influenciar o crescimento das cidades menores.

O interior está puxando o crescimento do emprego industrial no Estado de São Paulo, por exemplo. Um levantamento recente feito pelo Centro das Indústrias do Estado de São Paulo mostra que o ritmo de crescimento do emprego industrial é mais forte no interior do que na região metropolitana. Uma amostra desta diferença é a cidade de Piracicaba, onde o emprego industrial avançou 10,2% no último ano. No mesmo período, o emprego industrial cresceu apenas 1,8% na cidade de São Paulo.

Algumas cidades do interior já registram uma situação de pleno emprego. É o caso de Birigui, hoje considerada a capital da indústria do calçado infantil. Lá, são importados cerca de 6.000 empregos por ano. Existe trabalho, mas falta mão-de-obra na cidade. O mesmo levantamento mostra que a indústria de transformação paulista abriu 7.080 vagas em outubro, um aumento de 0,4% no nível de emprego. No ano, o avanço foi de 5,2%. Nos últimos 12 meses, o incremento foi de 5%. O levantamento foi feito junto a 1.710 empresas instaladas em 33 regiões do estado, que representam 93% do emprego industrial de São Paulo.

Os executivos estão preferindo o interior à capital! Entre os estímulos estão o custo de implantação de uma unidade produtiva, o custo da mão-de-obra e a qualidade de vida. Ainda segundo o Ciesp, o salário médio no interior tem uma diferença de 20 a 50% em relação à capital, o que não é muito significativo, pois o custo de vida por lá também é menor. Viver em algumas cidades chega a ser 40% mais barato do que viver em São Paulo. Muitas vezes, o funcionário do interior ganha menos do que na capital, mas tem uma qualidade de vida melhor, segundo a pesquisa.


Por exemplo, você já ouviu falar no município de Timbó?

Localizado no Vale do Itajaí, em Santa Catarina, trata-se de uma região tradicionalmente industrial. Antigamente, a cidade oferecia mão-de-obra para Blumenau, grande centro urbano que durante muito tempo atraiu pessoas em busca de crescimento profissional e financeiro. Mas a indústria cresceu em Timbó e o cenário hoje é diferente. Um exemplo é a empresa Butzke, especializada na fabricação de móveis de madeira. Somente no último ano, a empresa contratou 100 novos funcionários, totalizando 450 pessoas empregadas. E a empresa segue em ritmo constante de crescimento. Hoje, a indústria local ajuda a manter a população da cidade empregada e ainda cria mão-de-obra para cidades vizinhas, como Rodeio, Indaial e Benedito Novo.

A empresa investe na qualificação de seus funcionários, oferecendo cursos de treinamento e programas educacionais, que exigem uma verba média anual de 125 mil reais. O treinamento vai desde a alfabetização de 1ª a 4ª série para 34 funcionários até o financiamento de 50% de cursos de graduação e pós-graduação para 26 funcionários dos setores administrativos. E para 2005, está nos planos da empresa expandir mais seu quadro de produção, que hoje contrata com política salarial baseada nas grandes empresas da região, além de muitos benefícios. A idéia é construir uma fábrica para trabalhar retalhos de madeira, fabricando peças pequenas. Mais promessa de emprego em Timbó!


A cidade que trocou a roça pela tecnologia e acabou com o desemprego

Santa Rita do Sapucaí, no interior de Minas Gerais, é outro exemplo que vale ser destacado. A cidade se tornou centro de referência em tecnologia. Um exemplo de empreendedorismo, apesar de ter tudo para ser uma típica cidade de interior. Com investimentos em educação e apoio a pequenas empresas, além de uma forte parceria entre o poder público e a iniciativa privada, a vida pacata da cidade abriu espaço para o Vale da Eletrônica, como é conhecida atualmente. A indústria de tecnologia responde por mais da metade do Produto Interno Bruto local.

São cerca de 35 mil habitantes e uma oferta de emprego maior do que a mão-de-obra disponível, uma característica comum às cidades do interior. O PIB per capita saltou de R$ 3.169,00 em 1985 para R$ 7.581,00 em 1999 – maior do que o do próprio Estado de Minas Gerais. Só em exportação, Santa Rita do Sapucaí faturou em 2003, aproximadamente, 25 milhões de dólares.


A Sadia e a geração de empregos no interior, mais um exemplo...

A Sadia, grande nome da indústria alimentícia no País, não apresentou no último ano muitos casos de mudança de emprego para o interior, mas sim de criação de novas vagas nestas regiões. Em 2004, a empresa gerou aproximadamente 5.000 empregos, passando de 34.000 para 39.000 funcionários em todo o País, inclusive no interior. O crescimento ocorreu principalmente pelo aumento da produção, ou seja, nas unidades industriais.

Em 2005, a companhia pretende investir 185,3 milhões de reais na ampliação da capacidade de todas as linhas de produção da unidade de Uberlândia (MG). O anúncio foi feito no final do ano passado pelo presidente da empresa, Walter Fontana Filho. O Estado de Minas Gerais vai receber cerca de 400 milhões de reais em investimentos, já que os integrados aplicarão outros 180 milhões de reais e os transportadores de produtos, outros 36 milhões de reais para atender o aumento da demanda da Sadia.

"Os investimentos representarão a criação de aproximadamente 3.400 empregos diretos num prazo de três anos. Estimamos que outros 1.500 sejam criados indiretamente por meio de parcerias", afirma Walter Fontana Filho. Atualmente, a unidade da Sadia em Minas Gerais tem cerca de 5.000 funcionários e gera, por meio dos integrados, outros 1.000 postos de trabalho. "A unidade de Uberlândia passará a ser o maior complexo industrial da empresa no Brasil", completa.


Magazine Luiza: Um case de sucesso no interior

O Magazine Luiza é uma empresa que atua no interior e em várias capitais, como Curitiba, Porto Alegre, Campo Grande e São Paulo. São 187 cidades de seis Estados: São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Mato Grosso do Sul, Goiás e Rio Grande do Sul. Após a compra das Lojas Arno, a empresa tem hoje cerca de 7.500 funcionários e é referência de sucesso e marca forte no interior. Emília Telma Nery Rodrigues Geron, diretora de Recursos Humanos do Magazine Luiza, afirma que para continuar tendo sucesso, a empresa busca contratar profissionais criativos, que tenham facilidade de comunicação e de relacionamento e habilidade para o trabalho em equipe, que gostem de aprender, que sejam abertos para novidades, que sejam comprometidos com os resultados e que gostem de desafios. "Não temos dificuldade em encontrar estas pessoas, pois os executivos aceitam propostas de trabalho no interior, inclusive buscando também uma melhor qualidade de vida. Este é o objetivo de todos os que nos procuram, principalmente aqueles que constituíram família e possuem filhos pequenos. Eles querem oferecer para os seus filhos uma vida mais saudável, com menos violência e melhor qualidade de vida".

Emília Telma acha que não existe diferença entre o mercado de trabalho no interior e na capital. "Atualmente, temos ótimas universidades e empresas altamente competitivas também no interior. Os profissionais do interior buscam oportunidades de trabalho na capital, bem como os profissionais da capital buscam novos desafios no interior. Hoje essa diferença não existe mais". E ela acredita que as melhores oportunidades ainda estão para chegar ao interior, pois empresas de ponta em seus segmentos estão se instalando no interior, tendo a qualidade de vida como diferencial para os funcionários. "O interior, principalmente do Estado de São Paulo, é um grande mercado para as empresas que querem se expandir. Temos cidades com alta renda per capita e infra-estrutura adequada para o crescimento. Principalmente em relação ao varejo, verificamos uma expansão muito grande das maiores redes do Brasil no interior de São Paulo, em busca desses novos mercados", completa.


E para o profissional, faz diferença no currículo o fato dele ter trabalhado no interior?

"O importante no currículo é a experiência profissional que a pessoa tem e as contribuições que ela fez para a organização onde trabalhou, e não o local onde está fixada a tal empresa".

Para a empresa, também não existe diferença entre um profissional que veio do interior para um profissional que veio da capital. "Recentemente, realizamos um processo seletivo para quatro lojas virtuais nossas inauguradas em São Paulo e não percebemos diferenças em relação ao interior. Os profissionais que vêm da capital para o interior muitas vezes trazem em seus currículos um maior número de experiências profissionais, pois ficam menos tempo nas empresas. No interior existe uma característica de maior permanência no emprego".


* Ana Paula Ruiz é jornalista do Grupo Catho. Telefone