Jornalistas trocam redações pela comunicação empresarial

Clarissa Sayumi, especial para o Comunique-se

 

A Comunicação Corporativa se consolida, gradativamente, como uma das principais ferramentas para o desenvolvimento de uma organização. O Guia Exame, publicação que se tornou referência no Brasil, tem como um dos fatores de avaliação, para a lista das cem melhores empresas para se trabalhar no país, a Comunicação. Assim, o avanço da inserção de jornalistas na área de comunicação institucional é tão expressivo atualmente que se tornou o principal campo de atuação do profissional no Brasil. Em 1993, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do DF calculava que metade dos 25 mil jornalistas brasileiros estava direta ou indiretamente relacionada com as assessorias, consultorias e planejamento de comunicação. E, ao contrário do que ocorria antes, quando atuavam em assessorias profissionais com experiência em redações, torna-se cada vez mais comum o jornalista sair da faculdade diretamente para uma assessoria de comunicação.

Segundo, Jorge Duarte, do site www.comunicacaoempresarial.com.br, uma pesquisa realizada junto aos cursos de comunicação do Estado do Rio de Janeiro mostrou que, dos cerca de 11 mil alunos matriculados em cursos de Jornalismo, a área de comunicação empresarial e institucional é a segunda grande área de absorção dos profissionais.

Na opinião de Miguel Jorge, vice-presidente de Assuntos Corporativos do Banco Santander Banespa, não há melhor escola de Jornalismo que a redação de um grande jornal. Sua carreira iniciou-se em 1963, como redator de A Gazeta, foi jornalista por mais de 20 anos e ocupou, praticamente, todos os cargos da profissão. “Parece-me que o jornalista que veio de redações será melhor profissional de Comunicação Empresarial que aquele que entra diretamente na área sem a experiência anterior nas redações. Penso que o jornalista que teve essa experiência e que, depois, está numa agência de comunicação, é capaz de entender melhor as necessidades de seu colega”, avalia.

A chegada das primeiras montadoras de veículos e a industrialização brasileira impulsionaram o mercado e motivava profissionais à inserção na Comunicação Organizacional. Em 1987, foi criada no Brasil a Autolatina, a maior empresa privada latino-americana. Convidado pelo então presidente da Volkswagen para ser diretor de Comunicação da empresa, Miguel Jorge tomou a decisão de deixar as redações pela Comunicação Empresarial. “Como jornalista, considerava que já tinha feito praticamente tudo o que um profissional poderia fazer na profissão, via como impossível a possibilidade de sair do Estadão, onde fui diretor de redação durante 10 anos, e trabalhar em um jornal concorrente, e era um enorme desafio o projeto da Autolatina, especialmente em termos de comunicação”, relata.

Em 1969, foi decretada a regulamentação do profissional de jornalismo. A essa altura, muitos jornalistas experimentavam trocar a correria das redações para aproveitar a agilidade aprendida em prol das organizações. Os salários de assessores também eram motivo para jornalistas trocarem de emprego, uma vez que as assessorias ofereciam mais atrativos financeiros.

Para Miguel Jorge, o jornalismo não deve ser tratado como uma questão de mercado. “Há jornalistas mal pagos e jornalistas fracassados na grande imprensa; há jornalistas bem pagos e jornalistas de sucesso na grande imprensa: há jornalistas mal pagos e jornalistas fracassados na Comunicação Empresarial; há jornalistas bem pagos e jornalistas de sucesso na Comunicação Empresarial”.

Já para Márcio Riscala, que foi repórter da Joven Pan até 1987 e hoje exerce a função de superintendente de Comunicação Externa do Grupo Telefônica, a Comunicação Organizacional é um bom mercado para quem quer ingressar na carreira de jornalismo. “É um mercado cada vez mais valorizado. Tanto financeiramente, quanto profissionalmente”, considera.

Em uma pesquisa, a Aberje - Associação Brasileira de Comunicação Empresarial - analisou o perfil da Comunicação Interna nas empresas e constatou que, dos profissionais encarregados da comunicação nas empresas, mais de 47% são jornalistas. Além disso, foi verificado que em mais de 80% das empresas, os investimentos em comunicação interna vêm crescendo.

Também em pesquisa, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo levantou o número total de jornalistas no Estado. Em 1986, eram mais de 5,3 mil jornalistas em São Paulo, contra mais de 7,2 mil em 2002. Destes, foram identificados quase 2,1 mil que trabalhavam em jornais, revistas e agências em 1986, enquanto em 2002 este número variou apenas para pouco mais de 2,6 mil. Em rádio e televisão, o aumento nas áreas foi muito mais notável. Em 1986, eram cerca de 540 profissionais. Em 2002 foram quase 1,2 mil. Já nos setores extra-redação, os jornalistas somavam quase 2,7 mil em 1986, mais do que os profissionais de outras mídias, e, em 2002, este número passou para mais de 3,4 mil.

“Atuar em uma organização é extremamente desafiador, pois o profissional de comunicação de uma empresa tem responsabilidades específicas, como ajudar a formar a imagem e reputação da companhia. Esse desafio, aliado à dinâmica corporativa, me fascina e me coloca como profissional de comunicação corporativa e não mais como um jornalista de redação”, considera Márcio Riscalla.

Segundo o jornalista e professor titular da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo Gaudêncio Torquato (1997), o Brasil apresenta “alguns dos mais rematados sistemas de Comunicação Organizacional do planeta, dando-se ao luxo de exibir alguns de seus produtos aos olhos do mundo como exemplos de excelência técnica”.

Além disso, com o mercado cada vez mais restrito das redações, muitos jornalistas também passaram a optar pelas assessorias de imprensa devido às condições mais tranqüilas de trabalho, sem fechamentos, menor estresse, sem correrias, com horário fixo de trabalho. Outra vantagem é o salário, em geral, bem maior do que o oferecido nas redações.

Um terço dos profissionais recebiam até seis salários mínimos, que era o piso previsto em lei para a profissão. Para Miguel Jorge, os horários não foram levados em conta na hora de optar por outro rumo em sua carreira. “Quando se gosta do que se faz, o horário não tem nenhuma importância. Quando trabalhava em jornal, ficava em casa pela manhã, horário em que convivia com minha família. Na área de Comunicação Empresarial, saio de casa bastante cedo e não consigo voltar em horários tão razoáveis”, conta.

De acordo com o jornalista, a vontade de estar na redação ainda persiste. “Às vezes, tenho saudades do ambiente das redações, da efervescência do fechamento diário, dos esquemas das grandes coberturas, quando um Papa morre, por exemplo. Entendo que isso é absolutamente normal pelo fato de ter vivido mais de 20 anos em redações. Mas considero muito difícil voltar para a imprensa. Na minha opinião, não se faz o mesmo caminho duas vezes” completa.


20/3/2006

Denise Djmal [20/03/2006 - 22:54]
(Freelancer)


Coisa mais esquisita, um grande evento sobre Comunicação Corporativa e nenhum representante dos Relações Públicas... eh, só no Brasil.
  

Ana Luiza Ponciano [20/03/2006 - 22:47]
(Estudante)


Acredito que a profissão jornalista não pode ser restrita, por isso cada vez mais os jornalistas migram para todas as áreas possíveis. Há 10 anos seria estranho encontrar tantos jornalistas em empresas, mas com o boom da profissão e com o aperfeiçoamento de tal, mais uma porta abre-se. Por isso acho tão importante a matearização de uma matéria como essa, com dados concisos (entrevista com uma dos maiores comunicadores do Brasil) e texto envolvente. Importantíssmo para profissionais dessa área. Parabéns, Clarissa!
  


Renata Rocha Inforzato [20/03/2006 - 20:17]
(Assessor de Imprensa-Paulinas Editora - SP)


(continuação) Até que sem dinheiro de novo, apareceu uma clínica, procurando alguém para asssessoria. Acabei voltando para a área. E foi pior, pois já sabia que era reportagem o meu sonho, o que eu queria. Em julho do ano passado, saí de novo. Então, mandei mais de 5 mil e-mails para as redações e nada. Só consegui um freela de uma semana. Agora, estou em uma outra empresa, na comunicação interna. Tenho 30 anos, não sou feliz com o meu trabalho, mas não perdi meu sonho. Uma hora vai aparecer. Mas, lendo isso, não pude deixar de pensar que daria tudo para estar nas redações em que esses jornalistas trabalharam e não nas empresas em que trabalham hoje. Desculpe a todos, principalmente se encontrarem erros de português. Isso foi um desabafo.
  


Renata Rocha Inforzato [20/03/2006 - 20:11]
(Assessor de Imprensa-Paulinas Editora - SP)


Gente, pode parecer ant-ético o que vou escrever, até pq o nome da empresa em que trabalho está embaixo do meu nome. Quando leio isso me dá até vontade chorar. ODEIO comunicação empresarial e assessoria de imprensa. E AMO reportagem. Mas, na época em que era estudante, após um tempão sem estagiar esperando entrar para a reportagem, apareceu uma assessoria de imprensa. Sem saída, aceitei. Aí depois de um ano, saí para procurar redação. Porém, sem experiência, ninguém me contratou, nem para freela. O dinheiro que guardei foi-se acabando e sem saída novamente, entrei em outra assessoria. E o ciclo se repete há seis anos. Cada vez que saio de uma assesoria ou da área de comunicação interna de uma empresa, saio cheia de esperanças e nada. Um dia consegui uma vaga em uma jornal de Carapicuíba, na Grande São Paulo. Fiquei numa felicidade que vcs não acreditam. Contudo, depois de três meses, o jornal fechou. Foi muito azar! Esperei para que aparecesse uma vaga em outro veículo, mas nada. (con
  

  Delmar Marques [20/03/2006 - 19:28]
(Diretor-DM Textual Editoração Eletrônica - SP)


E precisa, Victor?

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  Victor Abramo [20/03/2006 - 18:50]
(Freelancer)


Onde está o Delmar que não se manifesta numa hora dessas?

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Boanerges Lopes [20/03/2006 - 17:52]
(Professor-Universidade Federal de Juiz de Fora - MG)


Prezada Clarissa, Quando você citou a pesquisa, no segundo parágrafo do texto, esqueceu de acrescentar quem a coordenou, já que isto está claro no texto do Duarte, "Assessoria de Imprensa, um caso brasileiro", originalmente no endereço <http://www.comunicacaoempresarial.com.br/artigoassessoriajorgeduarte.htm> Reproduzo para evitar confusões. Ela foi feita sob a minha coordenação e publicada inicialmente na revista Fonte. Eis o que diz o Duarte: 9) Pesquisa realizada junto aos cursos de comunicação do Estado do Rio de Janeiro mostrou que, num universo que variou de 5% a 10% dos cerca de 11 mil alunos matriculados em cursos de Jornalismo, a área de comunicação empresarial e institucional é a segunda grande área de absorção dos profissionais (Lopes, 1997:66).
  

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Fonte: Comunique-se 20/03/2006