O que a fonte revela pertence à sociedade

Carlos Chaparro

 

O XIS DA QUESTÃONas entrevistas publicadas, o que o jornalista assina não são as revelações do entrevistado, mas o texto, do qual é autor, em que essas revelações ganham evidência, para os efeitos da socialização. Entretanto, o poder de autor não dá ao jornalista o direito de fraudar a conversa. O jornalista não é dono das falas, menos ainda das idéias e intenções dos seus entrevistados. Além disso, o conteúdo gerado na conversa com a fonte não pertence ao jornalista, mas à sociedade.

1. Caso inesquecível
Certa vez, já lá se vão quase vinte anos, fui entrevistado por uma repórter do Jornal da Tarde. Criativa, dona de texto gostoso, era profissional afeita a liberdades estilísticas, que então caíam bem no perfil do jornal. Por telefone, ela pediu a minha opinião sobre Chico Buarque, para uma reportagem que tentaria entender e explicar subjetividades nas relações entre a arte do grande compositor e seus admiradores. Me lembro bem do miolo da resposta. Para mim, a qualidade poética e musical de Chico se manifestava no fato de, quanto mais ouvia as suas músicas, mais elas me seduziam. A música e a poesia de Chico Buarque eram, para mim, artes de inesgotáveis revelações. A cada nova audição, sempre descobria, nas melhores músicas do Chico, novos e sutis encantos. Foi o que disse.

No dia seguinte, ao ler a reportagem, fiquei perplexo. Nada do que pensara e dissera estava no texto. Ao contrário: nas falas a mim atribuídas, a repórter inventara um monte de coisas que eu não dissera nem pensara. Liguei para ela. Em tom cordial (nos dávamos bem), perguntei o que acontecera. E ela me explicou que decidira fazer uma interpretação livre, na corrente de algumas idéias que a minha fala lhe sugerira. Viajara na fantasia e me levou junto.

Felizmente, não era assunto para gerar crises nem dissabores. E acabei achando graça do episódio. Decidi, até, tirar proveito dele, usando-o freqüentemente em sala de aula, como exemplo do que não deve nem pode ser feito pelo jornalista entrevistador, em sua relação com o entrevistado.

Jornalista não é dono das falas, menos ainda das idéias e intenções dos seus entrevistados. Até porque sobre o entrevistado recai o ônus das declarações publicadas, há que ser fiel ao que ele diz e, principalmente, ao que ele pensa – pois nem todos os entrevistados conseguem expressar com clareza e precisão o que pensam.

2. Trabalho de autor
O que se deu comigo, naquela entrevista dada ao Jornal da Tarde, acontece com um número surpreendente de pessoas entrevistadas. Parece, até, que a prática jornalística brasileira cultiva a crença de que o que se diz ao jornalista passa a ser propriedade sua, sobre a qual pode fazer o que quiser. Falam por isso os freqüentes desmentidos publicados, as queixas que rotineiramente ouvimos de fontes entrevistadas ou de seus assessores, e até o crescente número de ações judiciais que assolam as redações.

No seu dia-a-dia, o que o jornalista mais faz é conversar com outros. Faz perguntas, ouve, entende e registra respostas. Caça conteúdos, que não estão nas redações, mas nos espaços e fatos da vida, com os protagonistas da atualidade, construtores do presente. Depois, combina as revelações obtidas, para a arquitetura do texto, ação em que o jornalista tem de se assumir como autor.

Há por aí, em certas discussões intelectuais, quem considere  que entrevistado e entrevistador dividem a autoria da entrevista publicada. Não concordo com esse entendimento. O que o jornalista assina não são as revelações do entrevistado, mas o texto, do qual é autor, em que essas revelações ganham evidência, para os efeitos da socialização.

Raros são os textos jornalísticos, quer em forma de relato ou de comentário, que não resultem de diálogos cúmplices com fontes. Às vezes - acredito que na maioria das vezes - isso se dá por acordo e cumplicidade; outras vezes, a conversa corre movida a conflito entre as duas partes. Em qualquer das situações, a construção das idéias é obra partilhada.

Mas, em especial na espécie “Entrevista”, uma coisa é o diálogo entre entrevistado e entrevistador, na conversa que se desdobra em jogos de cumplicidade; outra, o texto que reconstrói literariamente a conversa e que raramente a reproduz tal como ocorreu. No texto, há que excluir falas, incluir descrições, articular combinações que alteram a ordem da conversa. Há que decidir a que partes do conteúdo atribuir maior importância. E há que impor ritmo, beleza, intensidade e vigor literário ao texto - sem fraudar a conversa havida.

Tudo, tendo em vista um novo e preferencial interlocutor: o leitor.

3. O crime da fraude
Claro, há entrevistas em que convém respeitar a ordem e a forma em que as coisas foram ditas. Em alguns casos, devido à natureza política, científica, ética ou moral do conteúdo; em outros, pelo potencial de conseqüências do conteúdo a divulgar; às vezes, também, pelas significações que  a notoriedade do entrevistado agrega às revelações. Porém, para a esmagadora maioria das entrevistas, a transcrição literal da conversa levaria ao fracasso, atingindo igualmente entrevistado e entrevistador. Quem grava entrevistas e encara o tormento de as transcrever sabe muito bem do que estou falando.

Entretanto, o poder de autor não dá ao jornalista o direito de fraudar a conversa. Por três motivos principais:
1) Fraudar no texto a conversa havida é enganar o leitor – efeito lamentável, se for por incompetência, pior ainda, se por motivos escusos.
2) No texto socializado, a fraude da conversa é a fraude do próprio jornalismo e o aviltamento da linguagem jornalística, que tem como essência de natureza o pressuposto da veracidade.. 
3) O conteúdo gerado na conversa não pertence ao jornalista, mas à sociedade.

Fonte: Comunique-se 04/03/05