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XIS DA QUESTÃO – Nas entrevistas publicadas, o que o
jornalista assina não são as revelações do entrevistado, mas o
texto, do qual é autor, em que essas revelações ganham evidência,
para os efeitos da socialização. Entretanto, o poder de autor não dá
ao jornalista o direito de fraudar a conversa. O jornalista não é
dono das falas, menos ainda das idéias e intenções dos seus
entrevistados. Além disso, o conteúdo gerado na conversa com a fonte
não pertence ao jornalista, mas à sociedade.
1. Caso inesquecível
Certa vez, já lá se vão quase vinte anos, fui entrevistado por uma
repórter do Jornal da Tarde. Criativa, dona de texto
gostoso, era profissional afeita a liberdades estilísticas, que
então caíam bem no perfil do jornal. Por telefone, ela pediu a minha
opinião sobre Chico Buarque, para uma reportagem que tentaria
entender e explicar subjetividades nas relações entre a arte do
grande compositor e seus admiradores. Me lembro bem do miolo da
resposta. Para mim, a qualidade poética e musical de Chico se
manifestava no fato de, quanto mais ouvia as suas músicas, mais elas
me seduziam. A música e a poesia de Chico Buarque eram, para mim,
artes de inesgotáveis revelações. A cada nova audição, sempre
descobria, nas melhores músicas do Chico, novos e sutis encantos.
Foi o que disse.
No dia seguinte, ao ler a reportagem, fiquei perplexo. Nada do
que pensara e dissera estava no texto. Ao contrário: nas falas a mim
atribuídas, a repórter inventara um monte de coisas que eu não
dissera nem pensara. Liguei para ela. Em tom cordial (nos dávamos
bem), perguntei o que acontecera. E ela me explicou que decidira
fazer uma interpretação livre, na corrente de algumas idéias que a
minha fala lhe sugerira. Viajara na fantasia e me levou junto.
Felizmente, não era assunto para gerar crises nem dissabores. E
acabei achando graça do episódio. Decidi, até, tirar proveito dele,
usando-o freqüentemente em sala de aula, como exemplo do que não
deve nem pode ser feito pelo jornalista entrevistador, em sua
relação com o entrevistado.
Jornalista não é dono das falas, menos ainda das idéias e
intenções dos seus entrevistados. Até porque sobre o entrevistado
recai o ônus das declarações publicadas, há que ser fiel ao que ele
diz e, principalmente, ao que ele pensa – pois nem todos os
entrevistados conseguem expressar com clareza e precisão o que
pensam.
2. Trabalho de autor
O que se deu comigo, naquela entrevista dada ao
Jornal da Tarde, acontece com um número surpreendente de
pessoas entrevistadas. Parece, até, que a prática jornalística
brasileira cultiva a crença de que o que se diz ao jornalista passa
a ser propriedade sua, sobre a qual pode fazer o que quiser. Falam
por isso os freqüentes desmentidos publicados, as queixas que
rotineiramente ouvimos de fontes entrevistadas ou de seus
assessores, e até o crescente número de ações judiciais que assolam
as redações.
No seu dia-a-dia, o que o jornalista mais faz é conversar com
outros. Faz perguntas, ouve, entende e registra respostas. Caça
conteúdos, que não estão nas redações, mas nos espaços e fatos da
vida, com os protagonistas da atualidade, construtores do presente.
Depois, combina as revelações obtidas, para a arquitetura do texto,
ação em que o jornalista tem de se assumir como autor.
Há por aí, em certas discussões intelectuais, quem considere que
entrevistado e entrevistador dividem a autoria da entrevista
publicada. Não concordo com esse entendimento. O que o jornalista
assina não são as revelações do entrevistado, mas o texto, do qual é
autor, em que essas revelações ganham evidência, para os efeitos da
socialização.
Raros são os textos jornalísticos, quer em forma de relato ou de
comentário, que não resultem de diálogos cúmplices com fontes. Às
vezes - acredito que na maioria das vezes - isso se dá por acordo e
cumplicidade; outras vezes, a conversa corre movida a conflito entre
as duas partes. Em qualquer das situações, a construção das idéias é
obra partilhada.
Mas, em especial na espécie “Entrevista”, uma coisa é o diálogo
entre entrevistado e entrevistador, na conversa que se desdobra em
jogos de cumplicidade; outra, o texto que reconstrói literariamente
a conversa e que raramente a reproduz tal como ocorreu. No texto, há
que excluir falas, incluir descrições, articular combinações que
alteram a ordem da conversa. Há que decidir a que partes do conteúdo
atribuir maior importância. E há que impor ritmo, beleza,
intensidade e vigor literário ao texto - sem fraudar a
conversa havida.
Tudo, tendo em vista um novo e preferencial interlocutor: o
leitor.
3. O crime da fraude
Claro, há entrevistas em que convém respeitar a ordem
e a forma em que as coisas foram ditas. Em alguns casos, devido à
natureza política, científica, ética ou moral do conteúdo; em
outros, pelo potencial de conseqüências do conteúdo a divulgar; às
vezes, também, pelas significações que a notoriedade do
entrevistado agrega às revelações. Porém, para a esmagadora maioria
das entrevistas, a transcrição literal da conversa levaria ao
fracasso, atingindo igualmente entrevistado e entrevistador. Quem
grava entrevistas e encara o tormento de as transcrever sabe muito
bem do que estou falando.
Entretanto, o poder de autor não dá ao jornalista o direito de
fraudar a conversa. Por três motivos principais:
1) Fraudar no texto a conversa havida é enganar o leitor – efeito
lamentável, se for por incompetência, pior ainda, se por motivos
escusos.
2) No texto socializado, a fraude da conversa é a fraude do próprio
jornalismo e o aviltamento da linguagem jornalística, que tem como
essência de natureza o pressuposto da veracidade..
3) O conteúdo gerado na conversa não pertence ao jornalista, mas à
sociedade. |