| Televisão
adora funerais e despedidas. O meio sempre privilegiou a emoção
sobre a informação, os sentimentos sobre a razão. Aqui nos EUA, o
grande assunto da semana foi a despedida do velho âncora da CBS, Dan
Rather, 74. É o fim de uma era. Mas, aqui entre nós, também pode ser
a salvação do jornalismo na TV. Um âncora a menos. Os fantasmas dos
grandes jornalistas do passado estavam cada vez mais horrorizados
com os últimos escândalos no jornalismo americano. E os velhos
âncoras sem dúvida têm uma parcela de culpa na decadência do meio. O
telejornalismo em TV aberta nos EUA e na maioria dos países do mundo
está em declínio e caminha resoluto para o fundo do poço.
Um dia, os historiadores ainda vão analisar o jornalismo de TV
dos últimos anos como um jornalismo medíocre, refém das grandes
corporações, dos índices de audiência, dos anunciantes e de alguns
poucos jornalistas poderosos, conhecidos como “âncoras”. Um
jornalismo que transformou excelentes repórteres do passado em
estrelas ou “prima-donas” do presente. Os tais “âncoras” inverteram
a mão do jornalismo sério e acabaram se tornando mais importantes do
que as próprias notícias que deveriam cobrir. Esse modelo de
telejornalismo enfrenta problemas e busca soluções. Talvez essas
soluções não estejam no presente ou no futuro, mas, sim, no passado,
nas origens do telejornalismo, ou seja, no rádio.
Edward Murrow, o jornalista que subiu no telhado
Dan Rather faz parte de uma longa linhagem de repórteres que, há
muitos anos, ousaram sair das redações para ir à luta e reinventar o
jornalismo.
O primeiro desses profissionais não era jornalista e se chamava
Edward Murrow e trabalhava para rede CBS de rádio. Quando todas as
demais redes americanas preferiram acatar a política de
“neutralidade” do governo americano e abandonar os ingleses à
própria sorte, Murrow convenceu a CBS a mantê-lo em Londres durante
a batalha da Inglaterra na Segunda Grande Guerra. Murrow resolveu
“subir no telhado” e transmitir “ao vivo” tudo que via e ouvia para
um distante e muitas vezes desinteressado público americano. Ele se
tornou o único correspondente a relatar o heroísmo dos ingleses em
sua luta contra o nazismo.
Edward Murrow também não se conformava com os limites do meio
radiofônico. Criou um novo estilo de transformar os fatos em
palavras precisas e sentimentos fortes. Suas descrições dos
bombardeios de Londres tranformaram a linguagem radiofônica em uma
arma poderosa. De algum lugar “não identificado”, por motivos de
segurança, Ed Murrow clamava contra indiferença do mundo: This... is
London. Murrow escrevia o... silêncio. O mundo e, principalmente, o
jornalismo radiofônico jamais seriam os mesmos. This... is London se
tornou a senha, a inspiração para que toda uma geração de
jornalistas abandonassem as redações, os estúdios e... subissem no
telhado.
Querem um exemplo do seu estilo? Creio que dispensa tradução.
"Tonight, as on every other night, the rooftop watchers are
peering out across the fantastic forest of London's chimney pots.
The anti-aircraft gunners stand ready."
"I have been walking tonight - there is a full moon, and the
dirty-gray buildings appear white. The stars, the empty windows, are
hidden. It's a beautiful and lonesome city where men and women and
children are trying to snatch a few hours sleep underground."
Brilhante! A riqueza das suas palavras permitiam uma narração
emotiva e criavam as primeiras imagens radiofônicas.
Há muitos anos, os jornalistas já haviam descoberto o valor da
reportagem e da investigação jornalística. Mas Ed Murrow estabelecia
uma nova relação com as imagens e com o público. Ele relatava os
horrores da guerra ao vivo com uma linguagem coloquial que, pela
primeira vez, todos conseguiam entender. Murrow não fazia discursos
inflamados ou lia notícias e boletins sem pé nem cabeça das agências
de notícias.
Talvez porque nunca ter pensado em ser jornalista, ele escrevia
com a razão, mas narrava sempre com o coração. O público americano
respondia com entusiasmo e audiência. Murrow era, antes de tudo, um
jornalista com uma missão. Sua dedicação a um jornalismo mais
participativo contribuiu para mudar a história.
Murrow descrevia os horrores da guerra não como âncora ou
jornalista. Ele narrava suas notícias como qualquer um de nós.
Alguém como eu e você que estava no lugar certo e na hora exata.
Para Murrow, o jornalista ou “âncora” não deveria ficar “submerso”
nas redações. O verdadeiro âncora jamais deveria deixar de ser um
repórter. Deveria ir sempre em busca das notícias, “interpretar” os
fatos. Mas, antes de tudo, caberia ao âncora emocionar e mobilizar o
público. Em tempos de guerra, assim como hoje, a objetividade
jornalística não deveria ser sinônimo de “indiferença”.
The Murrow Boys
No entanto, a principal “herança” do avô de todos os nossos futuros
âncoras de rádio e TV não foi somente a reinvenção do jornalismo.
Muito pelo contrário. Edward Murrow foi o responsável pela formação
de toda uma geração de novos jornalistas, os Murrow Boys
que viriam a seguir seus passos e transformar o rádio e a TV.
Jornalistas como Walter Cronkite, o primeiro âncora da rede de TV
CBS e, de uma certa forma, seu sucessor, o próprio Dan Rather, fazem
parte dessa confraria seleta. O principal objetivo desses
jornalistas era ser, antes de tudo, bons repórteres.
Murrow, apesar de famoso, acreditava no trabalho de equipe e na
formação dos futuros jornalistas. Edward Murrow virou herói, ficou
famoso e trocaria um dia o rádio pela TV. Mas jamais deixou de ser
um repórter. Produziu uma série premiada de documentários para a
rede de TV CBS sobre as dificuldades dos trabalhadores americanos
que se tornaria referência histórica.
Ainda nos anos 50, decepcionado com a predominância do
entretenimento na TV e com a paranóia da caça às bruxas do
McCartismo, ele se afastaria da TV e do jornalismo. Edward Murrow
morreu de câncer em 1965. Mas deixou bons exemplos e muitos
herdeiros. Entre eles, o pai de todos os âncoras de TV: Walter
Cronkite. Ainda na Segunda Grande Guerra e um dos Murrow Boys,
acompanhou as tropas americanas durante a invasão da Normandia. Na
TV superou presidentes e se tornou o “homem em que os americanos
mais confiavam durante os anos 50 e 60.
Âncora ou repórter: eis a questão!
E esse parece ser exatamente o problema da decadência dos âncoras
americanos. Em sua despedida, nesta quarta-feira, Dan Rather fez
questão de dizer que “queria voltar a ser um mero repórter”. Ele
sentiu na pele que para se tornar um “âncora”, ele teve que
renunciar à sua verdadeira paixão, a reportagem. Ele bem sabe que
não dá para fazer bom jornalismo sem paixão e sem o contato com o
público. Âncora virou misto de artista e semi-Deus. Tudo, menos
jornalista. Ele se afasta do público e inevitavelmente se aproxima
do poder. Hoje, nenhum âncora de TV pode “aterrisar” em um grande
evento internacional ou mesmo numa favela sem pagar o preço da fama
e do sucesso. Ao transgredir os princípios mais básicos da
reportagem, ele transveste a notícia em um evento pessoal. Há muito
tempo, o âncora de TV se tornou a própria notícia. No Brasil, bons
jornalistas como Boris Casoy, Joelmir Betting, William Bonner e Fatima
Bernardes não fazem mais reportagem. Vivem isolados em um mundo
irreal, recebem salários astronômicos, estão distantes da realidade
e dos demais jornalistas. Afastados da cobertura diária e do
público, estão sempre próximos do poder e dos poderosos. Eles não
cobrem mais as notícias. Eles são... a própria notícia.
E não é à toa que esse modelo de telejornalismo que privilegia os
âncoras famosos em detrimento dos repórteres afunda a olhos vistos.
Não adianta tentar enganar o público enviando os apresentadores de
telejornais somente para os grandes eventos ou para as finais de
Copa do Mundo. Âncora de verdade deveria buscar as suas origens e
ser repórter de verdade. Âncora não é artista. É um jornalista como
outro qualquer. Hoje, apresenta o telejornal, amanhã enfrenta
tiroteio no Iraque ou na Rocinha. Ainda na sua melancólica
despedida, Dan Rather deixou bem claro que prefere “subir no
telhado” e fazer reportagem de verdade. Ele nunca pareceu muito
confortável no “trono” de âncora da CBS. O problema é que o velho
jornalista pode ter percebido o seu erro tarde demais.
O declínio da TV, o diabo e a vaidade
Segundo pesquisas recentes (ver
aqui) o meio televisivo está em declínio e enfrenta um grande
inimigo na Internet. O segmento jornalístico é o que mais tem
sofrido com essa queda vertiginosa de audiência e perda de
credibilidade.
Nos EUA, há 30 anos, os três principais telejornais das grandes
redes de TV tinham cerca de 76% do share de audiência e
mais de 46 milhões de telespectadores. Hoje, esses mesmos
telejornais têm no máximo 37% de share e amargam uma
audiência de no máximo 30 milhões de telespectadores. Novos hábitos,
novos horários, a segmentação do meio televisivo e novas fontes de
notícia como a Internet não poupam os velhos telejornais e seus
âncoras em franco declínio.
Dan Rather e o recente escândalo da matéria do 60 Minutes
envolvendo o presidente Bush conseguiram contribuir ainda mais para
o declínio do telejornalismo nas redes americanas. Mas também
contribuíram para que um novo telejornalismo busque modelos mais
criativos e democráticos. O impagável John Stewart e seu Daily Show,
um misto de programa jornalístico, entrevista ao vivo e humorístico
têm se aproveitado muito da decadência dos âncoras e dos telejornais
considerados sérios. O Daily Show ainda acaba se tornando o melhor
telejornal americano.
Mas em sua despedida, Dan Rather relembrou que logo no início da
carreira tinha sido alertado: “Dan, você não deveria ser âncora.”
Sábio conselho. Mas ele preferiu ignorá-lo. Muito emocionado, ele
ainda fez questão de repetir o seu mantra favorito: coragem. Dan
Rather sempre foi um repórter corajoso. Sempre enfrentou os
poderosos. Mas não resistiu à investida dos jornalistas blogueiros,
à própria arrogância e ao pecado preferido de todos os âncoras e do
diabo: a vaidade. |