Silenciaram Boris Casoy. Quem? Por quê?

Carlos Chaparro

 

O XIS DA QUESTÃO - Quais as verdadeiras razões que levaram a Rede Record a silenciar Boris Casoy? A pergunta está entalada na goela de quem se informava e organizava seus pontos de vista ouvindo e vendo o telejornal apresentado por Boris Casoy. Ele se tornara voz de referência no nosso telejornalismo, com papel importante na discussão pública brasileira. As suas cutiladas críticas faziam parte de um acervo que interessava não apenas à Record, mas também à sociedade. Logo, os telespectadores têm direito a explicações, sobre as razões que levaram a Record a silenciar a voz de Boris Casoy.

1. Voz silenciada

Ainda é cedo para que sejam reveladas as verdadeiras razões que levaram a Rede Record a demitir Boris Casoy e a sua equipe. Salete Lemos também foi, por acréscimo. Por quê? Algum dia, alguém falará o que hoje ainda não pode ser dito. E quanto ao que foi dito até agora, não dá para engolir. O que se disse e foi publicado por aí é claramente uma versão desajeitada, simplória demais para uma rusga que, tanto nas causas quanto nas conseqüências, vai muito além das aparências.

Com a elegância que o caracteriza, Casoy pouco ou nada dirá, quando voltar da viagem em que se escondeu. Mas, de repente, quem sabe, no desdobramento de negociações que ainda virão (porque, nos rescaldos da briga, há grana alta em jogo), talvez solte revelações que justifiquem aquilo que agora temos vontade de dizer, imitando-o: “É uma vergonha!”

Neste, como em todos os casos de conflitos cabeludos, quando faltam informações, no lugar delas vicejam especulações. E a especulação mais insinuante que corre por aí, entre quem conhece bem os meandros da Record, é que alguém muito poderoso, com balas de alto calibre na agulha (verbas publicitárias, por exemplo), exigiu a cabeça de Boris Casoy, numa fase em que os ácidos comentários do apresentador se tornaram particularmente incômodos para o governo Lula. 

Com a misteriosa demissão de Boris Casoy, fechou-se a única janela crítica do jornalismo da Record – e não vem ao caso ajuizamentos sobre o jeito de pensar e dizer do apresentador silenciado.

Quer se goste ou não dele, e das escolhas ideológicas que lhe marcaram o estilo e a personalidade profissional na televisão, a verdade é que Boris Casoy não pertencia apenas à Record. Era uma voz de referência no nosso telejornalismo, com papel importante na discussão pública brasileira. As notícias, as entrevistas e as cutiladas críticas de Boris Casoy faziam parte de um acervo que interessava não apenas à Record, mas também à sociedade. Logo, a sociedade tem direito a informações e explicações.

2. Faltam respostas

- Que razões levaram a Rede Record, aquela, a do bispo Edir Macedo, a demitir e a silenciar Boris Casoy?
A pergunta continua entalada na goela dos milhares de telespectadores que diariamente assistiam ao Jornal da Record apresentado por Boris Casoy, porque acreditavam nele. A resposta, porém, está bem escondida e protegida na intimidade dos bastidores.

Por falar em intimidade dos bastidores, vale a pena ler a coluna “Porandubas”, assinado por Gaudêncio Torquato, no site www.migalhas.com.br.

O professor e jornalista Gaudêncio Torquato é uma das pessoas atualmente mais bem informadas sobre as intimidades da política e da mídia brasileiras. Escreve bons artigos de análise política, aos domingos, na página dois do Estadão. Atua como prestigiado consultor nas áreas da comunicação institucional e do marketing político. Quando escreve e fala de política, sabe, portanto, o que diz e do que fala.

Vejam o que Torquato escreveu, em suas “Porandubas” desta semana, sobre o assunto Boris Casoy:

É verdade que Boris Casoy inaugurou um estilo de jorna-lismo na TV. E que o seu ciclo na TV Record poderia estar esgotado. Ou seja, fechou um ciclo. Boris tinha indepen-dência editorial para fazer pontuação forte sobre fatos e personagens. Mas a especulação sobre a teia de interesses políticos em torno do perfil polêmico de Casoy tem até sen-tido. O vice-presidente da República, José Alencar, perten-ce ao partido dominado pela Igreja Universal – PMR – Partido Municipalista Renovador. Alencar teria pretensões ambiciosas. Boris incomodava. Basta lembrar as cobranças que fazia sobre o affaire Santo André (assassinato do pre-feito Celso Daniel). O azeitamento da máquina televisiva faria parte da estratégia? Será que o jornalista não estava mais "rendendo" o que o grupo esperava dele? Será que se tornou um perfil caro? Ou a saída de BC foi apenas uma questão de rotina?
P.S. Urge acompanhar de perto – com olhos de águia - os movimentos da Igreja de Edir Macedo.

Talvez se possa dizer que a nota aí transcrita é um exercício especulativo. Mas um analista com as responsabilidades e a respeitabilidade de Gaudêncio Torquato não escreve à toa sobre assuntos de tal gravidade. Quem escreve uma nota dessas, sobre a qual coloca o peso do próprio nome, sabe bem o que diz e porque diz. Sabe, pelo menos, o suficiente para sustentar e comprovar o que insinua.

Entretanto, cabe repetir a pergunta:

- Quais as verdadeiras razões que levaram a Rede Record a silenciar Boris Casoy? Ou terá sido ele silenciado por algum poder oculto? - e é sempre bom lembrar que, quanto mais oculto, maior é o poder.
Alguém arriscaria respostas?

******

NOTA DE RODAPÉ – Aos eventualmente curiosos, o dicionário esclarece: poranduba é um termo do tupi, que significa notícia, informação, pergunta.

                        1/6/2006