Dan Rather subiu no telhado!

Antonio Brasil

 

Televisão adora funerais e despedidas. O meio sempre privilegiou a emoção sobre a informação, os sentimentos sobre a razão. Aqui nos EUA, o grande assunto da semana foi a despedida do velho âncora da CBS, Dan Rather, 74. É o fim de uma era. Mas, aqui entre nós, também pode ser a salvação do jornalismo na TV. Um âncora a menos. Os fantasmas dos grandes jornalistas do passado estavam cada vez mais horrorizados com os últimos escândalos no jornalismo americano. E os velhos âncoras sem dúvida têm uma parcela de culpa na decadência do meio. O telejornalismo em TV aberta nos EUA e na maioria dos países do mundo está em declínio e caminha resoluto para o fundo do poço.

Um dia, os historiadores ainda vão analisar o jornalismo de TV dos últimos anos como um jornalismo medíocre, refém das grandes corporações, dos índices de audiência, dos anunciantes e de alguns poucos jornalistas poderosos, conhecidos como “âncoras”. Um jornalismo que transformou excelentes repórteres do passado em estrelas ou “prima-donas” do presente. Os tais “âncoras” inverteram a mão do jornalismo sério e acabaram se tornando mais importantes do que as próprias notícias que deveriam cobrir. Esse modelo de telejornalismo enfrenta problemas e busca soluções. Talvez essas soluções não estejam no presente ou no futuro, mas, sim, no passado, nas origens do telejornalismo, ou seja, no rádio.

Edward Murrow, o jornalista que subiu no telhado      
Dan Rather faz parte de uma longa linhagem de repórteres que, há muitos anos, ousaram sair das redações para ir à luta e reinventar o jornalismo.

O primeiro desses profissionais não era jornalista e se chamava Edward Murrow e trabalhava para rede CBS de rádio. Quando todas as demais redes americanas preferiram acatar a política de “neutralidade” do governo americano e abandonar os ingleses à própria sorte, Murrow convenceu a CBS a mantê-lo em Londres durante a batalha da Inglaterra na Segunda Grande Guerra. Murrow resolveu “subir no telhado” e transmitir “ao vivo” tudo que via e ouvia para um distante e muitas vezes desinteressado público americano. Ele se tornou o único correspondente a relatar o heroísmo dos ingleses em sua luta contra o nazismo.

Edward Murrow também não se conformava com os limites do meio radiofônico. Criou um novo estilo de transformar os fatos em palavras precisas e sentimentos fortes. Suas descrições dos bombardeios de Londres tranformaram a linguagem radiofônica em uma arma poderosa. De algum lugar “não identificado”, por motivos de segurança, Ed Murrow clamava contra indiferença do mundo: This... is London. Murrow escrevia o... silêncio. O mundo e, principalmente, o jornalismo radiofônico jamais seriam os mesmos. This... is London se tornou a senha, a inspiração para que toda uma geração de jornalistas abandonassem as redações, os estúdios e... subissem no telhado.

Querem um exemplo do seu estilo? Creio que dispensa tradução.

"Tonight, as on every other night, the rooftop watchers are peering out across the fantastic forest of London's chimney pots. The anti-aircraft gunners stand ready."
"I have been walking tonight - there is a full moon, and the dirty-gray buildings appear white. The stars, the empty windows, are hidden. It's a beautiful and lonesome city where men and women and children are trying to snatch a few hours sleep underground."
   

Brilhante! A riqueza das suas palavras permitiam uma narração emotiva e criavam as primeiras imagens radiofônicas.

Há muitos anos, os jornalistas já haviam descoberto o valor da reportagem e da investigação jornalística. Mas Ed Murrow estabelecia uma nova relação com as imagens e com o público. Ele relatava os horrores da guerra ao vivo com uma linguagem coloquial que, pela primeira vez, todos conseguiam entender. Murrow não fazia discursos inflamados ou lia notícias e boletins sem pé nem cabeça das agências de notícias.

Talvez porque nunca ter pensado em ser jornalista, ele escrevia com a razão, mas narrava sempre com o coração. O público americano respondia com entusiasmo e audiência. Murrow era, antes de tudo, um jornalista com uma missão. Sua dedicação a um jornalismo mais participativo contribuiu para mudar a história.

Murrow descrevia os horrores da guerra não como âncora ou jornalista. Ele narrava suas notícias como qualquer um de nós. Alguém como eu e você que estava no lugar certo e na hora exata. Para Murrow, o jornalista ou “âncora” não deveria ficar “submerso” nas redações. O verdadeiro âncora jamais deveria deixar de ser um repórter. Deveria ir sempre em busca das notícias, “interpretar” os fatos. Mas, antes de tudo, caberia ao âncora emocionar e mobilizar o público. Em tempos de guerra, assim como hoje, a objetividade jornalística não deveria ser sinônimo de “indiferença”.

The Murrow Boys
No entanto, a principal “herança” do avô de todos os nossos futuros âncoras de rádio e TV não foi somente a reinvenção do jornalismo. Muito pelo contrário. Edward Murrow foi o responsável pela formação de toda uma geração de novos jornalistas, os Murrow Boys que viriam a seguir seus passos e transformar o rádio e a TV. Jornalistas como Walter Cronkite, o primeiro âncora da rede de TV CBS e, de uma certa forma, seu sucessor, o próprio Dan Rather, fazem parte dessa confraria seleta. O principal objetivo desses jornalistas era ser, antes de tudo, bons repórteres. 

Murrow, apesar de famoso, acreditava no trabalho de equipe e na formação dos futuros jornalistas. Edward Murrow virou herói, ficou famoso e trocaria um dia o rádio pela TV. Mas jamais deixou de ser um repórter. Produziu uma série premiada de documentários para a rede de TV CBS sobre as dificuldades dos trabalhadores americanos que se tornaria referência histórica.

Ainda nos anos 50, decepcionado com a predominância do entretenimento na TV e com a paranóia da caça às bruxas do McCartismo, ele se afastaria da TV e do jornalismo. Edward Murrow morreu de câncer em 1965. Mas deixou bons exemplos e muitos herdeiros. Entre eles, o pai de todos os âncoras de TV: Walter Cronkite. Ainda na Segunda Grande Guerra e um dos Murrow Boys, acompanhou as tropas americanas durante a invasão da Normandia. Na TV superou presidentes e se tornou o “homem em que os americanos mais confiavam durante os anos 50 e 60.

Âncora ou repórter: eis a questão!
E esse parece ser exatamente o problema da decadência dos âncoras americanos. Em sua despedida, nesta quarta-feira, Dan Rather fez questão de dizer que “queria voltar a ser um mero repórter”. Ele sentiu na pele que para se tornar um  “âncora”, ele teve que renunciar à sua verdadeira paixão, a reportagem. Ele bem sabe que não dá para fazer bom jornalismo sem paixão e sem o contato com o público. Âncora virou misto de artista e semi-Deus. Tudo, menos jornalista. Ele se afasta do público e inevitavelmente se aproxima do poder. Hoje, nenhum âncora de TV pode “aterrisar” em um grande evento internacional ou mesmo numa favela sem pagar o preço da fama e do sucesso. Ao transgredir os princípios mais básicos da reportagem, ele transveste a notícia em um evento pessoal. Há muito tempo, o âncora de TV se tornou a própria notícia. No Brasil, bons jornalistas como Boris Casoy, Joelmir Betting, William Bonner e Fatima Bernardes não fazem mais reportagem. Vivem isolados em um mundo irreal, recebem salários astronômicos, estão distantes da realidade e dos demais jornalistas. Afastados da cobertura diária e do público, estão sempre próximos do poder e dos poderosos. Eles não cobrem mais as notícias. Eles são... a própria notícia. 

E não é à toa que esse modelo de telejornalismo que privilegia os âncoras famosos em detrimento dos repórteres afunda a olhos vistos. Não adianta tentar enganar o público enviando os apresentadores de telejornais somente para os grandes eventos ou para as finais de Copa do Mundo. Âncora de verdade deveria buscar as suas origens e ser repórter de verdade. Âncora não é artista. É um jornalista como outro qualquer.  Hoje, apresenta o telejornal, amanhã enfrenta tiroteio no Iraque ou na Rocinha. Ainda na sua melancólica despedida, Dan Rather deixou bem claro que prefere “subir no telhado” e fazer reportagem de verdade. Ele nunca pareceu muito confortável no “trono” de âncora da CBS. O problema é que o velho jornalista pode ter percebido o seu erro tarde demais.

O declínio da TV,  o diabo e a vaidade
Segundo pesquisas recentes (ver aqui) o meio televisivo está em declínio e enfrenta um grande inimigo na Internet. O segmento jornalístico é o que mais tem sofrido com essa queda vertiginosa de audiência e perda de credibilidade. 

Nos EUA, há 30 anos, os três principais telejornais das grandes redes de TV tinham cerca de 76% do share de audiência e mais de 46 milhões de telespectadores. Hoje, esses mesmos telejornais têm no máximo 37% de share e amargam uma audiência de no máximo 30 milhões de telespectadores. Novos hábitos, novos horários, a segmentação do meio televisivo e novas fontes de notícia como a Internet não poupam os velhos telejornais e seus âncoras em franco declínio.

Dan Rather e o recente escândalo da matéria do 60 Minutes envolvendo o presidente Bush conseguiram contribuir ainda mais para o declínio do telejornalismo nas redes americanas. Mas também contribuíram para que um novo telejornalismo busque modelos mais criativos e democráticos. O impagável John Stewart e seu Daily Show, um misto de programa jornalístico, entrevista ao vivo e humorístico têm se aproveitado muito da decadência dos âncoras e dos telejornais considerados sérios. O Daily Show ainda acaba se tornando o melhor telejornal americano. 

Mas em sua despedida, Dan Rather relembrou que logo no início da carreira tinha sido alertado: “Dan, você não deveria ser âncora.” Sábio conselho. Mas ele preferiu ignorá-lo. Muito emocionado, ele ainda fez questão de repetir o seu mantra favorito: coragem. Dan Rather sempre foi um repórter corajoso. Sempre enfrentou os poderosos. Mas não resistiu à investida dos jornalistas blogueiros, à própria arrogância e ao pecado preferido de todos os âncoras e do diabo: a vaidade.

      Fonte: Comunique-se  3/11/2005